Sem medo dos studios
Studios não vão resolver a crise habitacional, mas podem oferecer benefícios e não devem ser demonizados.
Desafio Mobilidade Cidadã mostra como poder público, setor privado e população podem colaborar para tornar a mobilidade mais confortável e resiliente e ampliar acesso a serviços e oportunidades.
29 de outubro de 2026Todas as manhãs, Letícia Almeida saía de casa na periferia de Fortaleza levando a filha para a creche antes de seguir para o trabalho. O percurso parecia simples, mas exigia caminhar por ruas sem pavimentação até o ponto de ônibus, enfrentar longos tempos de espera e lidar com a insegurança de permanecer exposta na rua, muitas vezes ainda de madrugada.
“Muitas vezes eu deixava de ir a alguns lugares porque não conseguia transporte ou porque o ponto de ônibus ficava muito longe do meu destino. Eu precisava caminhar várias quadras e ficava muito exposta à violência. Isso dificultava muito a minha rotina”, lembra.
Recentemente, um novo serviço modificou esse cenário: Letícia passou a contar com transporte da porta de casa até o terminal. “Como mulher e moradora de um bairro periférico, passei a me sentir muito mais segura para levar minha filha à creche e seguir até o terminal. O tempo de deslocamento caiu pela metade e consegui acessar lugares que antes eram muito difíceis”, relatou.
Letícia é uma das mais de 250 beneficiárias da Rede Vamos Juntos, um serviço que tem conectado pessoas e oportunidades no Grande Siqueira, zona oeste de Fortaleza. A região, que abrange dez bairros de alta vulnerabilidade, foi palco do Desafio Mobilidade Cidadã, um processo de inovação aberta desenvolvido pela Fundação de Ciência, Tecnologia e Inovação de Fortaleza (Citinova) em parceria com o WRI Brasil e a Toyota Mobility Foundation, que ofereceu apoio técnico e financeiro para empresas pilotarem soluções de mobilidade.
Um ano após o início do processo, Fortaleza conta com duas soluções com potencial de escalabilidade: a Vamos Juntos, que amplia o acesso ao transporte público ao conectar moradores aos terminais e serviços essenciais, e o Areja BTU, que torna as viagens mais confortáveis e eficientes por meio da otimização da climatização dos ônibus. Essas iniciativas mostram que processos de inovação aberta, desenvolvidos juntos à população, podem responder a desafios reais da mobilidade urbana.
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A mobilidade urbana é o que conecta as pessoas ao trabalho, à escola, aos serviços de saúde, ao lazer e às oportunidades de que dependem para viver e prosperar. Quando esse acesso é limitado, as desigualdades se tornam ainda mais profundas. Por isso, pensar a mobilidade é também pensar em inclusão, qualidade de vida e desenvolvimento urbano sustentável.
No Grande Siqueira, como em muitas outras regiões periféricas do Brasil, os desafios de mobilidade e acesso são abundantes. Um diagnóstico conduzido pelo WRI Brasil apontou que a população enfrenta longos tempos de deslocamento, oferta limitada de transporte público em determinados trajetos, menor proximidade entre moradia e empregos e altos índices de sinistros de trânsito. Calor, precariedade da infraestrutura para deslocamentos ativos e preocupação com assaltos também aparecem entre os principais problemas relatados.
O diagnóstico foi o ponto de partida para o Desafio Mobilidade Cidadã. A iniciativa buscou identificar soluções capazes de melhorar diferentes etapas da jornada dos moradores. Após um processo de seleção que avaliou 17 propostas, três iniciativas foram escolhidas para desenvolver e testar suas propostas no território.
Cada iniciativa focava em um desafio: a Areja BTU propunha uma tecnologia para melhorar a eficiência da refrigeração a bordo dos ônibus e o conforto para passageiros e motoristas; a BikeApp, um modelo de bonificação pelo uso da bicicleta como alternativa de mobilidade; e a Rede Vamos Juntos, um sistema de caronas para reduzir barreiras de acesso ao transporte público e às oportunidades, especialmente para mulheres, pessoas idosas, pessoas com deficiência e com mobilidade reduzida.
Entre setembro e novembro de 2025, as soluções passaram por um processo de prototipagem, em que foram implementadas em pequena escala para observar seu funcionamento em condições reais. Foram meses de convivência com o território e escuta contínua dos usuários. Mais importante do que confirmar hipóteses era entender como as ideias funcionariam na prática e o que precisava ser ajustado.
A partir desses aprendizados, o Areja BTU e a Rede Vamos Juntos avançaram para a etapa de pilotagem, incorporando melhorias construídas coletivamente e ampliando significativamente sua escala de atuação.
Em processos de escuta dos usuários do transporte coletivo, conforto e calor são frequentemente identificados como pontos críticos. Em Fortaleza, uma das capitais mais quentes do país, o desafio se agrava. “Eu cheguei a passar mal por causa do calor e da lotação”, conta Letícia Almeida.
Como melhorar a experiência de quem utiliza o ônibus sem aumentar os custos operacionais do sistema?
A tecnologia do Areja BTU otimiza o funcionamento da climatização dos ônibus por meio de ventiladores que ajudam a redistribuir o ar frio na cabine de forma uniforme, equilibram a entrada do ar externo durante a abertura das portas e permitem a entrada do ar da rua quando está mais frio do que o do interior do veículo. O resultado é uma refrigeração mais rápida, mais conforto durante toda a viagem e mais eficiência no sistema de ar-condicionado, com diminuição no consumo de combustível e nas emissões de carbono.

A solução foi testada inicialmente em cinco veículos (três equipados com o sistema e dois utilizados como grupo de controle), e expandida para 62 ônibus na pilotagem (35 equipados e 27 veículos de controle). A abordagem, somada à expansão, permitiu uma comparação robusta do desempenho da tecnologia e uma avaliação não apenas do desempenho técnico, mas também dos seus impactos sociais, econômicos e ambientais.
Os resultados mostram que é possível combinar eficiência operacional com benefícios diretos para quem utiliza diariamente o transporte público. Em uma pesquisa com quase 3.500 passageiros, quase 90% perceberam melhorias na experiência da viagem. A redução no consumo de combustível dos veículos que participaram da pilotagem gerou mais de R$ 24 mil em economia, e 10 toneladas de dióxido de carbono deixaram de ser emitidas.
Para Letícia Almeida, a viagem mais confortável tornou a rotina de deslocamentos menos desgastante. “Hoje, o ambiente dentro dos ônibus é muito melhor. A gente percebe a diferença no conforto durante a viagem”, relata a moradora do Grande Siqueira.
Quase toda viagem de transporte coletivo começa e termina a pé. A impossibilidade de realizar esse trajeto em segurança restringe o acesso a direitos e oportunidades – especialmente para mulheres, pessoas idosas, pessoas com deficiência e pessoas com mobilidade reduzida. Reduzir essa barreira é fortalecer a autonomia das pessoas e ampliar sua participação na vida da cidade.
A Vamos Juntos promoveu essa mudança por meio de uma rede de deslocamentos de curta distância baseada em triciclos elétricos – os tuk-tuks, muito populares em países asiáticos. A solicitação de viagens é feita pelo WhatsApp e busca o passageiro na porta de casa. Além de ampliar a capilaridade da rede de transporte coletivo, a iniciativa conecta uma população em alta vulnerabilidade a serviços essenciais e políticas sociais que já existiam, mas não eram plenamente acessadas pela população, justamente pela dificuldade de deslocamento.
É o caso de Raimundo Daniel Santos. O morador do Grande Siqueira conta que se deslocar pelas ruas íngremes, além de difícil, frequentemente agravava seu quadro de saúde – Santos convive com elefantíase. Visitar a mãe significa gastar cerca de uma hora utilizando duas linhas de ônibus, apesar da curta distância entre as casas. Com a Rede Vamos Juntos, o trajeto passou a ser realizado em poucos minutos.
“O serviço mudou a minha rotina para melhor. O tuk-tuk pega na minha casa e me deixa na porta. Ganhei mais autonomia para ir ao médico, ao CRAS, ao mercado e visitar minha mãe”, afirma Santos.
Após aprendizados valiosos na fase de prototipagem, a Vamos Juntos ampliou sua atuação de quatro para dez bairros do Grande Siqueira, passando a atender mais de 80% do território da região. A estrutura operacional cresceu de duas bases fixas e uma estação móvel para 11 bases de operação, e passou de dois triciclos movidos a pedal com quatro operadores para 10 triciclos 100% elétricos e 16 operadores. A iniciativa encerrou a pilotagem tendo realizado quase 6 mil viagens.

Os resultados da pilotagem foram animadores: 97% dos usuários afirmaram se sentir mais seguros e confortáveis para realizar seus deslocamentos, e 100% relataram melhora na qualidade de vida. Em muitos casos, o serviço não substituiu uma viagem já realizada, mas tornou possíveis deslocamentos que antes simplesmente não aconteciam, ampliando o acesso das pessoas à cidade.
O percurso trilhado entre a prototipagem e a pilotagem foi decisivo para o aperfeiçoamento das soluções em linha com o contexto local. Essa lógica permitiu que as soluções chegassem à pilotagem mais robustas, mais bem adaptadas ao território e preparadas para crescer.
Na Rede Vamos Juntos, a prototipagem evidenciou que o relevo irregular era uma barreira ao conforto, eficiência e sustentabilidade da operação. A substituição de veículos movidos a pedal por veículos elétricos na pilotagem ocorreu para viabilizar a expansão do serviço com conforto para os condutores. A eletrificação não fazia parte do desenho inicial da solução, mas surgiu a partir da observação do funcionamento cotidiano e das contribuições dos motoristas que participaram do projeto.
Responsável pela Areja, Leonardo Santiago conta que os testes em condições reais permitiram identificar desafios que não apareceriam em laboratório, como a elevada lotação dos veículos, o grande número de paradas e as condições climáticas da cidade, tornando a solução mais aderente à realidade do transporte coletivo. Durante a prototipagem, a equipe identificou ajustes que melhoraram a solução.
“Percebemos que o sistema de ar-condicionado funcionava, mas a distribuição do ar dentro do ônibus não era eficiente. A partir dessa constatação, desenvolvemos uma solução para redistribuir melhor o fluxo de ar no salão de passageiros, reduzindo mais rapidamente a temperatura e aumentando o conforto durante a viagem”, explica Santiago.
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Um dos principais diferenciais do Desafio Mobilidade Cidadã foi compreender que a inovação também nasce da experiência cotidiana das pessoas. Ao longo de todo o processo, os moradores ajudaram a validar hipóteses e apontaram necessidades que nem sempre apareciam nos indicadores técnicos. Esse diálogo fortaleceu o desenvolvimento das duas iniciativas e ampliou a compreensão das equipes sobre o que significa mobilidade na prática.

Segundo Anselmo e Renata Pitombeira, responsáveis pela Vamos Juntos, a experiência no território e o contato com a rotina de pessoas com mobilidade reduzida e moradores de regiões periféricas também revelaram uma lacuna deixada pelos modos de transporte existentes, orientando o desenvolvimento da Vamos Juntos para responder melhor às chamadas viagens de assistência: viagens para acessar serviços de saúde, escolas, instituições de apoio social e cozinhas solidárias.
Além de validar duas soluções inovadoras, o Desafio Mobilidade Cidadã demonstrou que processos colaborativos são uma abordagem potente para enfrentar desafios complexos. Ao mobilizar o conhecimento técnico da sociedade civil, a inovação do setor privado e a experiência local da população, o poder público permitiu aperfeiçoar as soluções ao longo do caminho e construir respostas mais conectadas às necessidades reais do território.
As duas iniciativas mostram potencial para implementação em escala, com benefícios para as cidades e as pessoas.
A Areja estima que sua tecnologia poderia economizar cerca de R$ 2.800 por veículo ao ano. Se implementada em toda a frota de ônibus com ar-condicionado de Fortaleza, seria o equivalente a aproximadamente R$ 2,3 milhões anuais para o sistema de transporte coletivo – o que contribuiria para um sistema de mobilidade e uma cidade mais resilientes diante do calor extremo.
A Vamos Juntos, por sua vez, identificou caminhos concretos para ampliar sua cobertura territorial. A iniciativa retomou o funcionamento por mais seis meses após o fim do desafio. A nova etapa permitirá refletir sobre os resultados da fase de pilotagem, aperfeiçoando a solução e desenvolvendo novos caminhos para a implementação no restante da cidade.
A experiência em Fortaleza mostrou que o futuro da mobilidade urbana passa pela capacidade de experimentar, aprender e aperfeiçoar coletivamente. Quando a inovação coloca as pessoas no centro do processo, a mobilidade deixa de ser apenas um meio de deslocamento e se torna uma ferramenta para ampliar oportunidades e tornar as cidades mais inclusivas, resilientes e acessíveis.
Artigo publicado originalmente em WRI Brasil, em agosto de 2026.
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