Utilizamos cookies para oferecer melhor experiência, melhorar o desempenho, analisar como você interage em
nosso site e personalizar o conteúdo. Saiba mais em Política de
privacidade e conduta.
O que significa planejar uma cidade? A planta da cidade de Mileto (450 a.C.) e a clássica obra de Vitrúvio mostram que, no passado, a prioridade era desenhar antecipadamente onde seriam as ruas, espaços e equipamentos públicos, reservando-os das construções privadas.
Essa lógica durou por séculos, da “Leis das Índias” da colonização espanhola na América ao Commissioners’ Plan de 1811 de Nova York, que desenhou o emblemático xadrez viário de Manhattan. Em Belo Horizonte, tivemos o projeto de Aarão Reis para a então nova capital mineira, que se limitou à região da Avenida do Contorno e não acompanhou o crescimento da cidade.
Desenho do xadrez viário de Manhattan, Nova York, adotado em 1811. Mapa: Wikimedia Commons
O espaço público era a prioridade do poder público, e o lote privado — a forma, a altura e o uso das edificações — era definido principalmente pelos proprietários e seus respectivos construtores e arquitetos.
No Brasil de hoje, essa lógica se inverteu. O planejamento urbano foca nas edificações privadas, tentando “projetar” cada lote. Já as ruas, calçadas, praças e parques, intrínsecos ao poder público, foram esquecidos pelos planos diretores.
Nas cidades brasileiras, a responsabilidade sobre a calçada é do proprietário do lote adjacente, e a manutenção de parques e praças tem sido cada vez mais delegada à iniciativa privada através de adoções ou concessões. O desenho da malha viária é feito por loteadores privados e apenas aprovado pelo poder público, que deixou de desenhar ruas há décadas. Enquanto secretarias de urbanismo criam e fiscalizam regras meticulosas sobre edificações privadas em áreas formais, bairros informais inteiros crescem à revelia dessas regras – e de qualquer planejamento. Exemplos não faltam para essa inversão de valores.
Para projetar uma simples sacada, há parâmetros específicos que diferem entre cidades. Em Porto Alegre, se tiver até 2,5m de profundidade, ela não conta para o limite de área construída para o prédio. No Rio, a varanda não conta quando o prédio é residencial, o que gera às vezes mais área de varanda do que a área do resto do apartamento. Esse cálculo complexo deu origem à “varanda gourmet”, um artifício criado para valorizar uma área “não computável”, mais barata para o incorporador.
No Rio de Janeiro, áreas de recreação se tornaram obrigatórias nos prédios residenciais a partir de 1956, regra que só foi flexibilizada em 2016. Em Porto Alegre, o Código de Edificações exige que todo edifício com mais de 16 unidades tenha uma dependência de zelador de pelo menos 45 m². Até 2008, o Plano Diretor de Recife exigia no mínimo 1 vaga de estacionamento para apartamentos até 40 m² e 3 vagas para apartamentos com mais de 150 m². A Lei de Uso e Ocupação do Solo do Distrito Federal tem 23 tipos diferentes de usos, com regras que definem até se um lote pode ou não produzir “itens de joalheria” ou “instrumentos musicais”.
O acúmulo dessas exigências ao longo do tempo impacta o custo da moradia, acoplando às construções amenidades ou restrições pouco relevantes para a maioria dos residentes. No Brasil, esse custo ajuda a empurrar a população para a informalidade, sendo hoje mais de 16 milhões de pessoas morando em favelas onde essas mesmas regulações são dispensadas pelo poder público. O planejamento urbano brasileiro acaba penalizando justamente quem mais precisa do urbanismo.
Favela do Moinho (São Paulo), com edificações que se desenvolvem a partir da necessidade existente, sem nenhuma das regras de potencial construtivo, afastamentos, uso, altura e número mínimo de vagas de estacionamento, que muitas vezes são o foco das discussões nos Planos Diretores de cidades brasileiras. Foto: Wikimedia Commons
É comum a crença de que na prefeitura há justificativas técnicas para cada regra. No entanto, muitas exigências têm origem desconhecida, heranças “copia e cola” de legislações passadas ou de outras cidades, mas tão antigas que se tornaram inquestionáveis. Para endereçar essa disfunção, precisamos de uma auditoria regulatória urgente, assim como o resgate das funções clássicas do planejamento urbano.
Regras devem ter um motivo claro e ter a sua performance avaliada ao longo do tempo. Planos diretores deveriam focar em projetos de urbanização de favelas, desenho viário, arborização, infraestrutura e tudo relacionado ao espaço público. Enquanto privatizarmos nossos parques e regularmos as varandas-gourmet, teremos um caos planejado.
Sua ajuda é importante para nossas cidades. Seja um apoiador do Caos Planejado.
Somos um projeto sem fins lucrativos com o objetivo de trazer o debate qualificado sobre
urbanismo e cidades para um público abrangente. Assim, acreditamos que todo conteúdo que
produzimos deve ser gratuito e acessível para todos.
Em um momento de crise para publicações que priorizam a qualidade da informação, contamos com
a sua ajuda para continuar produzindo conteúdos independentes, livres de vieses políticos ou
interesses comerciais.
Gosta do nosso trabalho? Seja um apoiador do Caos Planejado e nos ajude a levar este debate a
um número ainda maior de pessoas e a promover cidades mais acessíveis, humanas, diversas e
dinâmicas.
O zoneamento inclusivo (ou cota de solidariedade) não é a melhor estratégia para promover acessibilidade habitacional, mas virou uma forma de barganha para a aprovação de leis que permitam mais construção.
Os críticos diziam que liberar mais potencial construtivo geraria apartamentos grandes e caros. Mas uma pesquisa em Mumbai, uma das cidades mais populosas do mundo, descobriu o contrário.
As megacidades da China cresceram com um impressionante desenvolvimento imobiliário e investimento em infraestrutura. Hoje, elas também apresentam algumas fragilidades.
Por que as cidades brasileiras têm tantos imóveis ociosos? Os motivos são heterogêneos, e para buscar soluções é preciso entender a complexidade do problema.
COMENTÁRIOS