Menos carros elétricos, mais ônibus e bicicletas elétricos
Foto: Wikimedia Commons

Menos carros elétricos, mais ônibus e bicicletas elétricos

A grande contribuição dos carros elétricos para as nossas cidades é a eliminação da poluição do ar e a drástica redução da poluição sonora. Mas é só isso.

13 de agosto de 2026

A grande contribuição dos carros elétricos para as nossas cidades é a eliminação da poluição do ar e a drástica redução da poluição sonora. Mas é, no fundo, só isso. Essa tecnologia continua sendo um carro que ocupa muito espaço, que trafega em alta velocidade, que congestiona, que influencia negativamente as políticas de uso e ocupação do solo, etc. É uma solução melhor que o carro movido a combustível fóssil? É, sem dúvida! Mas está muito longe de ser a solução ótima. Se o carro elétrico não é o Santo Graal das nossas cidades, por que estamos tão obcecados por ele?

Um pouco porque em todo o mundo governos centrais e locais subsidiam o carro elétrico: redução dos impostos no momento da aquisição do veículo, oferta de carregamento de baterias gratuito, oferta de estacionamento público gratuito ou permissão do tráfego desses veículos nas faixas de ônibus são algumas das medidas pró carro elétrico.

Essas medidas, especialmente as duas últimas, não podem ser defendidas como benéficas para a mobilidade urbana, muito pelo contrário, subsidiar estacionamento e circulação de carros (elétricos ou não) nas cidades são medidas completamente contrárias ao seu bom funcionamento.

Chamar de política de mobilidade urbana, ou “mobilidade urbana sustentável”, um conjunto de subsídios estatais (diretos e indiretos) ao carro elétrico é um completo disparate. Isso é política de compra de carro, ponto final. É a mais clara força de um lobby. Se querem subsidiar soluções elétricas de mobilidade urbana, comecem pelas bicicletas e pelos ônibus elétricos.

As bicicletas elétricas são sim revolucionárias. As vendas desses veículos têm aumentado muito no mundo todo — e espera-se que cresçam ainda mais — bem como os serviços de compartilhamento de bicicletas. 

Vendas de bicicletas elétricas na Europa de 2006 a 2020. Em 2023, o número ainda chegou a 5,1 milhões. Fonte: Confederation of the European Bicycle Industry – CONEBI

A grande vantagem da bicicleta elétrica é que ela se adapta melhor que uma bicicleta normal ao nosso contexto rodoviário urbano com poucas ciclovias, onde temos de percorrer grandes distâncias e enfrentar subidas nos deslocamentos casa–trabalho.

As bicicletas elétricas são mais rápidas, trazem mais segurança ao ciclista que pedala no meio do trânsito, pois têm mais arrancada, exigindo menos esforço. Ela tem autonomia e velocidade média semelhantes ao carro, mas ocupa pouco espaço, não polui, é fácil de estacionar e faz bem à saúde. Elas estão se tornando cada vez mais acessíveis para compra e, claro, sua operação é muito barata, diferente do carro. Talvez o grande inconveniente seja o estacionamento: elas são ainda muito visadas por ladrões, por isso convêm, quando se chega ao destino, estacioná-las em local protegido. O recente avanço das tecnologias de trava de segurança têm ajudado a mitigar esse problema.

Leia mais: Por que devemos abraçar as bicicletas elétricas

No Brasil, as e-bikes estão começando a cair no gosto da população, e entre 2016 e 2024 as bicicletas elétricas em circulação saltaram de 7.600 para 284.000. Os sistemas de compartilhamento de bicicletas e patinetes elétricos também vieram ajudar, pois mostraram às prefeituras a verdadeira praticidade da micromobilidade, tornando ainda mais evidente a necessidade de investimento em ciclovias e estacionamento para esses pequenos veículos.

Há ainda uma vantagem da bicicleta elétrica que é muitas vezes ignorada: ela garante mobilidade na terceira idade. É um veículo que deve ser considerado nas políticas públicas para o idoso.


Se querem subsidiar soluções elétricas de mobilidade urbana, comecem pelas bicicletas e pelos ônibus elétricos.


Semelhante às bicicletas elétricas, os ônibus elétricos também podem beneficiar a cidade. Um estudo de 2019 estimou que os ônibus elétricos na China economizavam mais diesel do que todos os carros elétricos combinados a nível mundial! Shenzhen foi a primeira cidade do mundo a eletrificar totalmente a sua frota de ônibus, em 2017. Com isso, a cidade evita a emissão de 194.000 toneladas de CO2 por ano. Os custos combinados de energia e manutenção são cerca de 44% menores do que os de ônibus a diesel durante o ciclo de vida, e os usuários relataram um nível maior de satisfação com o serviço pelo fato de que as viagens são mais silenciosas e não há cheiro de fumaça nas estações.

Os ônibus elétricos podem receber microcarregamentos nos pontos de ônibus e, como estão em circulação constate, causam mais impacto na redução da poluição local que os carros elétricos, que, como os outros carros, estão estacionados 90% do tempo. Ou seja, se o estado brasileiro quer uma frota de veículos elétricos, o melhor seria subsidiar a compra de bicicletas e ônibus elétricos e não de carros elétricos.

Ônibus elétrico em São Paulo, que hoje tem a maior frota de ônibus elétricos do Brasil (cerca de 1.800). Foto: Prefeitura de São Paulo

O motor elétrico não é perfeito. O descarte das baterias e a produção da energia elétrica (em alguns países) causam elevado impacto ambiental. Mas ele é melhor que o motor a diesel ou a gasolina. Devemos perguntar qual a melhor forma de utilização dessa tecnologia, para que traga mais benefícios para a mobilidade urbana nas nossas cidades.

Leia mais: Ônibus elétricos podem tornar nossas cidades mais sustentáveis

Trocar carros não elétricos por elétricos não é, certamente, a melhor forma. Como referido no texto, essa tecnologia tem muito mais potencial que isso, e usá-la (ou pior, subsidiá-la!) somente como um simples substituto do carro não elétrico é um grande desperdício de recursos.

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