Criando espaços públicos melhores para as crianças
Foto: Urban95/Fundação Bernard van Leer

Criando espaços públicos melhores para as crianças

Diferentes cidades do mundo estão mostrando como promover qualidade de vida urbana para as crianças por meio dos espaços públicos, para além dos parquinhos.

12 de outubro de 2026

Em um dia com tempo bom, muitas vezes dá para medir a qualidade de vida de um bairro urbano denso com um teste simples: há crianças se movimentando ao ar livre? O novo “Guia para a criação de espaços públicos urbanos para crianças” leva esse teste a sério e o transforma em um conjunto de ferramentas prático, baseado em direitos, para formuladores de políticas públicas, urbanistas e outros atores da cidade que querem tornar realidade espaços urbanos adequados para crianças em todas as comunidades.

Criado em conjunto pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e a ONU-Habitat, o guia apresenta seis princípios que funcionam ao mesmo tempo como lista de verificação de projeto, ferramenta de avaliação e referência para políticas públicas, voltados a quem busca criar ou melhorar espaços públicos para crianças:

  • • Segurança e proteção
    • Necessidades de brincadeira, recreação e desenvolvimento
    • Acesso onde a necessidade é maior
    • Cuidado com a saúde e o bem-estar
    • Equidade e inclusão
    • Sustentabilidade e resiliência

Cada princípio traz uma justificativa e recomendações gerais que podem ser adaptadas às normas locais. O princípio da segurança, por exemplo, relaciona o desenho urbano ao risco de lesões, violência e assédio que hoje mantém muitas crianças — especialmente as meninas — longe dos espaços públicos. Já o princípio do brincar responde à perda constante de tempo e de espaço para a brincadeira espontânea ao ar livre, com destaque para medidas como zonas de baixa velocidade no entorno das escolas e a proteção e promoção dos espaços cotidianos que as crianças tomam para si ao brincar.

O ponto central é que os princípios estão sempre ligados à saúde e à equidade. Uma calçada sombreada ou uma pracinha de esquina recuperada não é apenas uma comodidade “agradável”, mas faz parte da forma como uma cidade enfrenta problemas de saúde mental, obesidade, poluição do ar e estresse térmico entre as crianças, especialmente as que vivem em assentamentos informais ou em áreas mal atendidas por serviços públicos.

Leia mais: Como as cidades podem abraçar as infâncias?

Para além do parquinho

Uma das contribuições mais importantes do guia é redefinir onde acontece a vida pública das crianças. Em vez de tratar o parquinho como o único espaço destinado a elas, o guia pede que os urbanistas olhem para diferentes escalas, categorias e contextos dentro das cidades.

Apenas 44% dos moradores das cidades vivem perto de espaços públicos abertos — número que cai para 30% nos países de baixa renda. Apesar de desafios ambientais graves, a vontade das crianças de se movimentar ao ar livre, especialmente quando vivem em casas superlotadas e apertadas, as leva a usar espaços inseguros, tomados por lixo, trânsito e outros perigos. O guia insiste para que as cidades priorizem investimentos em assentamentos informais e em comunidades mal atendidas, onde as crianças sofrem uma privação severa de espaços públicos.

As ruas aparecem como os maiores e mais acessíveis espaços públicos para as crianças em todas as escalas de um assentamento urbano. São elas que determinam se uma criança consegue ir a pé para a escola com segurança, visitar um amigo ou chegar a um espaço para brincar. Ao colocar as ruas em primeiro plano, o guia convida os órgãos de transporte e de trânsito a se enxergarem não apenas como gestores do tráfego, mas como corresponsáveis pelos direitos das crianças ao brincar e à saúde.

Lições de cidades que investem em espaços públicos para crianças

O valor do guia está na forma como ele costura estudos de caso urbanos de contextos diferentes, mostrando como os mesmos princípios podem ser interpretados em Barcelona ou na Cidade do México, em Istambul ou em Mumbai, em Maputo ou no Cairo.

Os projetos de “ruas escolares” em três cidades — Barcelona, na Espanha; Istambul, na Turquia; e Mumbai, na Índia — partem de um ponto em comum: o reconhecimento de que o trajeto até a escola é uma das partes mais importantes do cotidiano das crianças na cidade, mas muitas vezes também uma das mais hostis.

Na Espanha, Barcelona trata as ruas no entorno das escolas como espaços comunitários essenciais. Restrições ao tráfego motorizado, temporárias ou permanentes, aplicadas no início e no fim do horário escolar, transformam pontos tumultuados em áreas de baixa velocidade ou sem carros na frente das escolas, onde pinturas coloridas no chão, bancos, árvores e elementos simples para brincar convidam as crianças e seus cuidadores a ficar por ali. Nesse caso, a rua escolar é apresentada explicitamente como uma infraestrutura que promove a saúde e garante direitos, dentro de um “Plano para o Brincar” municipal mais amplo para os espaços públicos.

Espaço viário próximo a uma escola em Barcelona, redesenhado para crianças. Foto: Sudeshna Chatterjee/WRI India

Na Turquia, o bairro de Zümrütevler, em Istambul, usou a iniciativa Urban95 para enfrentar um grande desafio de segurança. Um cruzamento largo e caótico, perto de três escolas e de áreas residenciais de baixa renda, obrigava as crianças a desviarem dos carros em alta velocidade, quase sem nenhum espaço público próprio. Por meio de uma intervenção direcionada, o projeto-piloto reivindicou espaço dos carros e reorganizou os fluxos, o que permitiu que os urbanistas criassem uma nova praça com travessias mais seguras e áreas amplas para pedestres. O aumento registrado no número de crianças caminhando sozinhas e usando as rotas seguras reforça que este é, ao mesmo tempo, um projeto de mobilidade e um novo ponto de encontro comunitário para o bairro.

Na Índia, o projeto da Christ Church School, em Mumbai, é um modelo intermediário entre o programa mais amplo de Barcelona e a reconstrução pontual de Zümrütevler. Em um único trecho de 200 metros, crianças, cuidadores, o WRI India e a prefeitura de Mumbai desenharam juntos uma intervenção tática: travessias pintadas, extensões de calçada, calçadas alargadas e mobiliário urbano simples, que rapidamente sinalizaram uma nova prioridade aos pedestres em relação aos automóveis. Pesquisas de acompanhamento mostraram melhora no comportamento dos motoristas e maior sensação de segurança, o que fortaleceu os argumentos a favor de obras permanentes e da ampliação de zonas escolares mais seguras pela cidade e pelo estado.

Intervenções de acalmamento de tráfego perto da Christ Church School, em Mumbai. Foto: WRI India

Juntos, esses casos mostram como os princípios do guia podem ser levados a contextos diferentes: cada cidade usa ferramentas distintas — fechamento de ruas em horários definidos, redesenhos, urbanismo tático —, mas todas reivindicam espaço dos veículos, incorporam a brincadeira e a convivência ao trajeto escolar e usam as evidências dos projetos-piloto para mudar políticas e práticas.

Em contextos humanitários, o guia trata os espaços públicos para crianças não como algo secundário nas operações, mas como infraestrutura essencial para a proteção, a recuperação e a vida cotidiana. Ele destaca como até equipamentos voltados à prestação de serviços, como centros de saúde, podem ser projetados em zonas de fronteira instáveis como espaços que apoiam a brincadeira, a recuperação emocional e a coesão social.

No Egito, o projeto Y’ahl El-Hay mostra isso na escala do bairro. Com a chegada de refugiados sírios às cidades egípcias, as reformas nos centros de saúde urbanos foram além dos reparos clínicos: interiores e fachadas ficaram mais claros e mais seguros; áreas semiabertas ao lado de pré-escolas receberam bancos e brinquedos; e terrenos vazios ao lado das clínicas viraram pequenas áreas para brincar. Esses lugares se tornaram espaços públicos compartilhados, onde crianças da comunidade local e crianças refugiadas podiam brincar e os cuidadores podiam descansar, o que reduziu o estresse nos equipamentos lotados e amenizou as tensões entre as comunidades.

Mulheres e crianças em um espaço público reformado no Cairo, no Egito. Foto: Ecumene Studio

Localizado na fronteira entre o Líbano e a Síria, o parque inclusivo de Arsal aplica essa ideia em um contexto mais precário. Em uma cidade onde a população refugiada é maior do que a população local, a ideia de espaços adequados para crianças dentro dos programas humanitários foi reinterpretada na forma de um parquinho inovador, desenhado em conjunto com crianças e cuidadores, com estruturas simples e adaptáveis e materiais resistentes e de baixo custo. O parque oferece áreas protegidas, internas e externas, para brincadeiras, aprendizagem na primeira infância, aconselhamento psicossocial e atividades comunitárias, tudo a uma distância caminhável de densos assentamentos informais.

Os casos do Egito e do Líbano ilustram três mensagens importantes para crises humanitárias:

  • • Equipamentos de saúde e de assistência social são âncoras estratégicas para espaços públicos voltados para crianças;
    • Pequenas decisões de projeto podem restaurar rotinas comuns, como brincar, esperar e encontrar os vizinhos;
    • Parcerias entre agências, prefeituras, projetistas e comunidades podem incorporar o desenho centrado na criança à própria estrutura das respostas de emergência e de recuperação;
Em Arsal, no Líbano, crianças e cuidadores desenharam juntos um parquinho equipado com serviços de aconselhamento psicossocial. Foto: Catalytic Action

Em muitas áreas de baixa renda, os espaços mais importantes para as crianças não são parques formais, mas escadarias, becos, margens de canais e caminhos até pontos de água e banheiros coletivos. O guia chama esses lugares de “espaços liminares” — vãos “esquecidos, negligenciados ou mal utilizados” que as crianças tomaram para si — e insiste para que as cidades os reconheçam e os qualifiquem.

Em muitas áreas de baixa renda, os espaços mais importantes para as crianças não são parques formais, mas escadarias, becos e margens de canais.

Em Maputo, Moçambique, caminhadas exploratórias com crianças revelaram que o principal espaço público delas era uma rede empoeirada de trilhas e ruas informais. Em vez de trazer um parque novo de fora, um projeto-piloto recuperou o triângulo que sobrava no encontro de três ruas de terra e o transformou em um pequeno espaço público seguro, com bancos e elementos para brincar. Os pedidos das crianças por iluminação melhor, canaletas de drenagem mais limpas e lugares para sentar orientaram o projeto.

Antigo cruzamento em Maputo, Moçambique, que foi transformado em uma área de lazer. Foto: UN-Habitat

No bairro de Karantina, em Beirute, a Catalytic Action e a comunidade trabalharam juntas para revitalizar uma calçada abandonada. Registrada como faixa de domínio público municipal, a área foi escolhida pelas crianças e pelos vizinhos porque fazia parte de seus trajetos diários. Por meio de um projeto participativo, ela se tornou Makani (em português, “Meu Lugar”), uma faixa sombreada e colorida, com elementos para brincar e bancos, uma âncora da vida social em um bairro marginalizado.

A iniciativa Playful City (Cidade Lúdica), da Cidade do México, leva essa lógica adiante ao ocupar pequenos vazios e praças subutilizadas com “brinquedos urbanos” temporários — estruturas modulares e móveis que convidam a escalar, se equilibrar e inventar brincadeiras. Essas instalações de baixo custo testam como as crianças ocupam os cantos e as bordas da cidade e muitas vezes servem de catalisador para transformações mais permanentes.

Juntos, esses exemplos sugerem que quando os urbanistas começam entendendo como as crianças já usam os espaços liminares, até os fragmentos mais marginais da cidade podem ser transformados em espaços seguros e valorizados para brincar.

Leia mais: Por que excluímos crianças da vida urbana?

Um conjunto de ferramentas práticas para cidades

O “Guia para a criação de espaços públicos urbanos para crianças” funciona como um conjunto de ferramentas que as cidades podem usar dentro de seus sistemas atuais, ao mesmo tempo em que estimula esses sistemas a evoluir. Ele começa oferecendo aos urbanistas uma tipologia de escalas, categorias e contextos, para que possam mapear e analisar onde acontece a vida pública das crianças — das ruas e pátios escolares aos espaços liminares dos assentamentos informais. Em seguida, os seis princípios funcionam como uma premissa de projeto e de políticas públicas, que pode ser incorporada a planos, normas de desenho urbano ou termos de referência, garantindo que segurança, brincadeira, equidade e saúde não fiquem em segundo plano.

O guia reconhece dois caminhos complementares: reformas promovidas pelo governo (planos, orçamentos e regulamentações) e iniciativas baseadas em parcerias, lideradas por comunidades, organizações da sociedade civil e entidades privadas. Isso o torna útil tanto para prefeitos que estão redesenhando políticas para a cidade inteira quanto para equipes de bairro que testam projetos táticos. Acima de tudo, ele oferece uma nova forma de pensar: projetar para garantir os direitos das crianças ao brincar, à saúde e à participação é, no fim das contas, projetar cidades melhores para se viver e mais resilientes para todos.

Artigo originalmente publicado em The City Fix, em maio de 2026.
• Sudeshna Chatterjee é diretora de Pesquisa, Conhecimento e Engajamento do programa de Cidades e Transporte Sustentáveis do WRI India.
• Thomas George é consultor internacional e ex-líder global da área urbana do UNICEF.

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