O urbanismo na segurança pública
Foto: COMPAZ/Prefeitura de Recife

O urbanismo na segurança pública

A segurança pública é um dos maiores problemas urbanos do Brasil hoje. Além do policiamento, precisamos de uma política urbana e social para os territórios controlados pelo crime.

9 de julho de 2026

Conforme as eleições se aproximam, o tema que mais mobiliza eleitores em 2026 é a violência. De acordo com o relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), quase metade dos brasileiros tem medo de andar pela sua vizinhança depois de anoitecer e mais de 80% têm medo de ser roubado à mão armada. Cerca de 30% dos eleitores entendem que o crime e a violência são os problemas mais urgentes do Brasil, independente do lado ideológico.

Essa percepção tem fundamento. Segundo o FBSP, quase 1 milhão de celulares são roubados anualmente no país, e 13% dos brasileiros — quase 22 milhões de pessoas — já tiveram algum familiar ou conhecido assassinado.

População vítima de crime nos últimos 12 meses. Resposta estimulada e múltipla, em % (Brasil, 2026).
Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança e Instituto Datafolha, 2026.

A urbanista Jane Jacobs dizia que a segurança pública dependia de uma vigilância natural de “olhos da rua”, ou seja, de moradores ou comerciantes em contato com o espaço público, assim como de outros pedestres que possam dissuadir uma ação criminosa. 

No entanto, os bairros de maior incidência de roubos em cidades como São Paulo são alguns dos que melhor oferecem essas condições, como Pinheiros, com vítimas em ruas movimentadas em plena luz do dia. Fica claro que a configuração urbana, sozinha, é incapaz de resolver o problema, embora seja parte da equação.

A própria natureza da criminalidade brasileira tem se transformado: enquanto no passado o crime era financiado principalmente pelo tráfico de drogas, atualmente entra em operações comerciais, no setor financeiro, em golpes cibernéticos e também no controle territorial, este último mais sensível à política urbana.

Leia mais: Podcast #133 | Territórios do crime

Segundo o mapa histórico dos grupos armados do Rio de Janeiro, elaborado pelo Instituto Fogo Cruzado e GENI-UFF, 4 milhões de pessoas vivem sob controle ou influência de grupos armados na região metropolitana do Rio. Na capital, a proporção chega a 42% da população (2,5 milhões de pessoas).

Controle e influência territorial armada na Região Metropolitana do Rio de Janeiro em 2024. Fonte: Mapa histórico dos grupos armados – GENI/UFF e IFC

Esse controle é monetizado com uma série de “serviços” com cobranças coercitivas, como taxa de gás, lixo, “gatonet” ou a própria segurança. Pela vulnerabilidade dos territórios e atividades informais, hoje tanto facções como milícias já veem na incorporação imobiliária, seja de loteamentos clandestinos ou construção de edifícios, uma oportunidade de expansão de suas receitas. Esse cenário mostra como o enfrentamento do problema passa, necessariamente, pela política urbana.

O enfrentamento do problema passa, necessariamente, pela política urbana.

Dois dos programas mais ambiciosos — embora incompletos — do Rio de Janeiro para endereçar a questão foram o Favela Bairro e as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). O Favela Bairro focou em levar infraestrutura urbana para as favelas, ajudando a incorporá-las à “cidade formal”. Já as UPPs tentaram ocupar as áreas com polícias pacificadoras, em um modelo distinto das operações militarizadas. Com a evolução do programa, a ideia era expandir para UPPs com serviços sociais, mas essa fase fundamental foi desidratada.

Leia mais: O legado esquecido do programa Favela-Bairro

O exemplo de Medellín, que passou de uma das cidades mais perigosas do mundo a um nível de segurança invejável nas suas favelas, oferece uma visão mais completa. Após intervenção policial, o passo seguinte foi instalar centros comunitários, infraestruturas de transporte, conexões de água e luz e uma série de melhorias físicas e serviços sociais para integrar os bairros ao restante da cidade. O poder público passou a ocupar não apenas com força policial, mas como apoiador e prestador de serviços. Inspirados em Medellín, os Centros Comunitários da Paz (COMPAZ) de Recife têm gerado resultados com um modelo parecido. Ao longo de quatro anos, foi registrada uma queda de 15% na violência nos territórios onde os equipamentos sociais foram instalados.

Teleféricos de Medellín, conectando as favelas ao resto da cidade. Foto: Wikimedia Commons

Ao analisar essas experiências, é possível concluir que, embora a força policial tenha um papel importante, ela precisa estar aliada a políticas sociais e urbanas. Além disso, um problema a ser superado pelos nossos governantes é a dificuldade em executar e dar continuidade a projetos complexos que ultrapassem seus mandatos. Só assim poderemos olhar com mais esperança para a segurança pública no Brasil.

Texto publicado originalmente na coluna do Caos Planejado na Folha de S. Paulo, em julho de 2026.

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