A favela é parte da cidade
Foto: Wikimedia Commons

A favela é parte da cidade

Nós somos a história. Prazer, Morro da Providência.

17 de agosto de 2026

“Eu vi minha mãe me jogar dentro do guarda-roupa trancado. Era o lugar mais seguro, quando a chuva levou os telhados. E dizia: não se preocupa, chuva é normal.” — trecho da música “Ooorra”, de Emicida

Quando falamos sobre o surgimento das favelas, o primeiro pensamento costuma ir direto para a ocupação do Morro da Providência pelos soldados vindos da Guerra de Canudos, em 1897. Mas a história do morro não começou ali. Ela começou muito antes, quando o território já desempenhava um papel estratégico na formação da cidade do Rio de Janeiro. Localizado na região portuária, o Morro da Providência acompanhou a expansão urbana da antiga capital desde os séculos 17 e 18, tornando-se parte da estrutura econômica, territorial e social que moldou a Cidade Maravilhosa. O morro já fazia parte da formação territorial do Rio de Janeiro muito antes de ser reconhecido como a primeira favela do Brasil.

Fotografia de Augusto Malta do chamado Morro da Favella, atual Morro da Providência, registrada a partir da linha férrea central.
Fonte: AGCRJ — Augusto Malta / Coleção Prefeitura do Distrito Federal, PDF-AM-PC_1963. Acervo histórico da Providência (Galeria Providência).

O Morro da Providência não foi apenas ocupado para a urbanização da cidade, ele foi literalmente cortado, desmontado, para fornecer pedra à construção do Rio de Janeiro. Com o crescimento da cidade a partir de 1840, a demanda por pedra aumentou para obras públicas e privadas, e começou ali a exploração da Pedreira da Providência. 

Não é exagero dizer que o morro está enraizado em cada passo do Rio de Janeiro, foi ele quem forneceu parte da matéria-prima do desenho urbano da própria cidade. Mas tudo tem um preço: em 1968, na região da Pedra Lisa, a exploração das pedreiras provocou um desabamento que matou aproximadamente 50 pessoas.

Registro fotográfico de matéria do Correio da Manhã sobre o deslizamento da pedreira no Morro da Providência.
Fonte: Arquivo Nacional — Correio da Manhã, Dossiê 00261. Acervo histórico da Providência (Galeria Providência).

Voltando aos dias atuais, em pleno século 21, é possível observar que, mesmo tendo participado da construção da Cidade Maravilhosa, a favela segue sendo tratada como um problema. Eu digo o contrário: somos parte da solução.

Leia mais: Podcast #110 | Favela: quatro décadas de transformações no Rio de Janeiro

Para contar essa história, preciso me apresentar. Sou Fernando Pereira, arquiteto e urbanista, fundador do Instituto Arquitetos da Favela, e nasci e cresci no Morro da Providência, a primeira favela do Brasil, que ano que vem completa 130 anos. É a partir desse lugar, e da experiência de quem viveu o que vou descrever aqui, que escrevo estas palavras.

Vamos começar pela minha casa.

Tenho lembranças maravilhosas da casa onde cresci, uma casa construída com muita luta pela minha família. É nela que estão guardadas algumas das melhores memórias da minha infância. Lembro de estar soltando pipa na laje ou, quando não podíamos sair de casa por conta das operações policiais, subir em cima do botijão de gás, na janela da cozinha, para tentar colocar a pipa no céu. Lembro de brincar com o meu cachorro, de jogar bola na praça onde hoje existe o teleférico. Sim, ali tínhamos uma quadra, e ela era o nosso principal eixo de encontro na favela. Era onde nos reuníamos, fazíamos amizades e construíamos lembranças que levamos para a vida toda.

Também me lembro dos cômodos da casa, do cheiro, da essência e de toda a história que ela carrega até hoje.

Porém, nem tudo são lembranças boas.

Carrego relatos da minha mãe e da minha tia sobre o dia em que o muro da laje cedeu e alguns familiares caíram no mato, de uma altura de aproximadamente 10 metros. Também nunca esqueço dos dias de chuva, quando o esgoto invadia nossa casa. Não havia outra alternativa: precisávamos entrar na vala, debaixo de chuva e misturados ao esgoto, para tentar amenizar o problema e impedir que a situação ficasse ainda pior.

Chegar em casa também fazia parte dessa história. A subida era pela Ladeira do Barroso ou pelo Mato dos Ingleses, justamente o mesmo lugar onde meus familiares sofreram a queda. Descíamos e subíamos pelo mato para jogar bola no sparta (Associação Esportiva do Morro da Providência) ou simplesmente para cortar caminho.

Hoje percebo que esse caminho carrega história. Lembro do meu falecido avô, pai da minha mãe, nos levando junto com o meu pai para jogar bola. Entre o mato e a quadra, colocaram uma bica para bebermos água, um desses improvisos da favela, essência que esses caminhos carregam. Também passávamos diariamente pela casa onde Machado de Assis morou, e são fatos como esse que nos potencializam como favelados e também como técnicos, porque aprendemos a enxergar o território de uma forma que nenhum livro consegue ensinar e nenhum gestor do “asfalto” consegue entender.

Se existe um som que marcou minha infância e minha adolescência, esse som foi o dos tiros e dos fogos. Quando eles começavam, já sabíamos o que viria pela frente. O medo tomava conta de todos, porque era o sinal de que uma operação policial estava iniciando. Sabíamos que provavelmente ficaríamos sem energia elétrica e que nossa rotina seria interrompida. Mas há outros sons da favela que nos alegram, como lembranças das crianças rindo no meio da rua, ou dos nossos avós nos chamando.

Também existem cheiros que fazem parte das minhas lembranças. O cheiro da comida da vizinha se espalhando pelas vielas, mostrando que, mesmo diante das dificuldades, a favela sempre foi um lugar de acolhimento, convivência e vida. Porém, também o cheiro do mofo das casas, que causam problemas de saúde pois não têm iluminação nem ventilação natural.

Crescer no Morro da Providência significava viver entre duas realidades. De um lado, uma comunidade cheia de vida, afeto, brincadeiras e pertencimento. Do outro, a ausência histórica do poder público, a violência e as dificuldades do nosso dia a dia.

Minha rotina no Morro da Providência dependia de uma única pergunta: hoje tem operação? Se não tivesse, podíamos viver uma infância praticamente normal. Íamos para a escola, parávamos na quadra para jogar bola, soltar pipa ou simplesmente brincávamos na rua. Mas, se tivesse operação, não podíamos sair de casa. Muitas vezes ficávamos sem luz, a escola era interrompida e a infância precisava esperar.

Crescer no Morro da Providência significava viver entre duas realidades. De um lado, uma comunidade cheia de vida, afeto, brincadeiras e pertencimento. Do outro, a ausência histórica do poder público, a violência e as dificuldades que faziam parte do nosso dia a dia. Foi nesse território, entre desafios e esperanças, que comecei a construir não apenas minha história, mas também o olhar que mais tarde me levaria à me formar na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo.

Morro da Providência. Foto: Instituto Arquitetos da Favela

Quando há alguma intervenção do poder público nas favelas, nós que vivenciamos a transformação urbana sem poder opinar ou sequer conhecer o verdadeiro projeto ficamos às escuras, sem saber se seremos removidos ou se ao menos receberemos condições mínimas para sobreviver. Como sempre falo: o projeto não pode chegar pronto. Ele precisa ser construído com quem vivencia o território no dia a dia. Geralmente somos vistos como uma doença, um problema urbano. Mas mesmo sem o essencial para viver, não desistimos de sonhar, porque sonhar é, talvez, um dos únicos direitos que podemos exercer.

Você viveria com a sua família nestas condições?

A imagem abaixo mostra a realidade da família Conceição há 50 anos, meio século sem o básico para sobreviver. Durante esse tempo, na mesma cidade, houve diversos investimentos em bairros mais ricos, em espaços públicos, estações de metrô, VLT e grandes obras, mas famílias como a da Conceição seguem vivendo sem o essencial. Hoje, mais de 1,2 milhão de famílias vivem sem banheiro no Brasil; destas, cerca de 300 mil estão em áreas urbanas.

Casa da família Conceição. Fotos: Instituto Arquitetos da Favela

O papel da arquitetura, urbanismo e da política pública

A arquitetura e o urbanismo nunca foram neutros diante da favela. Historicamente, foram usados contra ela nos discursos de higienização do início do século 20, nas remoções em massa das décadas de 1960 e 1970, e ainda hoje em projetos bilionários como o Porto Maravilha, decididos sem ouvir quem vive no território. A mesma pedra que ergueu a Cidade Maravilhosa é a que continua faltando, em forma de moradia digna, para quem construiu essa cidade com as próprias mãos.

Por isso, repito: o projeto não pode chegar pronto. A política pública só cumpre seu papel quando é construída com quem vivencia o território no dia a dia, e não entregue de cima para baixo, como se a favela fosse um problema a ser resolvido por quem nunca precisou sobreviver nela. Arquitetura e urbanismo têm o poder de fazer o caminho inverso do que fizeram por mais de um século: em vez de instrumentos de remoção e apagamento, podem ser instrumentos de escuta, permanência e dignidade.

Leia mais: Favela e potência: narrativa exagerada ou uma história para contar?

Somos parte da solução

Somos a história do Rio de Janeiro escrita em pedra, em suor e em resistência, muito antes de qualquer selo turístico da Cidade Maravilhosa. E seguimos sendo, hoje, quem sonha mesmo sem o essencial, porque é assim que vamos construir o futuro.

É para transformar esse sonho em projeto e em política pública construída com quem vive a favela, que nasceu o Seminário Arquitetura da Favela e Urbanismo Social. Junte-se a nós na 2ª edição, nos dias 4 e 5 de setembro, no Rio de Janeiro. Um espaço para debater moradia digna, segurança pública, educação, meio ambiente, cultura, empreendedorismo, oportunidade, sustentabilidade e pertencimento, construído por quem entende de favela porque vive nela, ao lado do poder público e do setor privado. Porque a favela não é o problema. A favela é parte da solução.

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