O urbanismo dos estádios de futebol
Foto: Wikimedia Commons

O urbanismo dos estádios de futebol

Estádios podem se relacionar de formas muito diferentes com os seus respectivos entornos, e isso normalmente revela as prioridades do urbanismo da cidade.

11 de junho de 2026

Na Copa do Mundo de 2026, as autoridades locais declararam que está estritamente proibido chegar até o MetLife Stadium a pé. O estádio, que fica em Nova Jersey (região metropolitana de Nova York), será o palco da grande final da competição, além de vários outros jogos. Apesar de estar a 15 km do coração de Manhattan — região mais densa e caminhável dos EUA —, ele é cercado por rodovias e um enorme estacionamento, configuração comum em muitos estádios norte-americanos.

MetLife Stadium, com Manhattan visível no horizonte. Foto: Wikimedia Commons

Na mídia e nas redes sociais, essa proibição gerou um conflito especialmente com os fãs europeus de futebol, que convivem com uma realidade bem diferente em várias das grandes cidades do seu continente. Seria impensável uma restrição desse tipo em estádios como o Santiago Bernabéu (Madri), o Camp Nou (Barcelona) ou o Parc des Princes (Paris), por exemplo.

A maneira como o estádio está inserido na cidade e pode ser acessado geralmente é um reflexo do tipo de urbanização e das decisões de planejamento.

De modo geral, os estádios podem servir como uma espécie de “termômetro” urbanístico. Embora não seja uma regra, a maneira como eles estão inseridos na cidade e podem ser acessados pelos seus visitantes geralmente é um reflexo do tipo de urbanização e das decisões de planejamento que formam a cidade. Vejamos, então, alguns exemplos no Brasil e no mundo.

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Estádios-ilha 

Com o seu boom de urbanização no início do século 20, os EUA foram os pioneiros em uma adoção em grande escala do rodoviarismo e do zoneamento nas cidades. Na época, priorizar o carro, separar usos e espalhar as pessoas no território parecia ser a melhor resposta para os problemas de insalubridade das cidades industriais, e embora as consequências desse modelo já tenham se provado nocivas há décadas, ele continua sendo aplicado em muitas decisões. Não por acaso, é nos EUA que estão alguns dos casos mais emblemáticos de estádios que funcionam como ilhas, isolados por um mar de bolsões de estacionamento, rodovias e viadutos, sem outras edificações e usos por perto.

Além do MetLife Stadium, quase todos os outros estádios norte-americanos incluídos na Copa de 2026 reproduzem essa lógica, como AT&T Stadium (Dallas), SoFi Stadium (Los Angeles), Lincoln Financial Field (Filadélfia), NRG Stadium (Houston). São exemplos que impressionam quando vistos de cima, especialmente se comparados a outros estádios menos isolados do tecido urbano.

As cidades brasileiras, no geral, também foram muito influenciadas pelas ideias do rodoviarismo e do zoneamento do século 20, e alguns dos nossos estádios mostram isso, mesmo que em uma proporção menor que os exemplos norte-americanos. O Mané Garrincha (Brasília), por exemplo, têm generosos bolsões de estacionamento, que prejudicam a experiência de quem chega a pé ou de ônibus, e a estação de metrô mais próxima fica a mais de 2 km de caminhada com pouca sombra e poucos atrativos como comércios voltados para a calçada.

Acesso ao Estádio Mané Garrincha. Imagem: Google Earth

Embora os principais estádios de São Paulo e do Rio de Janeiro já tenham um acesso facilitado pelo metrô, a maioria deles ainda tem muito a melhorar na integração com os seus arredores, com áreas que poderiam ser mais convidativas aos pedestres (inclusive na caminhada da estação até o portão).

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Provando que somente dinheiro e boas intenções não são suficientes, temos o caso da Neo Química Arena (popularmente conhecida como Itaquerão), inaugurada para a Copa de 2014 com um investimento bilionário em uma das regiões mais populosas da cidade de São Paulo, mas com uma implantação que nada favorece o caminhar. Como denuncia o jornalista Raul Juste Lores, o estádio é próximo de uma estação de metrô e rodeado por terrenos públicos, incluindo uma faculdade e um conjunto de habitação de interesse social, que tinham o potencial de movimentar a vizinhança e diminuir distâncias do cotidiano, mas ao invés disso têm edificações isoladas por cercas e muros, que resultaram em calçadas ermas e baixíssima atratividade.

Estádios integrados à cidade

Por outro lado, em cidades que tiveram uma urbanização mais compacta, diversa e menos dependente do carro, é comum vermos outros tipos de implantação de estádio. Muitos possuem residências, comércios e diferentes atividades ao seu redor, aproveitando também o potencial econômico que um equipamento desse tipo traz para a cidade. Nesses casos, o acesso de carro muitas vezes é mais difícil que de transporte público ou a pé, pois não há uma grande reserva de espaço para os automóveis — afinal, eles não são a prioridade.

Um dos principais exemplos é o Santiago Bernabéu, em Madri. Situado no Paseo de la Castellana, uma das avenidas mais importantes da cidade, ele tem uma estação de metrô logo ao lado. Em seu entorno, a poucos metros de distância, existem edificações com usos diversos, alinhadas aos limites do lote, com térreos bem integrados com a calçada. As lojas e restaurantes do próprio estádio também são voltadas para as ruas adjacentes, contribuindo para a caminhabilidade.

Mas as boas referências não estão só na Europa. Em Medellín, na Colômbia, a implantação do estádio Atanasio Girardot tinha um desafio particular, pois embora esteja relativamente perto do centro da cidade e seja bem servido pela linha do trem, é também um grande terreno, com diferentes equipamentos esportivos. Mesmo assim, a solução priorizou uma boa integração com o entorno. Lanchonetes foram posicionadas como quiosques ao lado da calçada de uma das ruas adjacentes, criando também uma espécie de praça arborizada totalmente acessível, sem cercas ou muros. Boa parte do complexo é permeável, permitindo que os pedestres cortem caminho por dentro dele. Ao longo de toda a extensão do terreno há fileiras de árvores que acompanham a calçada e por vezes se abrem em pequenas praças com bancos.

Felizmente, também temos um exemplo interessante no Brasil: a reforma de 2014 da Arena da Baixada, em Curitiba. Com um projeto de Carlos Arcos, arquiteto uruguaio que morou e estudou em São Paulo, a área do estádio foi ampliada e com isso buscou-se melhorar a integração com a calçada e criar um espaço público não só de passagem, mas de permanência e convivência. Na fachada do estádio voltada para a Praça Afonso Botelho foi criado um complexo de restaurantes virados para a rua, valorizando o espaço público e melhorando a caminhabilidade. Na calçada, as estruturas que contornam os novos canteiros de árvores são elevadas e funcionam como bancos. Além disso, uma característica herdada do antigo projeto é que parte das fachadas cegas do estádio — algo praticamente inevitável nesse tipo de arquitetura — não se volta diretamente para a rua, mas fica atrás de outros lotes de edificações, permitindo uma melhor interface com a calçada.

Ainda que não seja um equipamento de uso diário, os estádios mobilizam milhares de pessoas e têm um papel cultural importante. Algumas vezes, a forma como eles se relacionam com o entorno é um sintoma da visão de planejamento urbano do local e do que precisa ser revisto. E nesse sentido, estádios que priorizam o pedestre e o transporte coletivo, com atividades e usos diversos ao seu redor, contribuindo para a vitalidade urbana, indicam uma intenção de construir uma cidade diversa, dinâmica e acessível. Que eles nos sirvam de inspiração.

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