Um dia sem carro não faz uma cidade menos dependente dele
Se a dependência do carro é resultado de uma trajetória, sua reversão não pode ser delegada à uma escolha individual por 24 horas.
Na Missão Urbanística do Caos Planejado, conhecemos dois bairros portenhos que mostram caminhos para a urbanização de favelas no Brasil.
22 de outubro de 2026O Brasil tem mais de 12 mil favelas e comunidades urbanas, segundo o IBGE. O desafio para levar infraestrutura, regularização fundiária, melhorias habitacionais e espaços e serviços públicos de qualidade para esses territórios é enorme e urgente.
Pensando nesse cenário, alguns casos de urbanização de favelas viraram exemplos clássicos para os urbanistas brasileiros, como o próprio programa carioca Favela-Bairro, dos anos 1990 —, o Programa Mananciais em São Paulo, focado em famílias em áreas de risco geológico e hidrológico, e a grande iniciativa de urbanismo social da cidade de Medellín, na Colômbia.
Pouco se fala, no entanto, sobre os casos argentinos. Na Missão Urbanística do Caos Planejado para Buenos Aires, em setembro de 2026, tivemos a oportunidade de conhecer dois bairros que eram assentamentos informais e passaram por processos de urbanização e melhorias na última década, e ficamos surpresos com a qualidade dos projetos.
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A história do bairro Rodrigo Bueno — cujo nome é uma homenagem ao cantor argentino Rodrigo Alejandro Bueno, que morreu em um acidente de carro em 2000 — começa nos anos 1970, quando o governo passou a despejar na orla da Costanera Sur o entulho das demolições feitas para abrir rodovias na cidade. O aterro acabou virando posteriormente uma reserva ecológica, que começou a ser ocupada nos anos 1980 em suas bordas por famílias em situação de vulnerabilidade. Não havia água encanada, esgoto ou eletricidade, e a área estava ao lado de um córrego sujeito a inundações.
Rodrigo Bueno está localizado logo ao lado do famoso Puerto Madero, antiga zona portuária que foi transformada em um polo de escritórios e moradias de alto padrão a partir dos anos 1990. Assim, boa parte dos moradores da ocupação informal trabalhava nos arredores, em obras de construção e no comércio informal. A valorização da região com o desenvolvimento de Puerto Madero fez com que o terreno do Rodrigo Bueno passasse a interessar ao mercado imobiliário, e por mais de dez anos a prefeitura tentou remover os moradores, que resistiram.
Em 2016, porém, a gestão municipal abandonou as ações judiciais e passou a construir o projeto com a comunidade. Uma equipe de assistentes sociais, antropólogos e arquitetos passou a atuar diariamente no bairro, e em 2017 foi aprovada uma lei que estabeleceu a reurbanização e a integração do bairro à cidade, preservando parte da ocupação original.

Na nossa visita ao bairro, fomos recebidos por Eli, moradora e líder comunitária. Ela contou que hoje vivem ali cerca de 3.500 pessoas, das quais aproximadamente 650 estão na chamada área histórica — uma parte do bairro que não teve alteração e que, segundo ela, deveria ser mantida assim para preservar a história. No projeto, as famílias que moravam sobre o córrego, em situação mais precária e de maior risco, foram as primeiras a serem realocadas para novas moradias. Porém, a ideia era que elas pudessem permanecer no bairro, e para isso novas edificações foram construídas em uma terra ociosa ao lado da ocupação. Em cerca de três anos, foram erguidas 611 unidades, em prédios de quatro andares com apartamentos de vários tamanhos diferentes. As novas moradias foram financiadas aos moradores, com prestações calculadas conforme a renda de cada família, e o valor da casa antiga foi descontado do preço da nova.
Um novo traçado viário deu endereço às casas, e a abertura de uma nova rua melhorou a conexão do bairro com o entorno, inclusive Puerto Madero. Chama atenção a qualidade das construções e dos espaços públicos criados. Os comércios da parte demolida foram realocados no térreo dos novos prédios, mantendo a mistura de usos de antes, mas agora em condições muito melhores.
A parte da área histórica que permaneceu está bem próxima e conectada à parte nova. As famílias que não estavam em risco imediato puderam continuar em suas casas e tiveram acesso a reformas e infraestrutura. Eli nos contou, no entanto, que os moradores do lado histórico ainda convivem com insegurança em relação à posse.

O projeto de urbanização também abriu espaço para um impulsionamento da economia local. Em 2021, foi inaugurado no Rodrigo Bueno um pátio gastronômico ao ar livre, onde moradores vendem comida para vizinhos e visitantes. Vimos ainda a horta comunitária liderada por Eli e o viveiro montado em um terreno que antes abrigava um ferro-velho. O projeto começou em 2019 e reúne 16 mulheres, que vendem mudas e plantas e reinvestem o resultado na horta.
Embora Rodrigo Bueno seja um caso interessante com muitas lições a oferecer, nem tudo saiu como planejado. A borda junto ao córrego foi urbanizada com a ambição de atrair turistas, o que ainda não aconteceu. E embora exista, em tese, uma limitação para venda ou aluguel das unidades novas, ouvimos relatos de que existem aluguéis informais a preços altíssimos. Parte da explicação está na localização, ao lado de uma das áreas mais ricas da cidade e perto do centro.
Além disso, alguns defendem que teria sido mais adequado adquirir unidades na área central de Buenos Aires — que, assim como muitas regiões centrais de cidades brasileiras, possui um grande número de imóveis vagos — para alocar as famílias que estavam em risco, uma vez que o solo do terreno onde os novos edifícios foram erguidos era pouco apropriado para construir, encarecendo as obras. O objetivo, no entanto, foi de permitir que a comunidade permanecesse no local.
O Barrio Padre Carlos Mugica, antes conhecido como Villa 31, é um dos maiores assentamentos informais da Argentina. Ele surgiu nos anos 1930, entre os trilhos do trem e a área portuária, a poucas quadras de Retiro e Recoleta — bairros centrais de Buenos Aires, que concentram oportunidades. Em 2016, a quantidade de moradores no assentamento já chegava a 40.203, isolados do restante da cidade por linhas férreas e pela Autopista Illia.
Nessa época, a cidade iniciou uma intervenção em várias frentes, com financiamento do BID e do Banco Mundial. Os investimentos incluíram abertura de vias, água, esgoto, drenagem, eletricidade, quadras, praças, escolas e centros comunitários. Em 2018, foi aprovada uma lei que definiu as regras do processo e criou um conselho participativo com representantes dos moradores.
Dentro do bairro, cerca de 1.000 famílias viviam embaixo do viaduto da autopista, em construções de até quatro andares e em uma situação de extrema precariedade, com exposição a poluição e mofo. A lógica de realocação foi parecida com a do Rodrigo Bueno. Foram construídas 1.200 novas moradias para as famílias que estavam em maior risco, com edificações no antigo terreno da YPF (petroleira argentina), área ociosa vizinha ao bairro que, em uma ação ambiciosa, foi comprada pelo governo da cidade. Os prédios foram projetados pelo BID e pelo Banco Mundial com arquitetos locais, com estrutura metálica e painéis e aquecedores solares. As famílias puderam fazer o pagamento em financiamentos de 30 anos, com prestações subsidiadas que giravam em torno de 10 dólares por mês e foram ajustadas para cerca de 50 dólares. As outras casas, com menos risco, receberam infraestrutura e reformas.
Hoje, a área sob o viaduto dá lugar a um espaço público de 18 mil m². Ele tem pinturas lúdicas, mobiliário urbano, canteiros com árvores e um novo espaço comunitário que atende as crianças da comunidade. Se tornou um espaço confortável de passagem, convivência e descanso dentro do bairro.
Um gesto igualmente marcante do projeto foi a decisão de mudar a sede do Ministério da Educação da cidade para dentro do Padre Mugica. Foi lá que começaram as apresentações da nossa visita, de frente para alguns dos conjuntos habitacionais novos. O prédio recebe mais de 2.200 funcionários todos os dias, que também se tornaram clientes dos comércios locais.
Nosso passeio pelo bairro foi organizado pelo Visita Mugica, iniciativa de guias locais em parceria com o governo da cidade, e terminou com um almoço preparado por empreendedores do próprio bairro. Na caminhada, passamos também pela A Todo Reciclaje, gerida por 17 cooperativas, que recicla cerca de 30% do lixo do bairro. Os detalhes mostram que existe uma integração entre as iniciativas do projeto e o engajamento da população local.

Ainda há alguns desafios, no entanto. Na área consolidada, onde não houve realocação de famílias, apenas cerca de 30% das casas foram reformadas, e os moradores ainda não têm a titularidade dos imóveis. Além disso, uma avaliação do CIPPEC (Centro para a Implementação de Políticas Públicas para Equidade e Crescimento) apontou que a participação no reassentamento foi, em grande parte, informativa, e que o acompanhamento após a mudança se enfraqueceu. A cidade também passou a fiscalizar com mais rigor as novas construções irregulares, para conter o aumento da população no bairro, o que evidencia que ainda existe uma demanda por moradia que não está sendo suprida.
É importante notar, também, que tanto no caso do Rodrigo Bueno quanto no Padre Mugica a disponibilidade de terra adjacente foi o que viabilizou a solução de construir novos edifícios. Muitas vezes essa possibilidade não existe em favelas como as nossas. Sem terra disponível, a estratégia alternativa para construir novas moradias e abrir novas ruas e espaços públicos seria um reajuste ou reparcelamento de terras (land readjustment), algo muito mais complexo e custoso.
Leia mais: Land Readjustment: uma solução para a urbanização não-planejada
Os dois projetos de Buenos Aires têm escalas diferentes, mas escolhas e soluções em comum. Alguns princípios se destacam e devem ficar como lição para programas de urbanização de favelas nas cidades brasileiras. São eles:
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