Pare de usar Paris como um bom exemplo de cidade densa
Foto: Wikimedia Commons

Pare de usar Paris como um bom exemplo de cidade densa

Entenda como as restrições ao mercado imobiliário em Paris geram tanto unidades minúsculas quanto altíssimos preços de moradia.

19 de outubro de 2026

Em 2015, o New York Times publicou uma reportagem onde sete arquitetos defendem os edifícios mais odiados do mundo. Um deles foi o arquiteto Daniel Libeskind, que defendeu a Tour Montparnasse, aquela emblemática torre envidraçada e escura que contrasta com a paisagem parisiense e faz todo mundo perguntar “por que raios construíram esse prédio horrível, mais nenhum outro?”. Replico aqui a defesa de Libeskind, com tradução minha:

“Ela já é uma lenda por ser o edifício mais odiado em Paris. Quero defendê-la não por ser uma torre particularmente bonita, mas pela ideia que ela representa. Parisienses entraram em pânico quando eles a viram, e quando eles abandonaram a torre eles também abandonaram a ideia de uma cidade sustentável de alta densidade. Pelo fato de eles terem exilado todos os futuros arranha-céus em bairros distantes como La Défense, eles estavam segregando o crescimento. Parisienses reagiram esteticamente, como eles tendem a fazer, mas deixaram de considerar as consequências do que significa ser uma cidade viva ao invés de uma cidade museu.

Pessoas sentimentalizam com as suas noções de cidade, mas com nossa pegada de carbono, nosso desperdício de recursos e capacidade reduzida, não temos outra alternativa senão construir bons edifícios altos com preços acessíveis. Não é coincidência que as pessoas estão indo para Londres não só pelo trabalho mas pelo espaço disponível. Nenhuma empresa jovem consegue pagar pelo preço de Paris. Talvez a Tour Montparnasse não seja um trabalho genial, mas ela sinaliza a noção do que a cidade do futuro deverá ser.”

A defesa de Libeskind nos faz olhar para a cidade com outros olhos, de pensar em um resultado urbano mais objetivo e menos estético. Por mais que as estéticas da arquitetura de Libeskind e da Tour Montparnasse sejam realmente questionáveis, a lógica de Libeskind faz sentido.

Tour Montparnasse na paisagem de Paris. Foto: Wikimedia Commons

No entanto, Libeskind, após o comentário, automaticamente recebeu a seguinte crítica: Paris já não seria um exemplo de alta densidade sustentável? A cidade possui cerca de 20 mil habitantes por km², acima de muitos bairros centrais de São Paulo, apesar das alturas relativamente baixas. Um dos principais motivos para tal, ao comparar com São Paulo, é que em Paris não há recuos (ou afastamentos) obrigatórios, nem número obrigatório de vagas de garagem em edificações ou legislações que desincentivam a ocupação no andar térreo. São características que melhoram muito o aproveitamento do solo urbano, aproximando as edificações e aumentando a concentração de pessoas. Essa é a parte boa, que realmente devemos nos inspirar e usar de exemplo, mas nem tudo brilha na Cidade Luz.

Leia mais: A (falta de) densidade urbana nas áreas centrais das cidades brasileiras

As edificações parisienses, a maioria construída no século 19 ou antes, também não possuem escadas enclausuradas contra incêndio, elevadores ou outras áreas de apoio de condomínios modernos, exigências que ainda não existiam no século quando foram construídas, gerando ainda mais área útil na planta da edificação para ser efetivamente ocupada.

Outra característica que torna Paris uma cidade densa é a predominância de “microapartamentos“, já parte da cultura imobiliária na Ásia, mas que apenas nos anos 2010 começou a ganhar força em cidades como São Paulo e Nova York. Em Paris, a alta demanda por uma boa localização no centro da cidade torna comum a ocupação de unidades entre 10 e 20 m² — os famosos “studios” parisienses. Paris também é conhecida por ocupar seus sótãos e seus porões (de forma legal ou não) com unidades habitacionais muitas vezes sem janelas, tamanha é a demanda para morar na região central.

No Brasil, os studios costumam ser duramente criticados, embora tenham uma metragem maior que os exemplos parisienses (exploramos essa questão em um outro artigo). Tanto em Paris como no Brasil, a ocupação dessas unidades é normalmente uma escolha entre localização e espaço — e muitos domicílios individuais ou de jovens casais optam pela localização. Fato é que, com unidades menores, ocupando todos os cantos da edificação, também é possível atingir índices maiores de habitantes por área urbana, uma vez que a demanda existe. E é isso que acontece em Paris.

É importante notar que as alturas das edificações de Paris não são resultado de um objetivo de planejamento, mas sim da preservação de alturas que surgiram de forma espontânea. As alturas na época em que as edificações foram construídas não foram limitadas por legislação, mas pela ausência de tecnologias estruturais e do elevador. Na época, os andares baixos eram mais valorizados, dada a dificuldade de subir até o sótão. Agora, a preservação das baixas alturas é uma consequência da preservação do patrimônio arquitetônico e da forma urbana consolidada há mais de um século.

Pintura de Paris por Camille Pissarro em 1898, com a mesma forma urbana de hoje. Imagem: Domínio Público

Essa preservação do patrimônio histórico de Paris está atrelada a cerca de 22 bilhões de euros em receita gerada por turistas que visitam a cidade para vivenciar essa “casca histórica” urbana, movimentando uma gigante indústria de turismo que compreende cerca de 10% de todos os empregos formais de Paris. Libeskind também acerta nesse sentido, pois, seguindo esse resultado, Paris está cada vez mais parecida com um museu e menos como uma cidade viva.

Na situação atual, é possível descrever Paris como uma cidade linda, mas excludente.

Mesmo com a ocupação de todos os cantos possíveis das edificações na região central de Paris, a pressão da demanda continua intensa dado o teto atingido pela oferta imobiliária. O resultado é que morar na região central de Paris se tornou extremamente caro, e quem não tem condições financeiras acaba ficando excluído nos banlieus, periferias que, em muitos casos, se transformaram em territórios com alta concentração de imigrantes de baixa renda e com menor acesso à zona urbana principal.

Uma forma de promover a inclusão dessas pessoas na região central de Paris seria, então, a verticalização de alguns de seus bairros para aliviar essa pressão por localização. No entanto, o patrimônio histórico da Paris edificada impossibilita que essa alternativa seja executada, cenário semelhante em outras cidades europeias com centros históricos que passam por crises habitacionais. Neste caso, a melhor alternativa seria identificar zonas imediatamente adjacentes às zonas históricas e permitir um adensamento construtivo significativo, de forma a aproximar a população do centro de empregos e serviços e reduzir o custo dos deslocamentos. Embora verticalização e densidade não sejam a mesma coisa, a altura influencia o número de moradores que é possível acomodar, especialmente em contextos onde o lote foi ocupado com um alto aproveitamento. Na situação atual, é possível descrever Paris como uma cidade linda, mas excludente, assim como o exemplo de Copenhagen.

Leia mais: Prédios altos (nem sempre) significam maior densidade populacional

Assim, se há escassez de moradia na sua cidade, evidenciada por preços altos, um boom de microunidades e a presença de comunidades informais (favelas) no meio urbano, e se a sua cidade não possui a grande maioria das edificações como patrimônio histórico, atraindo bilhões em turismo, não use Paris como um bom exemplo de densidade sustentável. É preciso se inspirar no bom exemplo de ausência de recuos obrigatórios e no uso do térreo do urbanismo parisiense, mas a restrição de altura não virá sem consequências negativas em uma metrópole de alta demanda e rápida urbanização.

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