Podcast #140 | Edição especial: opinião sobre studios, tarifa zero e pedágio urbano
Confira a nossa conversa com Anthony Ling sobre os assuntos que mais repercutiram no Caos Planejado no último ano.
A fim de diminuir acidentes e fatalidades, principalmente de motociclistas, Bogotá criou novas lombadas para reduzir velocidades em grandes corredores viários.
26 de outubro de 2026As motocicletas estão transformando o transporte urbano no mundo inteiro. Em muitas cidades, elas já respondem por uma parcela significativa das viagens diárias; em outras, seu uso cresce rapidamente. Embora ampliem o acesso a empregos, educação e oportunidades econômicas, as motos também contribuem para um dos desafios de segurança viária mais urgentes que as cidades enfrentam hoje: sinistros de trânsito graves causados por velocidades inseguras.
Sem uma estrutura que os proteja, os motociclistas sofrem lesões graves — e muitas vezes fatais — mesmo em velocidades moderadas. A capacidade de circular em alta velocidade também aumenta o risco para os usuários mais vulneráveis das vias, sobretudo em áreas com grande movimento de pedestres, como ruas comerciais e zonas escolares. Esses riscos tornam a gestão da velocidade especialmente crucial nas cidades onde as motos são uma parte significativa e crescente do sistema de transporte.
O papel da velocidade nos sinistros fatais e graves já está bem estabelecido. A questão mais difícil para as cidades é como controlar a velocidade nos corredores onde os riscos são maiores sem comprometer a mobilidade e a atividade econômica. A experiência recente de Bogotá oferece uma resposta importante: focar no corredor viário, e não apenas no local do sinistro.
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Pesquisas sobre a segurança de motociclistas indicam que os sinistros graves costumam refletir as condições de um corredor inteiro, e não de um único cruzamento ou trecho perigoso. Quando as velocidades inseguras são generalizadas, as intervenções também precisam influenciar o comportamento ao longo de todo o corredor.
Bogotá colocou esse princípio em prática. Entre 2024 e 2025, a prefeitura instalou mais de 160 novas lombadas ao longo de quase 10 km de grandes vias arteriais. A intervenção desafiou uma premissa comum no transporte urbano, de que o acalmamento de tráfego (traffic calming) cabe nas ruas locais, mas não nas vias arteriais.
Havia preocupações compreensíveis com congestionamentos. Mas o monitoramento não mostrou nenhum impacto significativo no funcionamento dos corredores. No corredor piloto original, em Guayacanes, o volume de tráfego se manteve estável e o fluxo chegou a melhorar após a implantação.

Essa constatação é importante. O objetivo do acalmamento de tráfego não é simplesmente fazer os veículos andarem mais devagar. É criar velocidades mais seguras e previsíveis, mantendo a circulação de pessoas e mercadorias.
Uma análise preliminar de um ano, baseada em dados oficiais da Secretaria Distrital de Mobilidade de Bogotá (SDM) e conduzida pelo WRI Colômbia no âmbito da Iniciativa da Bloomberg Philanthropies para a Segurança Viária Global (BIGRS), aponta melhorias substanciais de segurança nos corredores avaliados.
A análise indica, aproximadamente:
Por trás de cada um desses números há uma pessoa que escapa da morte ou de uma lesão grave — e uma família, um local de trabalho e uma comunidade que escapam das consequências de um sinistro evitável. Para os gestores urbanos, esse é o valor central da gestão da velocidade. Não se trata apenas de uma intervenção de transporte. É uma intervenção de saúde pública, que pode melhorar os deslocamentos de todos os usuários das vias.
Os benefícios de segurança também se traduzem em valor econômico significativo. Com base em metodologias reconhecidas internacionalmente para estimar o valor social das mortes e lesões evitadas em países de renda média, calcula-se que a intervenção de Bogotá gere cerca de 92 milhões de dólares por ano em benefícios sociais.
Essa estimativa vai além dos custos médicos. Ela reflete o valor econômico e social das vidas salvas e das lesões evitadas — incluindo os gastos com saúde que deixam de existir, a produtividade preservada, menos casos de incapacidade e menos sofrimento humano.
A segurança viária costuma ser vista como um custo, mas a experiência de Bogotá sugere que ela deveria ser vista como um dos investimentos públicos de maior retorno à disposição das cidades para evitar mortes e lesões no trânsito.
Essas lições são especialmente relevantes à medida que o uso de motos cresce nas cidades do Sul Global. Cidades como Jacarta, Bangkok, Cidade de Ho Chi Minh e Nairóbi já têm grandes frotas de motocicletas e enfrentam desafios significativos de segurança viária. Outras cidades vivem um rápido aumento na posse e no uso de motocicletas.
Essas cidades diferem em suas malhas viárias, em seus sistemas de transporte e em sua capacidade institucional. Mas elas têm uma realidade em comum: quando as velocidades são altas demais, os motociclistas ficam desproporcionalmente expostos a consequências graves.

Além disso, os benefícios de velocidades mais seguras não se limitam aos motociclistas. Velocidades mais baixas e constantes podem tornar os corredores urbanos mais seguros para pedestres e ciclistas, usuários do transporte público e motoristas no geral. A abordagem chamada “Sistema Seguro” reconhece que as pessoas vão cometer erros, e que o ambiente viário deve impedir que esses erros se tornem fatais ou mudem uma vida para sempre.
Seria fácil interpretar os resultados de Bogotá como um argumento a favor apenas das lombadas, mas isso deixaria escapar a lição mais importante. As lombadas foram a ferramenta que Bogotá usou para lidar com as condições específicas de seus corredores. Outras cidades podem precisar de combinações diferentes de intervenções: fiscalização da velocidade média (medida ao longo de um trecho, e não em um único ponto), cruzamentos elevados, um desenho viário mais seguro, ruas “autoexplicativas” (cujo próprio desenho indica a velocidade adequada) ou outras medidas do Sistema Seguro.
A lição replicável é que a moderação de tráfego pode funcionar em vias arteriais, mas apenas quando a gestão da velocidade na escala do corredor se baseia em evidências. As cidades devem identificar os corredores onde a velocidade contribui para sinistros graves, implantar intervenções que influenciem a velocidade de forma consistente ao longo desses corredores e, em seguida, medir o que acontece com a segurança e a mobilidade.
Com o uso de motos em crescimento contínuo, as cidades precisam de soluções que possam ser implantadas em escala e que reduzam mortes e lesões graves sem prejudicar a mobilidade. Bogotá oferece evidências encorajadoras de que é possível fazer as duas coisas. Sua experiência mostra que a moderação de tráfego pode funcionar em vias arteriais quando é baseada em evidências, direcionada aos corredores de maior risco, projetada para as condições desse tipo de via e focada em controlar as velocidades de fluxo livre (aquelas praticadas quando a via está desimpedida) ao longo de todo o trajeto, e não em pontos isolados.
Leia mais: O desafio das motocicletas no Brasil
No fim, a experiência de Bogotá mostra que a inovação mais importante não é uma intervenção física específica, mas a disposição de agir com base em evidências, se adaptar e priorizar a segurança. Sabemos que a velocidade é um fator determinante da segurança viária; o desafio agora é transformar essa abordagem em prática e fazer com que vias arteriais mais seguras sejam a regra, e não a exceção.
Artigo originalmente publicado em The City Fix, em agosto de 2026.
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