Um elogio às pequenas tentações (e como o condomínio-clube pode acabar com elas)

Pedestres caminhando em frente ao Conjunto Nacional, na Av. Paulista em São Paulo. Foto: flborges @ Flickr

Pedestres caminhando em frente ao Conjunto Nacional, na Av. Paulista em São Paulo. Foto: flborges @ Flickr

A influência de um edifício não se resume ao terreno em que está inserido: o desenho da sua relação com o espaço público que o envolve é fundamental para que uma cidade seja mais agradável, civilizada. Um condomínio-clube que fecha um quarteirão com muros, volta as costas dos prédios para a rua, tem apenas uma portaria para pedestres enclausurada e blindada está — para evitar eufemismos – destruindo a vida urbana que poderia haver em seu entorno. Ninguém se sente estimulado a andar sábado à tarde com o cachorro por uma calçada que é inteira acompanhada por muros. É um passeio monótono, chato e, portanto, vai ser vazio e perigoso.

A calçada talvez seja o espaço público mais importante da cidade. As nossas melhores experiências nas cidades mais interessantes do mundo geralmente acontecem nas calçadas. Quando pensamos em Paris – para citar uma quase unanimidade –, uma das primeiras imagens que nos vem à mente é um café na beira da calçada. Mas não é só o café que esta imagem representa: é o quão agradável a vida urbana pode ser numa cidade que, em vez de um muro bege, oferece à nossa imaginação a aventura ou o conforto que podemos desfrutar caso, caminhando com nosso cachorro sábado à tarde, decidamos entrar no café – onde podemos nos proteger de uma garoa e sentar ao lado da Natalie Portman. Andar pela cidade ideal é uma sequência de pequenas tentações.

E o condomínio-clube – a idéia do quarteirão fechado por muros com “lazer exclusivo” – é a anti-cidade: ele esvazia as calçadas e, portanto, acaba com a graça de da vida urbana. Esse tipo de iniciativa deveria ser inibido por uma legislação eficiente. Mas não é: bairros que foram muito verticalizados nos últimos anos (como Móoca, Vila Leopoldina, Barra Funda) receberam vários empreendimentos residenciais totalmente fechados e aprovados de acordo com a legislação vigente. E o problema desses conjuntos habitacionais não é só a indelicadeza da sua relação com a rua. Mais grave do que isso talvez seja a consequência desses empreendimentos na organização da cidade: porque esse tipo de projeto não inclui, embaixo das suas torres, o pequeno comércio que ocupava as casinhas que precisou demolir – e que são fundamentais para que a vida urbana floresça completamente.

Um bairro sem uma mercearia, um barbeiro, uma farmácia, por mais central que seja geograficamente, é subúrbio: seus moradores vão precisar pegar o carro e ir ao shopping para comprar uma caixa de fósforos. Detroit, inspirada nesse modelo, faliu formalmente, e Alphaville, nossa clássica experiência em edgecity, está totalmente engarrafada. Nossa atual legislação urbana, quando desestimula o comércio embaixo de edifícios residenciais (por exemplo, considerando o térreo inteiro como área computável quando apenas 30% do térreo é ocupado com uma loja), está trazendo o subúrbio para o centro da cidade. A consequência será mais Morumbis e menos Higienópolis; mais calçadas vazias e menos Conjuntos Nacionais; mais trânsito e poluição e menos chance de, levando o seu beagle para passear sábado à tarde, reparar, pelo vidro que separa um pequeno café da calçada, que Natalie Portman está lá dentro sozinha com cara de triste.


“…o que pode prejudicar um bairro geralmente não é a verticalização ou o adensamento populacional que o empreendimento traz. Manhattan é prova disso.”


Existe certa razão, portanto, na preocupação que algumas pessoas têm quando um empreendimento imobiliário gigante aparece em sua vizinhança. Mas o que pode prejudicar um bairro geralmente não é a verticalização ou o adensamento populacional que o empreendimento traz. Manhattan é prova disso. O problema é a verticalização ou o adensamento mal pensados: com projetos desenvolvidos com pressa, que desconsideram o espaço público em seu entorno, não têm lojas no térreo e estão estufados de tanta vaga em seus subsolos. Vagas que, aliás, precisavam – até o Novo Plano Diretor de São Paulo entrar em vigor – ser construídas obrigatoriamente em número mínimo: o que vai na contramão do incentivo à bicicleta e ao transporte público e encarece os imóveis na cidade. O Swiss RE Building, em Londres, um projeto do Foster + Partners, com 41 andares e mais de 40.000 metros quadrados de escritório, tem cinco vagas de estacionamento – para deficiente físico.

São esses tipos de anomalias que precisam ser revistas na Lei de Zoneamento de São Paulo. Não queremos morar numa cidade-subúrbio e a nossa legislação não pode considerar – ou, pior, incentivar – o carro como principal meio de transporte. Precisamos trazer as pessoas para mais perto do trabalho – e o trabalho para mais perto das pessoas –, evitando desperdício de tempo e dinheiro em locomoções diárias. Pequenos comércios e serviços não podem desaparecer das ruas e se esconder na área de conveniência de shopping centers. O Novo Plano Diretor de São Paulo, recentemente aprovado, aliás, estimula esse uso misto – de residencial e comercial – em novos empreendimentos.

A Lei de Zoneamento ideal deve considerar um dos aspectos mais importantes da vida urbana: a civilidade. Em suas praças e parques, bares e padarias, uma cidade aproxima pessoas diferentes (em idade, religião, classe social, etc.), e faz com que, compartilhando o mesmo espaço, elas conversem, troquem experiências, se eduquem mutuamente – e se divirtam juntas. É por isso que a vida urbana é fundamental a uma sociedade civilizada: porque, aproximando pessoas, ela estimula a tolerância, o aprendizado e a imaginação.

Estimula a imaginação quando, por exemplo, um adolescente de 13 anos, voltando a pé da escola, cruza com um saxofonista indiano com o penteado de Kenny G exibindo seu talento na frente de uma livraria especializada em biologia. De uma vez só, uma nacionalidade, um penteado, uma música e uma matéria que ele julgava chata se apresentaram numa combinação inusitada, interessante – o que pode animá-lo a tocar sax, estudar biologia, deixar o cabelo crescer como o do Kenny G ou visitar a Índia. Um dos principais prazeres de se morar numa cidade grande é o de encontrar pelo caminho esse tipo de novidade inesperada: e na frente de um café, num sábado à tarde, olhar para o seu beagle e com ele decidir consolar, se não a Natalie Portman, alguém sozinho, triste – que acabou de fugir de um condomínio-clube porque desconfiava que o mundo era maior do que aquilo.

Eduardo Andrade de Carvalho é sócio da Moby Incorporadora e editor de Cidades da revista Amarello.

Este texto foi originalmente publicado na revista Contraste, editada pelos estudantes da FAU-USP, no segundo semestre de 2013.

  1. Joselino Santos de Albuquerque

    Quando a gente faz ninguém vê, quando agente erra todos criticam !!

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  2. Alderito Oliveira

    Excelente reflexão. Atualmente vivo em Fortaleza-Ce. , e a cidade esta se tornando um retrato vivo do que esta descrito em seu artigo. Um conglomerado de condominios-clubes-fortalezas e casas de muros gigantes, sem cor, sem verde, sem comércio e sem vidas no seu entorno. Naturalmente já existe certa dificuldade de se andar a pé nas ruas por aqui, devido a calor e sol inclemente, hoje há um desestimulo pela falta de boas calçadas, a completa inexistência do comercio de rua, que por sua vez, tambem traz a insegurança. Do que aduanta edifícios e clubes privados arquitetonicamente belos, mas ruas feias, desertas e inseguras??? Viramos prisioneiros voluntários por nossa condição e pelo medo…

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  3. Mauro Nadruz

    Perfeito!
    Também sou adepto aos espaços abertos. Perdemos em qualidade de vida e em segurança.
    É só observar as cidades onde a comunidade interage para ver que os meliantes não se arriscam. Afinal, a comunidade cuida um dos outros. Hoje, sequer conhecemos ou interagimos com nossos vizinhos. Vivemos enclausurados à mercê dos bandidos, mas quando visitamos cidades abertas, ficamos maravilhados com a limpeza, a interação e a segurança.
    Estamos no rumo errado! Sei disso porque sou analista e gestor em segurança.

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  4. reginaldo

    Que referê ncias são essas a Natalie Portman? Trata-se de um filme?

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