Um dia sem carro não faz uma cidade menos dependente dele
Se a dependência do carro é resultado de uma trajetória, sua reversão não pode ser delegada à uma escolha individual por 24 horas.
Um estudo do Ipea e da USP mediu o congestionamento nas cidades brasileiras por uma nova perspectiva, que vai além do tempo perdido no trajeto.
7 de setembro de 2026Na história das grandes cidades, o tempo que uma pessoa está disposta a gastar para se deslocar até o trabalho tende a ser, no máximo, 60 minutos (cada sentido). Tempos que ultrapassam esse limite indicam um problema de acessibilidade e eficiência econômica, como explica o urbanista Alain Bertaud no livro “Ordem sem Design”.
Quando estamos parados no trânsito, a primeira coisa que percebemos que estamos perdendo é tempo. Mas quando esse tempo faz com que um conjunto de oportunidades de trabalho fique inviável na rotina, vemos que o problema é ainda maior.
Em São Paulo, na média, um trajeto de carro de 15 a 45 minutos no pico da manhã dá acesso a cerca de 974 mil empregos. Em fluxo livre, sem trânsito, o mesmo trajeto alcançaria 1,64 milhão de empregos, quase 670 mil oportunidades a mais. Esse tipo de dado não costuma aparecer nos rankings e avaliações de trânsito, que são focados em métricas como velocidade e tempo de deslocamento.
A fim de medir as consequências do trânsito por essa outra ótica, os pesquisadores Diego Bogado Tomasiello (USP), Vanessa Gapriotti Nadalin e Rafael H. M. Pereira (Ipea) publicaram o estudo “Rethinking congestion as lost access, and its equity implications” (também disponível em português como “Os impactos desiguais do congestionamento urbano no acesso a empregos”).
Os autores analisaram as 20 maiores cidades brasileiras e calcularam a média de empregos formais alcançáveis de 15 a 45 min de carro em duas situações distintas. A primeira é no horário de pico de uma quarta-feira típica. A segunda é em fluxo livre, com viagens saindo às 4h de um domingo. Comparando as duas, a diferença na quantidade de empregos alcançáveis é a perda atribuída ao congestionamento.
O impacto varia muito entre as cidades brasileiras. Em São Paulo, a perda é de 46,4%; no Rio de Janeiro, 36%; em Brasília, 27,8%. No outro extremo estão Campo Grande, com 2,2%, e São Gonçalo, com 3,2%. As cidades maiores são as que mais perdem, pois concentram mais pessoas e oportunidades e atraem mais viagens para as áreas centrais. Os resultados indicam que há uma saturação de deslocamentos de carro nessas cidades, o que reforça a necessidade de incentivar formas mais eficientes de locomoção, como a caminhada, a bicicleta e o transporte coletivo.

No Tomtom Traffic Index, Brasília foi considerada a cidade menos congestionada do Brasil, entre as nove avaliadas. Por que, então, ela apresentou uma das maiores taxas (27,8%) de perda de acesso a empregos devido ao trânsito? Índices como o da Tomtom são baseados no tempo médio para percorrer 10km na cidade, uma distância pouco realista quando consideramos os deslocamentos diários de carro em cidades grandes e espraiadas, caso de Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e muitas outras. Isso reforça a importância de indicativos como o do estudo em questão.
Leia mais: Qual o custo do tempo perdido no trânsito?
Os tempos e a qualidade dos deslocamentos nas cidades brasileiras, no geral, já refletem um cenário de desigualdade. No estudo, a perda de acesso a oportunidades de emprego devido ao trânsito aponta na mesma direção. Na média das 20 cidades, a população de menor renda perde 24,8% dos empregos que alcançaria sem congestionamento. Entre a de maior renda, a perda é de somente 5,6%.
Em cidades com maior desigualdade de acesso, como São Paulo e Belo Horizonte, o congestionamento reduz a acessibilidade dos mais pobres de três a onze vezes mais que a dos mais ricos. Em São Paulo, no horário de pico, o grupo de maior renda perde cerca de 20,4% dos empregos que alcançaria em fluxo livre, enquanto o de menor renda perde mais de 56,4%.

Quem tem mais renda tende a morar mais perto das centralidades, onde os imóveis são mais caros, e a fazer trajetos mais curtos até o trabalho, ficando menos vulnerável à lentidão do trânsito. Quem tem menos renda tende a morar onde a terra é mais barata, na periferia, e precisa atravessar corredores longos e saturados para alcançar as mesmas oportunidades.
Nos extremos sul e leste de São Paulo, a perda de acesso medida foi pequena, mas não por um bom motivo: aquelas regiões estão tão longe das centralidades de emprego que os postos de trabalho não são alcançáveis no intervalo de 15 a 45 min nem em fluxo livre. É ali que vive a faixa mais pobre da população paulistana, e nesses casos aumentar a velocidade do tráfego teria pouco efeito, porque o problema é a grande distância entre moradia e trabalho. Fica evidente que a política habitacional tem um papel fundamental nesse sentido, e medidas como o aluguel social e a construção de habitação social nos centros são exemplos de caminhos a explorar.
Os autores afirmam, ainda, que a diferença encontrada entre ricos e pobres provavelmente está subestimada, porque a população de menor renda usa mais o transporte público, que costuma ser mais lento, e também faz trajetos mais longos, ficando mais exposta aos atrasos. Se a perda de acesso a empregos já é de 24,8% contra 5,6% considerando trajetos de carro, a realidade tende a ser ainda pior.
A principal recomendação do estudo é a ideia de pedágio urbano (ou taxa de congestionamento). A cobrança pela circulação de carros em áreas centrais funcionou para reduzir congestionamentos em Londres, Estocolmo, Gotemburgo, Singapura e, mais recentemente, Nova York. Essa redução também tem um efeito positivo sobre a velocidade dos ônibus. No contexto brasileiro, porém, os autores defendem uma tarifa que não seja aplicada igualmente a todos os veículos, buscando mitigar o ônus sobre a população periférica de menor renda.
Leia mais: Como a taxa de congestionamento torna as cidades mais acessíveis
As demais recomendações incluem:
• Ampliação da oferta e da cobertura do transporte público de massa;
• Investimento em infraestrutura para pedestres e ciclistas;
• Aproximação entre moradia e emprego, seja levando habitação social para áreas mais centrais, seja permitindo densidade e mistura de usos.
Números como os da pesquisa nos ajudam a entender que o trânsito não é um problema só de tempo. Com isso, as desigualdades também ficam mais evidentes. Na busca por soluções, é inevitável repensar as prioridades não só da mobilidade urbana, mas das políticas habitacionais e de uso do solo nas cidades brasileiras.
Somos um projeto sem fins lucrativos com o objetivo de trazer o debate qualificado sobre urbanismo e cidades para um público abrangente. Assim, acreditamos que todo conteúdo que produzimos deve ser gratuito e acessível para todos.
Em um momento de crise para publicações que priorizam a qualidade da informação, contamos com a sua ajuda para continuar produzindo conteúdos independentes, livres de vieses políticos ou interesses comerciais.
Gosta do nosso trabalho? Seja um apoiador do Caos Planejado e nos ajude a levar este debate a um número ainda maior de pessoas e a promover cidades mais acessíveis, humanas, diversas e dinâmicas.
Quero apoiarSe a dependência do carro é resultado de uma trajetória, sua reversão não pode ser delegada à uma escolha individual por 24 horas.
Como a rua espanhola, com sua densidade, diversidade, espaços públicos e fachadas ativas, começou a desaparecer.
O cercamento é inverter não só a lógica de o que significa um espaço público, mas também a responsabilidade do gestor público em provê-los.
O princípio do código de trânsito é proteger o menor e prezar pela vida do pedestre, mas nos acidentes noticiados o foco é o comportamento de quem estava andando a pé.
O clássico nos lembra que as cidades são construídas para servir às pessoas, e não o contrário.
Confira a nossa conversa com Nabil Bonduki para discutir os principais temas do urbanismo de São Paulo atualmente.
Um estudo do Ipea e da USP mediu o congestionamento nas cidades brasileiras por uma nova perspectiva, que vai além do tempo perdido no trajeto.
Os studios, que se proliferam nas grandes cidades brasileiras, são acusados de servirem somente aos investidores e à locação por temporada. Mas as novas unidades compactas podem ajudar na acessibilidade à moradia.
Uma carta aberta a Ivete Sangalo sobre o que a propaganda não conta a respeito dos serviços de mototáxi por aplicativo.
olha a quase inexistência de perdas em Goiânia! – a capital de Goiás é a unsung hero do modernismo brasileiro, nisso e em quase tudo mais (ela é meu maior argumento contra a existência de Brasília em qualquer hipótese)