Menos carros elétricos, mais ônibus e bicicletas elétricos
A grande contribuição dos carros elétricos para as nossas cidades é a eliminação da poluição do ar e a drástica redução da poluição sonora. Mas é só isso.
O planejamento urbano brasileiro está mais preocupado em tentar "projetar" lotes privados do que em cuidar do espaço público e da infraestrutura.
5 de fevereiro de 2026O que significa planejar uma cidade? A planta da cidade de Mileto (450 a.C.) e a clássica obra de Vitrúvio mostram que, no passado, a prioridade era desenhar antecipadamente onde seriam as ruas, espaços e equipamentos públicos, reservando-os das construções privadas.
Essa lógica durou por séculos, da “Leis das Índias” da colonização espanhola na América ao Commissioners’ Plan de 1811 de Nova York, que desenhou o emblemático xadrez viário de Manhattan. Em Belo Horizonte, tivemos o projeto de Aarão Reis para a então nova capital mineira, que se limitou à região da Avenida do Contorno e não acompanhou o crescimento da cidade.

O espaço público era a prioridade do poder público, e o lote privado — a forma, a altura e o uso das edificações — era definido principalmente pelos proprietários e seus respectivos construtores e arquitetos.
Nas cidades brasileiras, a responsabilidade sobre a calçada é do proprietário do lote adjacente, e a manutenção de parques e praças tem sido cada vez mais delegada à iniciativa privada através de adoções ou concessões. O desenho da malha viária é feito por loteadores privados e apenas aprovado pelo poder público, que deixou de desenhar ruas há décadas. Enquanto secretarias de urbanismo criam e fiscalizam regras meticulosas sobre edificações privadas em áreas formais, bairros informais inteiros crescem à revelia dessas regras – e de qualquer planejamento. Exemplos não faltam para essa inversão de valores.
Leia mais: Quais deveriam ser as prioridades para o urbanismo brasileiro?
Para projetar uma simples sacada, há parâmetros específicos que diferem entre cidades. Em Porto Alegre, se tiver até 2,5m de profundidade, ela não conta para o limite de área construída para o prédio. No Rio, a varanda não conta quando o prédio é residencial, o que gera às vezes mais área de varanda do que a área do resto do apartamento. Esse cálculo complexo deu origem à “varanda gourmet”, um artifício criado para valorizar uma área “não computável”, mais barata para o incorporador.
No Rio de Janeiro, áreas de recreação se tornaram obrigatórias nos prédios residenciais a partir de 1956, regra que só foi flexibilizada em 2016. Em Porto Alegre, o Código de Edificações exige que todo edifício com mais de 16 unidades tenha uma dependência de zelador de pelo menos 45 m². Até 2008, o Plano Diretor de Recife exigia no mínimo 1 vaga de estacionamento para apartamentos até 40 m² e 3 vagas para apartamentos com mais de 150 m². A Lei de Uso e Ocupação do Solo do Distrito Federal tem 23 tipos diferentes de usos, com regras que definem até se um lote pode ou não produzir “itens de joalheria” ou “instrumentos musicais”.
O acúmulo dessas exigências ao longo do tempo impacta o custo da moradia, acoplando às construções amenidades ou restrições pouco relevantes para a maioria dos residentes. No Brasil, esse custo ajuda a empurrar a população para a informalidade, sendo hoje mais de 16 milhões de pessoas morando em favelas onde essas mesmas regulações são dispensadas pelo poder público. O planejamento urbano brasileiro acaba penalizando justamente quem mais precisa do urbanismo.

É comum a crença de que na prefeitura há justificativas técnicas para cada regra. No entanto, muitas exigências têm origem desconhecida, heranças “copia e cola” de legislações passadas ou de outras cidades, mas tão antigas que se tornaram inquestionáveis. Para endereçar essa disfunção, precisamos de uma auditoria regulatória urgente, assim como o resgate das funções clássicas do planejamento urbano.
Regras devem ter um motivo claro e ter a sua performance avaliada ao longo do tempo. Planos diretores deveriam focar em projetos de urbanização de favelas, desenho viário, arborização, infraestrutura e tudo relacionado ao espaço público. Enquanto privatizarmos nossos parques e regularmos as varandas-gourmet, teremos um caos planejado.
Texto publicado originalmente na coluna do Caos Planejado na Folha de S. Paulo, em fevereiro de 2026.
Se você quer aprender mais sobre a gestão urbana no Brasil e como rever suas prioridades, conheça o curso “Do Planejamento ao Caos“.
Somos um projeto sem fins lucrativos com o objetivo de trazer o debate qualificado sobre urbanismo e cidades para um público abrangente. Assim, acreditamos que todo conteúdo que produzimos deve ser gratuito e acessível para todos.
Em um momento de crise para publicações que priorizam a qualidade da informação, contamos com a sua ajuda para continuar produzindo conteúdos independentes, livres de vieses políticos ou interesses comerciais.
Gosta do nosso trabalho? Seja um apoiador do Caos Planejado e nos ajude a levar este debate a um número ainda maior de pessoas e a promover cidades mais acessíveis, humanas, diversas e dinâmicas.
Quero apoiarA grande contribuição dos carros elétricos para as nossas cidades é a eliminação da poluição do ar e a drástica redução da poluição sonora. Mas é só isso.
Confira a nossa conversa com Ericson Scorsim sobre como as cidades brasileiras podem lidar com o problema dos ruídos.
O zoneamento inclusivo (ou cota de solidariedade) não é a melhor estratégia para promover acessibilidade habitacional, mas virou uma forma de barganha para a aprovação de leis que permitam mais construção.
A única forma de aumentar o uso da bicicleta nas cidades brasileiras é com a construção de uma rede ampla, segura e conectada de ciclovias.
O que perdemos quando insistimos em separar meio ambiente e sociedade?
Quando o zoneamento limita a oferta de moradia, aumentar o potencial construtivo gera mais unidades. Dados de Auckland e São Paulo evidenciam isso.
Confira a nossa conversa com Leonardo Paranaguá sobre os projetos da Cia City e o futuro dos bairros jardim.
Os críticos diziam que liberar mais potencial construtivo geraria apartamentos grandes e caros. Mas uma pesquisa em Mumbai, uma das cidades mais populosas do mundo, descobriu o contrário.
O que os planejadores urbanos devem levar em consideração na reconstrução de uma cidade em ruínas.
COMENTÁRIOS