Calçada: o impasse entre a lei e o cotidiano das cidades
Leis no Brasil priorizam o pedestre no espaço viário. Mas, ao eximir a prefeitura de seu papel, uma norma municipal vem impedindo avanços.
O que torcedores e cartolas precisam entender é que novos estádios tendem a trazer mais benefícios financeiros para os times, porque são projetados para aproveitar o seu potencial comercial.
2 de agosto de 2017O Brasil teve uma péssima experiência na construção de estádio nos últimos anos. O país sede da Copa do Mundo de 2014 assistiu a realização de obras com valores muito acima do esperado, assim como o subsídio, direto ou indireto, como crédito fácil, por parte do governo. Esse formato deu origem a investimentos mal acabados, mal localizados e mal dimensionados.
O Estádio Mané Garrincha, no Distrito Federal, foi o mais caro entre os construídos para a Copa, custando cerca de R$1,4 bilhões. A Arena da Amazônia, em Manaus, custou cerca de R$600 milhões, e se tornou símbolo dos “elefantes brancos” — recebendo pouquíssimos jogos desde a realização do evento, o estádio não tem perspectiva nenhuma de lucro. Gestores de grande parte desses estádios lidam com problemas para a sua manutenção, e acabam recorrendo à ajuda de governos municipais, estaduais, e do governo federal.
A construção de estádios serviu como prerrogativa para a expulsão de comunidades e para a criação de regiões inóspitas. Durante a reforma do Maracanã, no Rio de Janeiro, uma aldeia indígena que ocupava um espaço adjacente foi expulsa. Diversas comunidades da região da Arena Pernambuco também foram removidas, especialmente nos bairros de Santa Mônica e Cosme e Damião, e nas cidades de Camaragibe e São Lourenço da Mata. A reforma do Engenhão para as Olimpíadas levou à desapropriação de imóveis no seu entorno. Para a reforma da Arena da Baixada, a Prefeitura de Curitiba gastou cerca de R$ 14,5 milhões com a desapropriação de terrenos ao redor.
Além dos problemas conhecidos, a dimensão dos estádios brasileiros também levou a prejuízos arquitetônicos e urbanísticos. Projetados especificamente para um evento de grande porte, os estádios são, em sua maioria, superdimensionados. Pistas de corrida e áreas gramadas pouco utilizadas foram criadas ao redor dos campos, afastando a torcida e utilizando mal o solo. Estruturas e áreas abertas ao redor dos próprios estádios os tornaram pouco integrados aos bairros onde se encontram. Além disso, os estádios brasileiros se tornaram grandes barreiras no meio urbano, que precisam de áreas especiais para construção ou da readequações de avenidas adjacentes.
Muito diferente do caso brasileiro, o padrão norteamericano de construção de estádios costuma trazer melhores resultados. Nos Estados Unidos, ao invés de clubes, os times costumam ser empresas privadas — que, assim como qualquer outra, buscam lucro e não têm um relacionamento diferenciado com o setor público, como ocorre no Brasil. Nesse contexto, os estádios tendem a ser menores, para diminuir riscos e para gerar menos impacto urbano.
Um exemplo recente é o do novo estádio do San Jose Quakes, Avaya Arena. Enfrentando situação econômica desastrosa, com prejuízo anual de U$5 milhões, o time viu a construção de um novo estádio como uma oportunidade de retomada. Seu estádio anterior, com capacidade para 10 mil torcedores, estava saturado para o público dos jogos, o que também limitava a renda com produtos auxiliares como estandes de comida e estacionamento.
Além disso, o estádio não contava com cadeiras e camarotes especiais, que poderiam gerar receitas significativamente maiores. Um estádio novo também poderia ser usado para eventos especiais, como shows, festivais, e jogos de outras ligas. Ele também ajudaria na retomada da imagem do time, o que auxiliaria na busca por patrocínio.
Assim como acontece em qualquer empreendimento imobiliário, a conta de um novo estádio deve fechar. O estádio deve gerar nova demanda — aumentar o interesse dos torcedores em assistirem os jogos e potencializar os seus serviços auxiliares. De preferência, ele deve ser integrado ao bairro, capturando as externalidades positivas ao redor do empreendimento, e se aproveitando da sua valorização. Esse é o caso do Quakes e o de outros times americanos.
O novo estádio do San Jose Quakes tem capacidade para 18.000 torcedores e uma arquibancada que vai até o limite do gramado, otimizando o uso do terreno, localizado em área relativamente urbana próxima ao aeroporto de San Jose. Em parceria com incorporadoras, adjacente ao estádio seria desenvolvido um novo completo multi-uso chamado Coleman Highline, com escritórios, lojas e edifícios residenciais.
Sabendo que o estádio poderia trazer benefícios para a região, o time comprou 90 mil metros quadrados junto ao terreno onde ele seria construído, para em seguida vender para incorporadoras realizarem o projeto multiuso. Os projetos são mutuamente benéficos: a presença do estádio valoriza o empreendimento ao lado que, por sua vez, é valorizado pelo estádio.
Segundo um estudo publicado pela KPMG, empresa de consultoria e serviços profissionais, mesmo que a performance financeira continue muito ligada aos resultados em campo, a construção e comercialização de um novo estádio pode mudar a dinâmica de um time. Lugares mais confortáveis, com vistas melhores e mais convidativos para a família levam mais gente aos estádios, aumentando as vendas de ingressos. Ao mesmo tempo, os novos estádios apresentam novas formas de obtenção de renda para o clube, como o processo de naming rights de estádios e espaços premium.
Estádios privados tendem a trazer mais benefícios financeiros para os times do que os públicos, em especial por serem mais novos. Estádios antigos têm cada vez mais dificuldade para cumprir com as expectativas dos torcedores de hoje — mesmo que muitos deles tenham dificuldade de se desapegar emocionalmente deles. O que torcedores e cartolas precisam entender é que novos estádios tendem a trazer mais benefícios financeiros para os times, porque são projetados para aproveitar o seu potencial comercial.
Se você se importa com o sucesso da sua equipe, não pode ignorar o fato de que um time precisa ter controle sobre sua receita — e esse é um fator chave para a comercialização do seu estádio.
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Ling, na questão do maracanã, a tal aldeia era utilizada apenas por fumadores de maconha, passo por lá todos os dias e nunca vi um índio sequer. Essa história de índio foi mídia! O espaço da dita aldeia não foi modificado e o referido imóvel está em ruínas como sempre esteve nos últimos 30 anos. A questão da utilização do entorno do Maracanã talvez não seja a ideal, mas a questão ali é a violência. Não se pode andar de bicicleta ou praticar exercícios sem o risco de assaltos, isso afasta a família e só permite a presença dos corajosos.
Oi Rafael, obrigado pelo seu comentário. No entanto, há centenas de relatos e imagens que evidenciam que havia, de fato, uma ocupação indígena naquele local. Tal informação não deve ser menosprezada a partir de observações pontuais como as que você se refere.
E o caso do Allianz Parque. Acha um bom exemplo. Tinha certeza de que iria mencionar e fiquei curioso de saber sua opinião sobre este caso.