Calçada: o impasse entre a lei e o cotidiano das cidades
Leis no Brasil priorizam o pedestre no espaço viário. Mas, ao eximir a prefeitura de seu papel, uma norma municipal vem impedindo avanços.
O Bryant Park, em Nova York, foi transformado de um local evitado pelas pessoas em um destino vibrante e, desde então, tornou-se o “padrão ouro” para um espaço público.
25 de junho de 2026O Bryant Park fica no epicentro de Midtown Manhattan, em uma quadra que também abriga a icônica Biblioteca Pública de Nova York. Sua transformação, inaugurada em 1992, é uma história emblemática de como um espaço público ganhou vida por meio do placemaking. Sua trajetória, de um espaço indesejado ao coração pulsante de Midtown Manhattan, tem inspirado cidades ao redor do mundo.
O Bryant Park é um ótimo estudo de caso de como um espaço público inseguro e subutilizado pode se tornar um destino desejado com a melhora do acesso e da visibilidade a partir da rua, além do oferecimento de amenidades públicas e uma uma programação dinâmica e regular, incluindo ativações temporárias.
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Na década de 1970, o Bryant Park — parque municipal desde 1847 — era um gramado deserto, embora cercado por imponentes árvores, com poucas amenidades para os visitantes. Devido à falta de frequentadores e de atividades, somada à baixa visibilidade de fora para dentro, o parque se tornou um reduto de atividades ilícitas e degradação. Em determinado momento, chegou a receber o apelido de “Needle Park” (Parque da Agulha) devido à forte presença de drogas. Em 1976, o New York Times relatou que ocorreram 43 assaltos no parque apenas nos primeiros seis meses daquele ano.
William H. Whyte e o Street Life Project analisaram o Bryant Park no início dos anos 1970, e ele aparece brevemente em seu documentário “The Social Life of Small Urban Spaces” como um local particularmente inseguro. Em um memorando de 1979 enviado ao Rockefeller Brothers Fund, Holly escreveu que os traficantes não eram a causa do problema, e que “o problema básico é a subutilização”.
Também em 1979, com financiamento da Fundação Rockefeller, a Bryant Park Restoration Corporation (atual Bryant Park Corporation), sob a liderança inovadora de Dan Biederman, convidou a organização Project for Public Spaces (PPS) para analisar o uso do parque. Eles entrevistaram policiais e a equipe de manutenção, pesquisaram os frequentadores (incluindo os traficantes) e mapearam como as pessoas utilizavam o espaço. A PPS recomendou, então, como o parque poderia ser redesenhado e programado para se transformar em um lugar onde todos pudessem se sentir acolhidos, relaxados, seguros e felizes.
Nós não nos considerávamos “projetistas”, mas sim uma espécie de equipe de reparos. O desenho original do parque havia sido tombado como patrimônio histórico de Nova York, mas, dentro dessa restrição, ainda havia muito a ser alterado e melhorado sem descaracterizar o projeto. De fato, o Bryant Park é um testemunho de que um lugar não precisa mudar estruturalmente para ser completamente transformado.
Felizmente, o Bryant Park possui um desenho simples e clássico, que se manteve praticamente o mesmo no último século. Ele conta com um grande gramado central (perfeito para eventos e piqueniques), alamedas arborizadas que garantem boa sombra (ideais para mobiliário urbano e cafés), uma fonte (ótima como ponto de encontro) e vários jardins e monumentos para contemplação. O desenho do parque precisava apenas de alguns ajustes — principalmente no paisagismo e no perímetro — para tornar o espaço muito mais funcional e atrativo.
O Bryant Park é cercado por muretas baixas e grades de ferro que não podem sofrer alterações significativas devido às leis de tombamento de Nova York. Na década de 1970, as cercas vivas e o paisagismo haviam crescido demais, obstruindo a visão para dentro do parque e tornando-o hostil para quem passava a pé (os arbustos também reduziam a visibilidade e a acessibilidade interna). O diagrama da PPS abaixo mostra os pontos de visão obstruídos ao redor de todo o parque:

Embora o muro perimetral e as grades não pudessem ser alterados, as cercas vivas atrás das grades foram removidas e substituídas por canteiros baixos. Assim, quem caminha pela calçada hoje consegue enxergar facilmente o interior do parque. As escadarias de acesso também receberam autorização para serem levemente alargadas, tornando-se mais imponentes e convidativas, ao mesmo tempo em que eliminaram os cantos escuros e escondidos que criavam as condições perfeitas para atividades ilícitas. A remoção do excesso de vegetação e o redesenho dos acessos tornaram todo o parque mais aberto e convidativo.
Uma nova entrada na esquina da Rua 42 com a Avenida das Américas foi uma das maiores mudanças de desenho. Além de alargar esse acesso e derrubar muros, foram adicionados quiosques de alimentação e mesas de café. Essas atividades atraem as pessoas na calçada e as convida a entrar, criando também uma segurança informal em um ponto que era crítico.

Destacar os pontos focais já existentes no parque e adicionar novos foi outra mudança crucial para torná-lo mais amigável aos frequentadores. A fonte sempre esteve no Bryant Park e atrai as pessoas naturalmente, como marcos urbanos — especialmente elementos com água — costumam fazer. No entanto, sem lugares para sentar ao seu redor, ela era apenas algo para se fotografar antes de seguir viagem. Quando áreas de assento e de alimentação foram instaladas no seu entorno, a fonte se tornou um verdadeiro destino, um ponto de encontro e uma marca registrada do parque.
Outros pontos focais do parque incluem o pitoresco carrossel, o monumento junto à biblioteca e pontos focais temporários, como o Winter Lounge (espaço de convivência no inverno) e a árvore de Natal durante a temporada de patinação no gelo.
O segredo para criar ótimos lugares é preenchê-los com amenidades que façam as pessoas quererem estar ali. Elas trazem conforto, prazer, conveniência, segurança e alegria ao espaço. Se um espaço público for apenas um descampado, como o Bryant Park era inicialmente e como muitos parques ainda são hoje, ele não oferece nada que estimule as pessoas a frequentá-lo e passar o tempo ali.

Inspirado em parte pelo Jardim de Luxemburgo, em Paris, o mobiliário urbano móvel do Bryant Park é uma de suas comodidades mais icônicas e amadas. Por serem leves e facilmente transportáveis, as cadeiras do parque dão às pessoas a flexibilidade de sentar onde e como quiserem. Sua cor verde se integra harmoniosamente à vegetação, e seu design é esteticamente agradável e confortável. As cadeiras transformaram o parque de um local de passagem para um lugar de permanência e encontros.
Uma das atividades que as pessoas mais gostam de fazer quando estão na rua é comprar algo para comer ou beber. O que pode ser mais agradável do que tomar um chocolate quente em um dia frio ou um sorvete no calor? Quando você adiciona opções de alimentação a um espaço público, você quase sempre atrai visitantes.
No Bryant Park, uma variedade de cafés, bares, quiosques e restaurantes foi instalada para atender a diferentes momentos e estações do ano. Esses estabelecimentos ocupam pontos que, na década de 1970, eram espaços degradados e subutilizados; o objetivo era atrair atividades positivas para essas áreas. A PPS às vezes brincava dizendo que os traficantes haviam identificado as melhores localizações para o comércio, nós apenas mudamos os produtos.
O restaurante localizado atrás da biblioteca funciona como uma importante âncora e um dos principais pontos focais do parque. Além disso, uma parte de seus lucros (assim como ocorre com todas as concessões do parque) é revertida para a gestão e manutenção do espaço. Essa é uma excelente estratégia para financiar a zeladoria de um local público e criar uma relação simbiótica entre as esferas pública e privada, já que ambas se beneficiam do aumento do fluxo de visitantes.
A farta arborização do Bryant Park cria uma atmosfera agradável. Sem as árvores, haveria uma alta incidência solar sobre os visitantes, desestimulando as pessoas a passarem tempo ao ar livre. Mesas e cadeiras móveis sob a copa das árvores, ao longo das alamedas, permitem que as pessoas escolham se querem sentar ao sol ou à sombra, garantindo conforto para desfrutar do parque da manhã à noite, do verão ao inverno.
Outra amenidade frequentemente negligenciada mas incrivelmente importante em espaços públicos são os banheiros, que tornam viável e confortável a permanência prolongada de pessoas de todas as idades. Os banheiros do Bryant Park são extremamente limpos e agradáveis, tornando-se conhecidos como os melhores banheiros públicos da cidade.

No coração de um grande espaço público está a sua programação. As pessoas não querem apenas contemplar elementos como uma fonte ou consumir produtos como café; elas querem viver experiências, especialmente de forma coletiva. Shows, competições, aulas de dança, festivais e feiras são eventos que atraem multidões. São as atividades que trazem as pessoas para um lugar e as fazem retornar repetidas vezes. Uma programação que funcione o ano todo mantém o espaço ativo.
O Bryant Park é um dos melhores exemplos desse princípio. Hoje, ele é um espaço público vibrante em grande parte porque possui programações durante todas as estações do ano.
A Bryant Park Corporation experimentou logo no início a programação baseada no conceito “Lighter, Quicker, Cheaper” (LQC), que significa “mais leve, mais rápido, mais barato”. Assim, descobriu que era possível substituir usos nocivos por usos positivos — como tomar sorvete, ler livros e relaxar com amigos. Bancas de livros, vendedores ambulantes de comida, jogos e eventos diversos, como shows, transformaram o Bryant Park de um local dominado pelo tráfico de drogas em um polo de atividades positivas. No começo, o efeito era apenas temporário, mas essas primeiras intervenções amadureceram e moldaram a transformação definitiva do parque.
Shows:
O verão marca a temporada de cinema e shows no Bryant Park. Um palco imenso é montado no grande gramado central, e painéis exibem uma agenda repleta de apresentações. Quando o clima está agradável (e mesmo quando não está), o parque fica lotado de espectadores. As pessoas levam mantas, toalhas de piquenique e lanches, desfrutando de um espetáculo memorável entre amigos e familiares.
Feira de Natal:
A Winter Village (Vila de Inverno) do Bryant Park é um dos pontos altos das festividades de fim de ano em Nova York. Com seus chalés charmosos repletos de artesanato local, lembranças e iguarias sazonais, ela traz uma onda de alegria e energia para o parque todos os anos, além de apoiar o pequeno comércio. A feira se espalha por várias áreas do parque e circunda a atração principal — a pista de patinação no gelo —, garantindo que o fluxo de pedestres circule em todas as direções.
Pista de patinação no gelo:
Nos meses de inverno, o gramado dá lugar a uma pista de patinação no gelo, o que dá às pessoas um motivo para sair de casa mesmo na estação mais cinzenta. Os patinadores se divertem, deslizam e caem, para depois fazer pausas merecidas no chalé mais próximo e comprar um chocolate quente. A pista e a Vila de Inverno, somados à localização central de todo o complexo, tornam o Bryant Park o epicentro das celebrações de fim de ano em Nova York.
Sala de leitura:
Estantes de livros coloridas e com rodinhas, junto a áreas para sentar sob guarda-sóis nessa parte do parque, oferecem uma atividade maravilhosa para pessoas de todas as idades: a leitura. Essa “sala de leitura” ao ar livre incentiva o aprendizado e a convivência, seja para se atualizar com as notícias ou mergulhar em uma estória. O espaço é acolhedor para quem lê sozinho ou em grupo.
Mesas de ping-pong:
Um dos elementos clássicos do Bryant Park são as suas mesas de ping-pong. Ali, é possível ver pessoas de todas as idades e origens se enfrentando em competições amistosas. O ping-pong é uma atividade excelente para o espaço público por ser segura, simples de jogar e inclusiva para todos os níveis de habilidade.
Petanca (“bocha francesa”) e malabarismo:
Um grande espaço público precisa oferecer atividades para todos os recortes demográficos. Com muita frequência, os idosos são negligenciados quando brinquedos e áreas de lazer são introduzidos nas cidades. Jogos como a petanca, também conhecida como a variação francesa da bocha, são divertidos e acessíveis para qualquer idade. As quadras de petanca no Bryant Park estão sempre movimentadas. Outra atração popular são as aulas de malabarismo. Frequentemente, pessoas são vistas girando bastões coloridos, aprimorando suas habilidades e fascinando os espectadores.
Espaço de jogos:
O espaço de jogos é o local onde todos os tipos de jogos de tabuleiro e de cartas são disponibilizados para o público. Além disso, o parque organiza regularmente encontros sociais de jogos para incentivar as pessoas a se conectarem e fazerem amizades com outros entusiastas.
Na década de 1970, a região no entorno do parque era considerada uma área desvalorizada, pois os potenciais inquilinos eram afugentados pela degradação do local. A transformação do Bryant Park tornou a região uma das mais valorizadas de Manhattan — a joia da coroa de Midtown —, a ponto de o nome do parque ser utilizado como uma marca nas torres de escritórios do entorno.
Após a sua revitalização, estar perto do Bryant Park tornou-se um privilégio raro e cobiçado, figurando entre os metros quadrados mais valiosos da cidade. Estudos apontam valores de aluguel significativamente mais altos para edifícios próximos ao parque em comparação com a média da região de Midtown.
Leia mais: Project for Public Spaces/PPS
O Bryant Park catalisou centenas de milhões de dólares em novos investimentos no seu entorno imediato. O empreendimento One Bryant Park, da Durst Organization, substituiu comércios de baixa densidade por um dos edifícios corporativos mais disputados de Midtown. O Two Bryant Park e o Three Bryant Park eram torres de escritórios antigas que passaram por retrofits caros, ganhando novas fachadas e reformas completas. O Four Bryant Park e o Five Bryant Park são edifícios do período pré-guerra que foram totalmente renovados.
O Bryant Park também é o núcleo de um Business Improvement District (BID), no qual os proprietários dos imóveis vizinhos pagam uma taxa adicional destinada à gestão e manutenção do parque e do distrito no entorno. À medida que o valor dos imóveis aumentou, a arrecadação que sustenta o parque também cresceu, permitindo que ele “capturasse” o valor que a sua própria transformação gerou.

O Bryant Park é o coração de Midtown Manhattan e é reconhecido como um dos melhores espaços públicos do mundo. Ele demonstrou que o caminho para a excelência está no placemaking (tornar o espaço um destino desejado) e na programação — e não em um design rígido. O parque mostra que os lugares, assim como as pessoas, podem amadurecer, mudar e evoluir. A improvisação, a mudança e a liberdade são os ingredientes que fazem a “mágica” acontecer.
O Bryant Park também é um ótimo exemplo do que acontece quando deslocamos o foco de como deve ser a aparência de um espaço público para como ele deve fazer as pessoas se sentirem: os comportamentos que ele estimula, as atividades que abriga e a forma como convida as pessoas a se engajarem. As pessoas se apaixonam pelo parque justamente por esses motivos.
O Bryant Park nos mostra como um grande espaço público pode potencializar o valor do seu entorno de várias formas. É um excelente caso a favor do chamado desenvolvimento orientado pelo lugar, onde a revitalização de uma área começa pela criação de espaços públicos de valor. As lições do Bryant Park deveriam ser replicadas por toda a região de Midtown e para além dela.
Artigo originalmente publicado em Social Life Project. Inscreva-se no site para receber conteúdos regulares sobre placemaking e espaços públicos.
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