10 maneiras de trabalhar com urbanismo

Vários leitores já me perguntaram como podem contribuir com a sua cidade ou iniciar um trabalho em urbanismo. Alguns são estudantes de arquitetura, outros são urbanistas recém formados, e outros são cidadãos engajados querendo transformar as suas cidades. As formas são várias, do trabalho voluntário ao profissional remunerado e, inclusive, pelas decisões que tomamos no nosso dia a dia.

Aos domingos e feriados, o trânsito de veículos na Avenida Paulista é bloqueado, tornando-se um espaço de lazer. (Foto por sergio souzaUnsplash)

 

Preparo

Antes de começar é importante saber o que exatamente significa “ajudar” a cidade, ou até mesmo refletir sobre qual o objetivo que você gostaria para a sua cidade, então algum tipo de embasamento educacional é importante. Existem muitas pessoas engajadas que, na prática, podem prejudicar a acessibilidade da cidade com suas demandas, apesar de levantarem uma bandeira à favor dela. Exemplo são algumas associações de moradores que lutam para impedir novas construções regiões bem localizadas da cidade, restringindo a oferta de moradia em detrimento daqueles que gostariam de morar mais próximos à região central da cidade. Essas instituições têm todo direito de se manifestar, mas os argumentos usados nem sempre tem resultados positivos claros para a cidade como um todo.
Outros, por exemplo, divulgam e defendem ferozmente o investimento público em grandes projetos de infraestrutura como viadutos e VLTs por acreditarem que são boas solução de mobilidade, enquanto raramente são. Estudos técnicos são necessários para verificar a viabilidade econômica de grandes projetos e se eles seriam, de fato, a melhor solução de transporte para a cidade.
Tais exemplos mostram que é importante estar informado antes de iniciar um engajamento pela cidade. Ultrapassada a fase de preparo, listo dez maneiras de trabalhar com urbanismo:

 

1. Setor público

Talvez a forma mais convencional de se atuar em urbanismo seja através do setor público: é possível trabalhar em órgãos municipais como secretarias de planejamento urbano ou departamentos relacionados a transporte para entender, na prática, como as decisões são feitas na gestão pública das cidades. Esta é a primeira alternativa que vem em mente aos que desejam trabalhar no setor, mas que às vezes é descartada por ser limitada em termos de número de oportunidades e nem sempre se adequar às aspirações profissionais daqueles que desejam transformar as suas cidades.

 

2. Ativismo urbano

O ativismo urbano é uma forma tradicional e poderosa de trabalhar pela cidade, mesmo que sem fins lucrativos, e que não requer uma formação tradicional. A partir do ativismo, a lendária Jane Jacobs, inciou com jornalismo e através de seus livros e trabalho de ativismo se tornou uma das urbanistas mais influentes do nosso tempo. Ela conseguiu, por exemplo, mobilizar a população e impedir a construção da Lower Manhattan Expressway, uma super avenida de dez faixas que atravessaria as regiões de Manhattan do Greenwich Village, SoHo, Little Italy, Chinatown e Lower East Side, além de uma série de outras vitórias pelo meio do ativismo. Exemplos semelhantes de protesto ocorrem no Brasil, como os movimentos que denunciaram irregularidades nas licitações do Cais Mauá e do Cais Estelita, em Porto Alegre e Recife, respectivamente.

Projeto Lower Manhattan Expressway em perspectiva. (Imagem por Library of Congress, Picryl)

 

3. Consultoria

Para quem já é da área, uma forma convencional é trabalhar para consultorias que, por sua vez, complementam os corpos técnicos públicos oferecendo serviços e projetos. É muito comum prefeituras contratarem serviços de consultoria para a elaboração de planos de mobilidade, planos diretores ou para a implementação de grandes obras como redes de metrô ou BRTs. A WRI, que possui uma sede brasileira em Porto Alegre, é uma consultoria sem fins lucrativos que trabalha na área de mobilidade. Já a Engemind, onde trabalhou Marcos Paulo Schlickmann, colaborador do Caos Planejado, funciona como uma empresa na área de transportes. Até mesmo empresas de consultoria mais tradicionais e genéricas, como a McKinsey ou a KPMG, possuem grupos internos específicos que tratam de temas específicos desde o auxílio a prefeituras na regulação de aplicativos de transporte a projetos de infraestrutura.

 

4. Pesquisa e educação

Outra área tradicional no urbanismo é a área de pesquisa, seja ela na academia ou no setor público. É possível encontrar departamentos de urbanismo em universidades do Brasil inteiro onde é possível realizar pesquisas e ministrar aulas na área de urbanismo profissionalmente. Ainda, em entidades como o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o IPEA, podemos encontrar pesquisadores como a Vanessa Nadalin, que já escreveu para o Caos Planejado sobre imóveis vazios, e Rafael Pereira, pesquisador na área de transportes e autor do excelente blog Urban Demographics.

 

5. Câmara de Vereadores

Também no setor público, um papel pouco valorizado de contribuição para a cidade é o do vereador. A Câmara dos Vereadores é responsável por aprovar todas as leis municipais, inclusive o Plano Diretor, que é o documento de maior impacto para o futuro de uma cidade. Infelizmente a eleição de vereadores ainda é pouco valorizada perante o impacto que a Câmara pode ter no rumo de uma cidade, mas seria interessante ver isso mudando no futuro. Vereadores deveriam ser os grandes interessados no futuro da cidade, estando bem versados em questões relacionadas ao desenvolvimento urbano.

Foto de satélite da cidade de Brasília, DF. (Foto por NASA/GSFC/METI/ERSDAC/JAROS e U.S./Japan ASTER Science Team)

 

6. Urbanismo tático

Outra forma de contribuir para a cidade é o que atualmente chamam de “urbanismo tático”, ou “tactical urbanism”, em inglês, onde moradores fazem pequenas intervenções em espaços públicos e privados, gerando grandes resultados para a sua melhoria. Nestes casos normalmente não há muita dúvida sobre a repercussão positiva da ação, que pode ser desde ajudar a tapar buracos nas calçadas como espalhar cadeiras em espaços para as pessoas sentarem. Em São Paulo, existem entidades como o Sampapé, que estimulam o transporte a pé pela cidade. Em Porto Alegre existe o projeto Shoot the Shit, que busca formas criativas de melhorar a cidade aos poucos. Um dos poucos exemplos que pode gerar algum risco é o movimento para plantar árvores em espaços públicos de forma espontânea. Embora árvores, de forma geral, podem contribuir para o bem estar no ambiente urbano, a escolha errada de espécies ou locais para plantio pode gerar problemas como o conflito entre o crescimento das raízes e a infraestrutura urbana, como calçadas e tubulações, frutos que podem ser tóxicos ou cair nas calçadas, e dificuldades de poda e manutenção. De forma geral, o urbanismo tático envolve coisas simples, mas que fazem a diferença na mobilização da comunidade.

 

7. Startups urbanas

Neste mesmo sentido, existem várias startups que estão cada vez mais relacionadas com as cidades, com possibilidade de grande impacto. Os exemplos mais evidentes seriam as startups de transporte como Uber, 99, Easy e Cabify, que participaram ativamente da criação de uma solução mais tecnológica para o transporte individual. Agora uma nova onda de startups está trabalhando na área de bicicletas e patinetes compartilhados, com a Yellow e a Loop. Não só startups, mas empresas de tecnologia em diferentes escalas estão cada vez mais investindo em cidades. Por exemplo, a Alphabet, holding da Google, possui no grupo uma empresa chamada Sidewalk Labs que busca investir em inovações aplicadas a cidades, e que agora pretende redesenvolver um bairro inteiro de Toronto testando uma série de novas tecnologias. Ou seja, existem várias oportunidades para empreender em benefício da sua cidade.

 

8. Incorporação imobiliária

A área de incorporação imobiliária também possui um papel transformador na cidade que não deve ser descartada para aqueles que tem o urbanismo como objetivo. O entendimento de cidades pode ser um grande diferencial na hora de escolher um terreno e de avaliar um projeto de arquitetura, e atualmente carecem bons exemplos de edificações que possuem uma relação positiva com a cidade. Empresas como a Moby, de São Paulo, tentam desenvolver seus edifícios de maneira extremamente consciente na sua relação com a calçada e a cidade, inclusive apoiando sites de urbanismo como o Esquina. Em uma escala maior, empresas de loteamento podem ter ideias diferenciadas e o impacto social como prioridade, trabalhando na criação de verdadeiros bairros planejados. A UPSA, por exemplo, faz um trabalho profundo de pesquisa sobre a criação de espaços públicos para a área que está desenvolvendo e lidera um enorme processo de regularização fundiária da comunidade ao seu entorno.

 

9. Consumo consciente

Do outro lado do balcão, sempre temos que lembrar que, como consumidores, também estamos direcionando o crescimento da cidade, e você pode exercer seu poder de consumidor de forma consciente. Na compra de um imóvel, você pode procurar um edifício que esteja contribuindo para o espaço urbano da sua cidade, e não um que se isola na quadra. Você pode escolher reformar um apartamento no centro, ao invés de comprar uma casa na periferia, diminuindo a demanda para o espraiamento da cidade. No lado da mobilidade, se a sua rua for segura, você pode experimentar andar a pé ou de bicicleta, pois a sua ação incentiva outras pessoas a fazerem o mesmo. A criação de associações de bairros, às vezes até mesmo por grupos de WhatsApp ou Facebook, também podem ajudar em um processo colaborativo de melhorias do bairro e de desenvolvimento de uma rede de apoio entre moradores que às vezes falta em grandes cidades.

 

10. Plataformas de comunicação

Aqui no Caos Planejado, nos consideramos parte do ecossistema de urbanismo através da área de comunicação. Outras plataformas existem no Brasil com formatos semelhantes, como o Esquina, ligado ao Estadão, e a Arq.Futuro, que publicou o nosso Guia de Gestão Urbana e que também promove cursos e eventos sobre urbanismo. É importante destacar que o Caos Planejado iniciou como um blog pessoal que buscava entender melhor os assuntos relacionados a cidades. Com a internet, as ferramentas estão disponíveis para todos criarem suas plataformas para compartilharem suas ideias, algo que deve ser estimulado para criarmos um ecossistema mais rico e acessível sobre urbanismo. Nos Estados Unidos, por exemplo, a “blogosfera” de urbanismo é muito mais avançada que no Brazil, com centenas de blogs e milhares contas de Twitter que discutem sobre temas desde políticas de moradia a projetos de transporte. A participação cívica em uma discussão mais aprofundada sobre os projetos acaba gerando maior conscientização sobre as políticas urbanas e uma melhor cobrança pela responsabilidade dos gestores públicos.

E você, como vai transformar a sua cidade?

  1. Marcelo

    muito obrigado por este texto, é extremamente necessário saber as diferentes formas com que podemos agir na cidade. Parabéns!

    Responder
  2. Marina

    Ótimo texto. Sou designer e apaixonada pelo tema das cidades. Sempre em busca de como posso migrar para o urbanismo profissionalmente.

    Responder

Deixe um comentário