Planejar onde quase não há regulação urbana: lições da Guiné-Bissau
Como se planeja um território onde praticamente não há legislação? A resposta curta é: com todos os outros recursos que existem.
Na crise climática, tem uma questão mais urgente que as emissões de carbono, a transição energética e as soluções baseadas na natureza: a moradia.
8 de junho de 2026Quando as chuvas chegam em forma de catástrofe — e chegam cada vez mais assim —, a primeira pergunta não é sobre emissões de carbono, nem sobre metas climáticas assinadas em conferências internacionais. A primeira pergunta é: onde essa família vai dormir esta noite?
É uma pergunta urgente, concreta, e que o debate climático brasileiro ainda não aprendeu a responder bem. O Brasil tem avançado em estratégias de mitigação, redução de emissões, transição energética, proteção florestal, e, mais recentemente, incorporado soluções baseadas na natureza para adaptação. São agendas necessárias. Mas deixam de fora um fator estrutural que amplifica todos os outros: a habitação precária e a desigualdade urbana.
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O número de desastres climáticos no Brasil cresceu 460% em relação aos anos 1990. No entanto, enchentes, deslizamentos e ondas de calor extremas não atingem a todos da mesma forma. Geralmente, os endereços dos mais afetados são: favelas sem obras de contenção, periferias sem drenagem, encostas ocupadas e moradias precárias onde vivem famílias sem outra opção.

Segundo dados da TETO Brasil, 60% das favelas mapeadas pelo Panorama Climático (2025) não dispõem de obras de contenção contra desastres ambientais. E 60% das pessoas que vivem nessas comunidades se consideram em perigo quando há tempestades e chuvas intensas. É um diagnóstico que revela a consciência de quem sabe que sua casa não vai aguentar.
A população que vive em favelas, comunidades, habitações precárias ou em situação de rua contribui historicamente de forma marginal para a crise climática. Emite e consome pouco, ocupando menos espaço. Mas, ainda assim, absorve o peso desproporcional dos seus efeitos. Isso tem nome: injustiça climática e, especialmente no Brasil, racismo ambiental.
O que diferencia uma enchente de uma tragédia não é só a intensidade da chuva, mas também a qualidade da estrutura que precisa resistir a ela.
Uma casa em área de risco, construída sem planejamento técnico, sem infraestrutura de escoamento, sem acesso a alertas ou a rotas de fuga, é uma estrutura que amplifica o desastre. E o ciclo é cruel: o evento climático destrói, a família perde o pouco que tinha, enfrenta meses de instabilidade e insalubridade, não consegue reconstruir com segurança, e volta a ocupar a mesma área de risco ou uma equivalente, porque não existe alternativa acessível. Isso evidencia que a nossa política habitacional ainda não chega a quem mais precisa.
Os efeitos do clima não se limitam ao momento do desastre. Eles comprometem a recuperação a longo prazo, a saúde mental, a frequência escolar das crianças e a continuidade do emprego dos adultos. Reforçam, sistematicamente, os ciclos de pobreza que já existiam antes da chuva cair. No Panorama Climático da TETO Brasil, a região Sul do país foi a que apresentou comunidades com tempos de recuperação mais longos após desastres. 31,8% das comunidades levaram mais de um mês para se recuperar, enquanto 27,3% afirmam que não conseguiram se restabelecer totalmente.

Essas situações mostram que o déficit habitacional, além de ser um problema social, também é um problema climático. Cada família em situação precária de moradia é uma família com menor capacidade de resistir, recuperar-se e adaptar-se às mudanças climáticas. E o Brasil tem, hoje, mais de 91 milhões de pessoas morando em domicílios com algum tipo de inadequação (como ausência de infraestrutura, cobertura inadequada, irregularidade fundiária etc.), segundo a Fundação João Pinheiro.
A política climática brasileira avançou em várias frentes. O país tem compromissos internacionais, metas de desmatamento e uma indústria crescente de energias renováveis. Mas a habitação permanece marginal nessa equação.
Quando falamos em “soluções baseadas na natureza”, raramente mencionamos essas soluções para comunidades em áreas de risco. Quando discutimos adaptação urbana, raramente aparecem à mesa as lideranças das favelas que já constroem soluções de drenagem por conta própria há décadas.

Esse descaso tem um custo elevado. Ele torna as respostas climáticas tecnicamente insuficientes porque ignoram a dimensão humana central do problema. E também as torna politicamente frágeis, pois excluem justamente as populações que mais precisam que essas políticas funcionem.
Deixar de incorporar a moradia como peça central nas estratégias climáticas é uma escolha que aprofunda desigualdades, eleva os gastos públicos com emergências e consolida vulnerabilidades que poderiam ser prevenidas.
Hoje, o Brasil está diante de um momento importante: o ciclo eleitoral de 2026 se aproxima, em meio à intensificação dos eventos climáticos extremos, com o potencial Super El Niño de 2026 apontado como um dos mais intensos em décadas. É um momento em que a urgência climática é apropriada pela narrativa política e pelas propostas de campanha.
O debate sobre moradia e clima precisa ser inserido nessa janela de oportunidade, com força e com dados, antes que os investimentos futuros sejam comprometidos reproduzindo os mesmos padrões de risco.
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Essa é a aposta do 1º Fórum Brasileiro de Moradia e Clima, que acontece no dia 11 de junho de 2026, em Brasília, no Memorial Darcy Ribeiro. Organizado pela TETO Brasil e pelo FICA, o evento reúne poder público, academia, sociedade civil, setor privado e lideranças comunitárias para debater a interseção entre habitação e crise climática e produzir recomendações concretas que cheguem às mesas onde as decisões são tomadas.
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