O inimigo da cidade
Foto: Google Earth

O inimigo da cidade

Os muros dos condomínios prejudicam o espaço público e destroem a vitalidade nas calçadas.

13 de julho de 2026

O muro é o principal inimigo da cidade. A cidade é um espaço para encontros — e o muro é o símbolo da divisão. Quer dizer: ele é divisão. É verdade que, mesmo com muros, as pessoas podem continuar se encontrando na cidade. Mas não é apenas esse encontro combinado, calculado, que faz com que a vida na cidade compense. É também — e talvez principalmente — o encontro que acontece por acaso que nos diverte e nos civiliza.

Os muros dos grandes condomínios de São Paulo enclausuram grande parte da cidade em guetos, privando seus moradores do melhor que a experiência urbana pode oferecer: o encontro aleatório, casual, que acontece quando, por exemplo, duas pessoas se conhecem porque seus cachorros se simpatizam na calçada; quando alguém comenta sobre o tempo no balcão da padaria; quando um curioso se junta a um grupo que joga xadrez em mesa pública, ao ar livre. O grande condomínio murado suga essa energia do espaço urbano. As calçadas no seu entorno normalmente são desertas. Apesar de dentro da cidade, a rotina dos seus moradores está limitada a um estilo de subúrbio.

Leia mais: Podcast #82 | Segurança urbana: a solução é construir muros?

Com uma estrutura com dezenas de itens de lazer muitas vezes pouco aproveitados, grande parte dos condomínios-clube de São Paulo está inchada. Enquanto isso, a vida em seu entorno é raquítica. Meu sonho é que, para corrigir essa anomalia, a legislação de São Paulo estimule uma pequena cirurgia: que esses empreendimentos possam vender ou alugar lotes subutilizados dentro dos seus condomínios. O que hoje é um espaço sem uso, excludente, poderia com o tempo ter uma vida mais variada, mais interessante: com comércios e cafés que atendam os próprios moradores desses condomínios; com residências a preços mais baratos do que a média atual do bairro em cima dessas mesmas lojas e cafés.

Os muros dos grandes condomínios de São Paulo enclausuram grande parte da cidade em guetos, privando seus moradores do melhor que a experiência urbana pode oferecer.

O próprio condomínio poderia definir as regras para ocupação desses lotes: altura permitida das edificações, tipos de uso etc., o que evitaria que a consequência fosse negativa para os seus moradores. É para ser positiva. Não é para ser também uma obrigação; seria apenas um estímulo, uma possibilidade. Em alguns lugares, por motivos diferentes, talvez não haja opção, e muros continuarão existindo. Mas não podemos permitir que eles continuem existindo onde há alternativas melhores: quando, mantendo a segurança dos seus moradores, seja viável uma solução que ofereça a eles conveniência, lazer, a renda desses lotes e — quem sabe? — uma possível valorização dos próprios imóveis desses condomínios.

Rua em Moema, São Paulo, com condomínios murados. Foto: Google Earth

A cidade ganharia muito. Quarteirões inteiros que são hoje perigosos e monótonos poderiam ser mais divertidos e mais seguros. Um café poderia ser ponto de encontro dos moradores, com mesas a céu aberto; uma pizzaria poderia atender à região; o chaveiro poderia montar um ponto mais perto dos seus clientes; um pet shop poderia tosar os cachorros do quarteirão; e esses serviços poderiam ser desfrutados a pé por quem mora no entorno.

Leia mais: Um imposto sobre os muros dos condomínios?

Um empreendedor local poderia fazer um predinho de dois andares, com loja embaixo, com pequenos apartamentos ou escritórios para locação; alguém poderia fazer uma casa com portas e janelas para a rua. Essa nova oferta imobiliária — ao mesmo tempo que deve valorizar os apartamentos dos condomínios que antes eram murados — provavelmente diminuiria o preço de locação para esse novo comércio.

Nas últimas duas ou três décadas, grande parte do espaço urbano das cidades brasileiras se enclausurou — se fechou em condomínios (de prédios ou casas) gigantes e murados. Podemos talvez dizer que construímos “unidades habitacionais” — mas não podemos defender que assim estamos construindo cidades melhores. É muito difícil medir com precisão as consequências sociais desse isolamento: provavelmente são graves. Vivemos hoje num mundo que está em vários sentidos separado, divido — e construímos no Brasil muitos espaços que reforçam essa divisão. É hora de pensarmos num futuro com menos muros — ou vamos nos condenar a passar a eternidade em subúrbios brigando nas redes sociais.

Com pequenas alterações, este artigo foi originalmente publicado na Veja São Paulo (2020) e faz parte do livro “Pequenas Tentações — Cidades, arquitetura e outros passeios”, de Eduardo Andrade de Carvalho.

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