A favela é parte da cidade
Nós somos a história. Prazer, Morro da Providência.
O princípio do código de trânsito é proteger o menor e prezar pela vida do pedestre, mas nos acidentes noticiados o foco é o comportamento de quem estava andando a pé.
14 de setembro de 2026Em uma semana no Maio Amarelo deste ano eu vi mais uma notícia de brutalidade no trânsito. Mais um motorista em alta velocidade, numa caminhonete, que atropelou uma pessoa a pé. Infelizmente, todo dia são inúmeros casos em nossas cidades (escrevi sobre a carnificina em março).
Dessa vez a tragédia foi em Caruaru (Pernambuco). Nas imagens veiculadas na notícia, vê-se a moça correndo na calçada e, ao desviar para a beira da pista, é violentamente atingida pela caminhonete, veloz e desgovernada.
Como de praxe, o motorista fugiu sem prestar socorro. Pelo horário do ocorrido (5h19) e pelo jeito de dirigir, pode-se supor que o motorista estava alcoolizado, voltando de balada.
Letícia Ferreira estava praticando atividade física e seu destino cruzou com o do motorista imprudente e fujão. Não bastasse todo o contexto de violência e imprudência, chamou atenção, na reportagem ao vivo do G1, a declaração do “especialista em trânsito”.
Ele começou falando da conduta esperada do pedestre ao usar a rua: “a orientação é ir sempre pelo bordo, preferencialmente no sentido contrário, para que possa visualizar os veículos. Se for à noite, utilizar roupas claras, evitar utilizar algum tipo de fone de ouvido, música alta, para que não perca essa condição sensorial de entender o que está acontecendo no trânsito ao redor desse pedestre.”
Leia mais: Proteger o pedestre não é inviabilizar o andar a pé
Um discurso lamentável que se reproduz na sociedade, mesmo entre repórteres, “especialistas” e servidores de órgãos de trânsito. Tivemos o caso da gerente de ação educativa do Detran/DF que disse em reportagem que “o principal responsável pela segurança do pedestre é ele mesmo”.
Não é raro, nas notícias de atropelamentos e mortes, afirmação quanto a atravessar fora da faixa ou passarela, pedalar fora da ciclovia e caminhar na pista. Em geral não se mencionam as condições da via: se o limite de velocidade é adequado, se há iluminação, se existe caminho seguro e confortável para pedestres e ciclistas.
Vale lembrar o princípio do código de trânsito: o maior protege o menor, o motorizado protege o não motorizado e todos prezam pela vida do pedestre. Está lá no artigo 29, parágrafo 2°, um mandamento desconhecido ou ignorado na pressa insana que predomina em ruas, avenidas e rodovias pelo país.
Por curiosidade, pesquisei o local onde a moça de 29 anos foi atropelada e arremessada pelo motorista fujão. Com a ajuda do Google Street View, notei que as condições para os pedestres na Av. Agamenon Magalhães são ruins. A calçada virou estacionamento: vagas demarcadas ocupam toda a frente das lojas. E mais adiante, no sentido em que a moça corria, a calçada se estreita.

Imagino que, por reflexo e por saber que a pista dos carros é melhor para correr, Letícia desviou caminho. Nem notou que o motorista vinha em sua direção. Correndo no mesmo sentido, ou no sentido contrário (como recomendou o “especialista em trânsito”), teria pouca chance de evitar o choque contra o carro veloz e desgovernado.
Imagino a reação dos pais, dos parentes, ao ouvir comentários quanto à conduta da jovem, recomendações quanto a correr no sentido contrário e evitar fones de ouvido, como se esses tivessem sido os fatores preponderantes do acidente, em vez da velocidade excessiva e da falta de cuidado por parte do motorista.
O balanço daquela semana foi triste. Em uma avenida da região metropolitana de Curitiba, dia 9 de maio, um socorrista do Samu foi atropelado enquanto atendia vítimas do trânsito, o motorista fugiu. No mesmo dia, em Palmas (TO), um senhor de 70 anos foi atropelado e morto enquanto andava de bicicleta, o motorista fugiu do local (suspeita-se que seja um médico). No dia 10 de maio, uma menina de 14 anos, que andava de bicicleta, foi atropelada e ficou em estado grave em Caracaraí (Roraima) por um motorista sem habilitação que fugiu sem prestar socorro. No dia 13 de maio, mais um caso de motorista que atropelou, matou e fugiu sem prestar socorro: em Goiânia um rapaz afegão de 19 anos pedalava quando foi atropelado por motorista de caminhonete alcoolizado. O jovem estava internado em estado grave e não resistiu aos ferimentos.
Leia mais: A culpa é dos pedestres
Não dá para aceitar as atrocidades diárias. Não se pode admitir que se continue jogando a responsabilidade pela segurança nos mais vulneráveis. Precisamos mudar o cenário sangrento nas cidades do país em que todo ano mais de 35 mil pessoas perdem a vida no trânsito e outras milhares ficam com sequelas físicas e psicológicas para o resto da vida. É urgente reforçar a fiscalização, melhorar a infraestrutura e sensibilizar a população, incluindo motoristas, gestores públicos, jornalistas e especialistas em trânsito.
Artigo publicado originalmente no site Brasília para Pessoas, em maio de 2026.
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