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Anos atrás, viralizou nas redes uma foto do já idoso Paul McCartney lendo seu jornal enquanto andava de trem. Para urbanistas, a foto ilustrava uma famosa frase de Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá: uma boa cidade não é aquela na qual os pobres usam carro, mas onde até os ricos usam transporte coletivo. Para os brasileiros, essa realidade parece distante.
Em São Paulo, os usuários de transporte coletivo gastam em média 2h e 47min por dia em deslocamentos. Nos pontos de ônibus, o tempo médio de espera é de 24 minutos. Frequência baixa, alta lotação e falta de pontualidade são problemas recorrentes.
Nos últimos anos, o número de passageiros caiu em várias cidades, crise marcada desde as “Jornadas de Junho” de 2013, uma sequência de protestos cujo estopim foi o aumento das tarifas. Anos depois, a pandemia derrubou a demanda em 80% do dia para a noite, criando um rombo financeiro do qual o sistema ainda tenta se recuperar.
O colapso estava se desenhando há décadas, com cidades que induziram a dependência do carro em suas legislações e projetos viários, espalhando as pessoas no território, aumentando distâncias de deslocamento e priorizando infraestrutura para carros. A escolha racional virou ter um carro assim que financeiramente possível para não precisar se submeter ao desconforto, demora e imprevisibilidade do transporte coletivo.
Queda no IPKe (Índice de Passageiros Equivalentes por Quilômetro) de 1994 a 2016, apontando para uma queda no número de passageiros no sistema e um aumento da distância média percorrida por eles. Gráfico: NTU – Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos.
Com a fuga de passageiros, aumentou-se a necessidade de subsídios aos operadores de ônibus. Na crise de 2013, superar a marca de R$1 bilhão em subsídios em São Paulo já era um sinal gravíssimo. Em 2025, mesmo com os subsídios ultrapassando R$6 bilhões, o número de passageiros segue caindo. O dinheiro, por si só, não resolverá o problema. Para além do debate sobre financiamento, é preciso discutir como melhorar a qualidade do transporte coletivo, revertendo seu colapso e voltando a atrair passageiros.
O primeiro passo é otimizar o uso da via. Em São Paulo, carros ocupam 88% do espaço viário, embora representem apenas um terço dos deslocamentos. A eficiência do transporte coletivo depende de menos carros nas ruas. Precisamos de medidas como faixas exclusivas para ônibus e eliminação de estacionamento em vias públicas — que é, na prática, um subsídio público ao depósito de bens privados de uso exclusivo.
A eficiência do transporte coletivo depende de menos carros nas ruas.
Também é necessária uma melhor integração com o transporte a pé e de bicicleta. Isso significa desenhar boas calçadas e ciclovias seguras, oferecendo conforto no início e no final do trajeto. Integração cicloviária também significa ampliar o acesso dos passageiros ao sistema, pois a bicicleta ajuda a vencer distâncias maiores até as paradas. As próprias paradas também devem oferecer segurança e conforto, com boas coberturas, assentos, iluminação, informação sobre rotas e até mesmo câmeras de segurança.
Além disso, um aspecto esquecido no debate é o transporte coletivo alternativo. Vans e micro-ônibus, com flexibilidade e acesso a periferias onde o ônibus convencional não chega, representam uma solução com mais conforto e rapidez para muitas pessoas. Ao invés de marginalizá-los, devemos regulamentá-los e incorporá-los ao sistema. A tentativa de impedir esses modos levou os passageiros a optarem pelo automóvel ou, pior ainda, pela motocicleta, resultando também na disparada de fatalidades no trânsito.
Por fim, precisamos de novas licitações de transporte com foco na performance, remunerando as operadoras pela pontualidade, qualidade do serviço e satisfação do usuário. Estabelecer metas contratuais claras, redesenhar rotas com base em pesquisas de origem e destino atualizadas e incorporar novas tecnologias para facilitar a comunicação e a compra de passagens são passos fundamentais. Linhas devem ser expandidas e suas frequências aumentadas, elevando a confiabilidade do sistema.
Com mudanças no planejamento urbano e na gestão do transporte coletivo, ele pode se tornar uma escolha, e não uma necessidade de quem não tem carro. Sonhamos com o dia em que veremos Gilberto Gil lendo seu jornal no ônibus – Paul McCartney já provou que é possível.
Para aprender mais sobre como a gestão urbana pode lidar melhor com o transporte coletivo público e alternativo, conheça o curso “Do Planejamento ao Caos“.
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