Não existe “excesso de turismo”
Foto: pxhere

Não existe “excesso de turismo”

Geralmente o turismo é o subproduto de cidades bem-sucedidas que já geram valor real para seus próprios moradores. Algumas cidades turísticas podem ter um problema de dependência desse setor, mas a quantidade de visitantes não é necessariamente ruim.

18 de maio de 2026

Um post de Michael Sweeney no Bluesky perguntando quais cidades sofrem com o excesso de turismo me fez refletir sobre esse conceito. Na publicação, as pessoas citaram pontos turísticos óbvios como Veneza, Nova Orleans ou Las Vegas. Max Dubler, geralmente excelente, afirmou: “Veneza certamente já passou do ponto (hoje é basicamente um parque temático)”.

Na verdade, as pessoas estão interpretando o conceito de forma exatamente oposta à realidade. Os maiores polos globais de atração turística são também cidades com várias outras atividades econômicas, como Londres e Paris. Se uma região possui apenas o turismo como motor, ela frequentemente enfrenta problemas sociais associados à dependência de um único setor com salários baixos, mas então a comparação deveria ser com regiões que não possuem turismo algum — e, sob essa ótica, a situação parece menos grave.

Quais lugares recebem mais turistas?

As métricas mais consistentes sobre o tema contabilizam viajantes internacionais. A Euromonitor publica rankings periodicamente; o mais recente coloca Bangkok em 1º lugar no mundo, com 30 milhões de chegadas em 2025. O restante do Top 10 é composto por Hong Kong, Londres, Macau, Istambul, Dubai, Meca, Antália, Paris e Kuala Lumpur. Dessas dez, sete já são grandes metrópoles por conta própria, uma é um local de peregrinação religiosa e apenas duas possuem uma economia dominada pelo turismo (Macau e Antália).

Em geral, essas cidades dominantes também ofuscam centros menores dentro do mesmo país. A França é o destino nº 1 global, com 102 milhões de chegadas internacionais; a região de Île-de-France (Paris e arredores) mantém uma participação proporcional à sua fatia da população nacional. Já o Reino Unido tem apenas 42 milhões de chegadas, sendo que 23 milhões são em Londres. Antália basicamente divide o turismo da Turquia com Istambul: o país recebe 61 milhões de visitas, sendo 20 milhões em Istambul e 19 milhões em Antália.

O turismo doméstico é mais difícil de medir, mas segue o mesmo padrão, com volumes massivos para grandes cidades como Nova York (que não aparece no Top 10 global porque cruzar uma fronteira europeia é contabilizado, mas cruzar a divisa de um estado norte-americano não). San Francisco teve o turismo como sua maior indústria por muito tempo, antes de ser superada pelo setor de tecnologia neste século.

Descendo na lista por tamanho de cidade, começamos a ver casos como Barcelona, mencionada por Max no mesmo post. Mas Barcelona também não é uma região puramente turística, é um centro industrial e tem uma das maiores áreas metropolitanas da Europa. A Catalunha faz parte da associação “Quatro Motores para a Europa”, junto com Lombardia, Ródano-Alpes e Baden-Württemberg, devido à larga produção de automóveis nessas regiões. Sua indústria é menos conhecida que a riqueza institucional ostensiva de Londres ou Paris e, como toda indústria pesada, não se aglomera no centro da cidade. Por isso, os turistas que visitam Barcelona têm menos chances de vê-la do que aqueles que visitam cidades dominadas por serviços profissionais, mas ela está lá, e a Catalunha permanece como uma co-capital econômica da Espanha junto com Madri.

Barcelona vista de cima. À direita, a região mais conhecida e que atrai mais turistas, com o seu típico xadrez viário. À esquerda, a área industrial junto ao porto, com grandes galpões. Imagem: Google Earth

Não é coincidência que as viagens turísticas geralmente envolvam cidades com economias robustas para além do turismo. O varejo de luxo, os museus, os aparelhos culturais e as famosas praças de Londres, Paris e Nova York foram todos construídos pela sociedade civil local, com a riqueza gerada por suas economias diversificadas — as duas primeiras devido ao papel de capitais dominantes, a última devido à sua riqueza industrial e de serviços. Mesmo descendo alguns degraus no ranking de riqueza, os redutos culturais alternativos são primeiro construídos para os moradores locais antes que os turistas saibam da sua existência. Boates como Berghain e KitKat existem porque Berlim possui uma longa trajetória de contracultura exibicionista.

Em nenhum desses casos há um deslocamento real de funções. Lugares que desenvolvem o turismo porque suas instituições internas são bem-sucedidas aos olhos dos estrangeiros — sejam atrações culturais, paisagens históricas e modernas ou o comércio — continuam sendo grandes cidades com economias internas. O Berghain e o KitKat podem estar lotados de turistas, mas, para além do desdém local de que algo se tornou “cafona”, isso não está expulsando os berlinenses, que têm diversas outras boates à disposição. Em níveis mais altos de prestígio, os museus dificilmente deslocam os residentes — nova-iorquinos frequentam o Met regularmente se desejarem; o local é cheio, mas não a ponto de impedir o acesso dos moradores da cidade.

E quanto aos lugares que vivem apenas do turismo?

Resta a questão das economias verdadeiramente dominadas pelo turismo, aquelas que não são apenas grandes cidades que se tornaram famosas entre os viajantes. Antália é o maior exemplo global; outros incluem Orlando, Las Vegas, Havaí, grande parte do Caribe, Cancún, Phuket, várias ilhas gregas e Alicante. Veneza e Nice são ambas muito turísticas e podem ser inseridas nesta categoria, mas com cuidado: ambas possuem economias industriais em suas regiões metropolitanas, fora dos núcleos históricos ou litorâneos visitados.

Veneza, Itália. Foto: pxhere

Em alguns casos, isso representa uma transição a partir de outra atividade econômica. Veneza era uma cidade de construção naval e comércio que simplesmente não participou da Revolução Industrial moderna, e as pessoas visitam o seu centro renascentista. Phuket produzia estanho e borracha antes de se tornar uma economia turística. Em outros casos, o lugar deve sua existência econômica inteiramente ao turismo, como a Riviera, Las Vegas ou a Flórida, com várias tentativas de diversificação nem sempre bem-sucedidas.

Geralmente, as queixas sobre o “excesso de turismo” se resumem a achar tais lugares “cafonas”. Mas, do ponto de vista econômico, os locais não estão necessariamente sendo prejudicados. Phuket teve o maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da Tailândia no início deste século (não tem mais, o que acredito estar relacionado à pandemia) e continua sendo uma das províncias mais ricas per capita. A Flórida não é a região com as maiores oportunidades nos EUA, mas outras partes do Sul que não possuem o mesmo volume de turismo estão em situação pior.

As regiões que parecem ruins por serem dominadas pelo turismo não têm um problema de “excesso de turismo”, mas sim um problema de escassez de economia em geral.

Michael compara essa situação com a “maldição dos recursos”, a teoria de que a riqueza em recursos naturais é negativa para o desenvolvimento no geral. No entanto, o indicador usual para essa “maldição” — recursos naturais como porcentagem do PIB — acaba embutindo não apenas a abundância de recursos, mas também a pobreza do restante da economia. Afinal, os EUA possuem vasta riqueza natural, o que permitiu seu desenvolvimento com preços de terra e energia mais baixos, atraindo imigrantes até se tornar uma grande economia industrial e tecnológica, sem depender de fato de suas terras agrícolas ou petróleo. Isso apenas não é visto como uma fatia alta do PIB porque o resto da economia alcançou esse patamar.

O mesmo ocorre com o turismo: as regiões que parecem ruins por serem dominadas pelo turismo não têm um problema de “excesso de turismo”, mas sim um problema de escassez de economia em geral.

Artigo originalmente publicado em Pedestrian Observations, em fevereiro de 2026.

Sua ajuda é importante para nossas cidades.
Seja um apoiador do Caos Planejado.

Somos um projeto sem fins lucrativos com o objetivo de trazer o debate qualificado sobre urbanismo e cidades para um público abrangente. Assim, acreditamos que todo conteúdo que produzimos deve ser gratuito e acessível para todos.

Em um momento de crise para publicações que priorizam a qualidade da informação, contamos com a sua ajuda para continuar produzindo conteúdos independentes, livres de vieses políticos ou interesses comerciais.

Gosta do nosso trabalho? Seja um apoiador do Caos Planejado e nos ajude a levar este debate a um número ainda maior de pessoas e a promover cidades mais acessíveis, humanas, diversas e dinâmicas.

Quero apoiar

LEIA TAMBÉM

COMENTÁRIOS

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.