Chicago, um bom exemplo de urbanismo moderno

Imagem: Pedro Lastra/Unsplash.

“Os arquitetos dessa terra e geração agora devem encarar algo novo sob o sol — a saber, a evolução e integração de condições sociais, aquele agrupamento especial delas, resultando de uma demanda por edifícios de grande altura.” —
Louis Sullivan, 1886


Chicago é a terceira cidade mais populosa dos Estados Unidos, depois de Nova York e Los Angeles. Apresenta, igualmente, grande importância financeira e de influência, com uma forte indústria de telecomunicações, além de dispor de um intenso fluxo de turistas durante todo o ano.

Apesar de não ser tão popular e suntuosa quanto Nova York ou Los Angeles, suas esquinas e prédios foram eternizados em várias elementos da cultura, desde o cinema, literatura e esporte.

Aliado a isso, para a história das cidades e do urbanismo moderno, Chicago sempre foi um ponto de referência. Sem nenhum exagero, podemos afirmar que a cidade foi pioneira no processo de verticalização contemporâneo, além de ser precursora na aplicação dos princípios modernos de arquitetura e urbanismo.

Além disso, a cidade conseguiu estabelecer um excelente espaço urbano, garantindo maior qualidade de vida para seus habitantes e uma condição urbana admirável. Mas por que o urbanismo moderno de Chicago funcionou tão bem, ao passo que outros exemplos ao redor do mundo fracassaram?

Para responder tal questão, é necessário entender a construção do ideal moderno de Chicago do início do século XX, além de outros fenômenos inerentes ao período.

 

Verticalização, variedade de usos e alto índice de aproveitamento

Verticalização é um fenômeno de caráter urbano, que consiste na multiplicação sistemática de arranha-céus na cidade de forma rápida, desenvolvendo, assim, elementos verticais por toda a cidade, especialmente em suas regiões mais povoadas. Entre os maiores exemplos de cidades verticalizadas, temos Nova York, Hong Kong e Chicago.

Sua implementação está ligada diretamente ao elevador, que torna possível a construção de edificações com gabaritos mais elevados, sem tornar a vida moderna desconfortável. O fenômeno de verticalização na contemporaneidade teve início nos EUA, principalmente na cidade de Chicago, que precisou ser reconstruída após um grande incêndio. Este desastre devastou boa parte das edificações da cidade, ainda em meados da segunda metade do século XIX. Da tragédia, surgiu a oportunidade da renovação urbana, que passou tanto pela construção dos arranha-céus modernos — com utilização de metal e concreto armado —, quanto pela execução de um novo ordenamento urbano, que foi o Plano Burnham.

Representação da cidade de Chicago antes do grande incêndio de 1871. (Imagem:
W. Flint /Wikimedia)

Além disso, William R. Curtis, em seu livro “Arquitetura Moderna desde 1900”, destaca que as tradições recentes diminuíam a resistência das populações locais dos EUA para a aceitação de uma tipologia moderna como a do arranha-céu. Na Europa, por exemplo, esta tipologia não teve o mesmo assentimento, sobretudo pelo caráter mais tradicional de sua sociedade — a Torre Eiffel, por exemplo, sofreu grande resistência durante a sua implantação.

A racionalidade da planta livre e do uso de materiais construtivos são outros elementos que fizeram a nova tipologia de edificação se destacar perante as antigas construções. O arranha-céu passa a ser, portanto, um símbolo da cidade americana, seu progresso e a imagem de um lugar de oportunidades. 

 

A cidade de Chicago e seus arquitetos

Uma cidade é resultado direto de seus construtores. Às vezes, parte significativa deles está intimamente ligada com a arquitetura, e o significado de sua construção torna-se mais profundo, com transmissão de valores, cultura, visão de mundo — além da visão pessoal do arquitetura sobre edificação, cultura e sociedade. Dessa forma, a arquitetura pode ser tanto um elemento de reafirmação cultural, quanto de contracultura.

Chicago teve a sorte de dispor de alguns dos melhores arquitetos do seu tempo. Nomes como Mies van der Rohe, Louis Sullivan e Frank Lloyd Wright são eternos na arquitetura e deixaram uma enorme contribuição para a cidade, participando ativamente da construção da arquitetura e do urbanismo moderno, assim como da noção de modernidade urbana. O pioneirismo de ambos, precursores da arquitetura moderna em uma era em que a arquitetura historicista era dominante, destaca o poder das ideias e convicções profissionais na mudança da arquitetura não apenas em Chicago mas nos EUA inteiro.

Edifícios residenciais projetados por Mies van der Rohe no Lake Shore Drive. (Imagem: Dennis Flax/Flickr)
 

A riqueza americana e a Escola de Chicago

Segundo diversos pesquisadores, o século XIX foi o período em que surgiram as maiores fortunas dos EUA e de toda a história da humanidade. Magnatas como Andrew Carnegie, Cornelius Vanderbilt e John D. Rockefeller, surgiram nessa época. Rockfeller, o mais rico e influente de todos eles, fez enormes contribuições nos mais variados campos, e a educação superior foi uma delas.

Graças à doação do Magnata, instituições como a Universidade de Chicago, uma das mais importantes do mundo na atualidade, tiveram recursos para pesquisar os mais variados assuntos, como o urbanismo e a sociologia urbana. 

 

O Plano Burnham

Assim como em toda as cidades modernas, Chicago contou com instrumentos e noções modernas de planejamento urbano, sendo o Plano Burnham, produzido por Daniel Burnham, o mais importante deles. Entre as principais diretrizes do plano, construído ao longo de vários anos, mas formalmente iniciado em 1906, temos: o desenvolvimento de um sistema regional eficiente por natureza, incorporação física de terrenos próximos ao lago, aprimoramento de terminais rodoviários e ferroviários, criação de um centro cívico, inclusão de sistema de parques abertos e desenvolvimento de uma malha que possibilitava caminhos estratégicos para o centro da cidade.

Plano Diretor produzido por Daniel H. Burnham and Edward H. Bennett para a cidade de Chicago. (Imagem: Wikimedia)

Dessa forma, especialmente pela última diretriz citada, a cidade desenvolveu um sistema de rápida ligação entre o centro e suas áreas adjacentes. Dessa maneira, a cidade conseguiu mesclar as áreas residenciais e áreas comerciais de forma funcional e eficiente, beneficiando tanto as classes mais favorecidas, que moravam nas casas de pradaria longe do centro, quanto para as classes menos favorecidas, que tinham rápido acesso ao trabalho — independentemente se moravam no centro adensado de Chicago ou em bairros populares distantes.

Vale destacar que as construções possuíam alto índice construtivo e nenhum afastamento legal até então, sendo a maioria das regulações referentes somente ao estilo arquitetônico de cada edificação. Desse modo, apesar do plano levar como norte a Cidade de Paris e seu sistema viário, não se limitava aos 5 ou 6 pavimentos da capital francesa. Por fim, vale salientar que o uso misto e a alta densidade — que o plano não buscou alterar — contribuíram para tornar Chicago uma das mais atraentes cidades americanas do século XX.

 

Descontinuidade do padrão de verticalização no urbanismo americano

Apesar das inúmeras qualidades que a verticalização, uso misto e alta densidade populacional proporcionaram às cidades americanas, especialmente em sua costa leste, esse padrão passou a ser abandonado gradativamente ao longo do século XX. Atualmente, os grandes centros urbanos verticalizados dos EUA são apenas resquícios do caos urbanístico de outrora.

A mudança não ocorreu de uma hora para outra, mas foi resultado de um longo processo, que envolveu cultura, mercado imobiliário, incentivos governamentais e influência da academia e intelectuais.

Na cultura, várias foram as influências — na música, no cinema e na literatura — que propagavam a vida nos subúrbios aliada ao estilo de vida e sonho americano. Já o mercado imobiliário atuou de maneira nada nobre, aproveitando-se do grande racismo da época, oferecendo casas distantes das comunidades negras, latinas e asiáticas, que encontravam nos centros urbanos uma alternativa acessível de habitação. Na influência governamental, destacamos a oferta de crédito imobiliário para a construção e aquisição de habitação nos subúrbios.

Por fim, temos a influência da academia e dos intelectuais no processo de construção do ideário do subúrbio americano, que contribui para esvaziar e desvalorizar os centros das cidades americanas. Entre eles, destaca-se Clarence Arthur Perry, defensor da Unidade de Vizinhança, volta da “vida comunitária”, distanciamento do caos urbano da habitação e consequente estruturação da cidade em forma de árvore, criticado anos mais tarde por Christopher Alexander.


A racionalização da infraestrutura viária, em uma malha xadrez — aliado à verticalização de arranha-céus de aço e concreto — possibilitou o surgimento de uma das maiores metrópoles contemporâneas, cujo legado perdura até os dias atuais.


Suas ideias foram fundamentais para a criação da Superquadra de Lucio Costa, ressaltando a profundidade e similaridade de suas ideias. Assim sendo, o urbanismo moderno apresenta várias facetas. Embora omodernismo Le Corbusiano seja o mais famoso, há outras versões de modernidade urbana que foram positivas para a construção das cidades, como é o caso de Chicago, nos EUA.

A racionalização da infraestrutura viária, em uma malha xadrez — aliado à verticalização de arranha-céus de aço e concreto — possibilitou o surgimento de uma das maiores metrópoles contemporâneas, cujo legado perdura até os dias atuais. O Plano Burnham se preocupou em racionalizar os parques e os transportes na cidade de Chicago, tendo pouco efeito sobre a gestão do solo privado.

Assim sendo, as baixas exigências regulatórias permitiram que a cidade construísse um grande número de habitações — para cima e para os lados, o que faz da cidade até hoje um dos mercados imobiliários mais acessíveis dos EUA. Aliado a isso, a qualidade científica e profissional dos arquitetos de Chicago fizeram desta uma das maiores e melhores cidades americanas do século XX.

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    Edson Luiz V Silva

    Um bom texto, mas evitou tocar em como resolver as questões técnicas, que obrigatoriamente, devem ter sido utilizadas pelos projetistas dos edifícios de Chicago para conseguirem construir uma das melhores e maiores cidades americanas. Como isto pode acontecer sem que sejam exigidas a limitação de recuos e taxas de ocupação, sendo liberada a altura das edificações? O que aconteceu em Chicago e não ocorreu em Brasília? O texto não revelou os segredos dos sucessos de Chicago que não pode ser, simplemente, a fama de seus arquitetos.

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      Virginia Hatsue

      Excelente comentário e digno de uma reposta!

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      Paulo Vale

      Obrigado pelo comentário e pelo questionamento! O ponto levantado no texto foi: justamente por ter menos restrições construtivas, a cidade de Chicago conquistou uma melhor urbanidade. Não, não aconteceu em Brasília, que ao contrário de Chicago, possui muitas limitações construtivas (a nossa capital federal foi planejada para continuar sempre da mesma forma, algo antagônico à própria natureza das cidades).

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