Urbanização na China | Hong Kong – Parte 1

Aterrissei no Aeroporto de Hong Kong à noite e peguei um carro para me deslocar até a ilha de Hong Kong propriamente dita. Com a ideia de que o território é um grande centro financeiro, me surpreendi ao passar por um porto gigantesco, que depois eu descobriria ser o sexto mais movimentado do mundo, mais de seis vezes o porto de Santos. Rapidamente passo por um conjunto de cerca de vinte edifícios de mais de quarenta andares, uma parede de luzes acesas à noite, aparentemente construídos em uma área de aterro, próxima à zona portuária. Ao entrar na ilha de Hong Kong, passo primeiro por ruas cheias de pedestres, em seguida, por ruas tortuosas subindo o morro em meio aos arranha-céus. A imagem impactante da chegada em Hong Kong já fala muito sobre sua urbanização.

 

Colonização inglesa

Para entender a cidade atual de Hong Kong é necessário fazer um breve aparado da sua história no contexto chinês. A área portuária estratégica de Hong Kong foi entregue aos ingleses no final da primeira Guerra do Ópio em 1842, um dos principais marcos do Tratado de Nanking junto com a abertura de cinco portos, incluindo Shanghai. Em 1860, ao final da segunda Guerra do Ópio e com a assinatura do Tratado de Pequim, o Reino Unido recebeu a posse perpétua de Kowloon, a península lado continental do atual território que conhecemos como Hong Kong. Em 1898, decorrente do desejo militar de expandir o território de Hong Kong para defesa e se aproveitando da fraqueza chinesa após a sua derrota na Primeira Guerra Sino-Japonesa, os ingleses também conseguem negociar a posse dos chamados “Novos Territórios”, extensão da área de Kowloon continente adentro, por um período de 99 anos. Atualmente os Novos Territórios representam mais de 80% da área de Hong Kong e abrigam cerca de metade da sua população. A Cidade Murada de Kowloon, que acabou se tornando uma das experiências urbanísticas mais marcantes da história da humanidade, permaneceria como uma enclave chinesa dentro do território britânico.

Bairro Central à noite, onde as inclinações não impedem o alto trânsito de pedestres.

Foi em 19 de dezembro de 1984 que a então Primeira Ministra britânica Margaret Thatcher e o Premier chinês Zhao Ziyang assinaram a Declaração Conjunta Sino-Britânica, na qual a Inglaterra se comprometeria a não apenas devolver os Novos Territórios ao final do contrato mas também Kowloon e a ilha de Hong Kong propriamente dita. A China, que iniciou as negociações com o reformista Deng Xiaoping, começaria o chamado “Um País, Dois Sistemas”, prometendo não implementar o seu sistema político-econômico socialista em Hong Kong por um período mínimo de 50 anos após a devolução. Assim, no ano de 1997, respeitando o prazo de 99 anos, Hong Kong foi devolvida à China e se tornou um Território Especial, relativamente independente do resto da China.

O longo período conflituoso teve impactos significativos na dinâmica populacional de Hong Kong. No início do século XX, após a anexação dos Novos Territórios, o movimentado porto de Hong Kong, aliado ao intenso comércio de ópio, fez dobrar a população de cerca de 400 mil habitantes para 800 mil. Com a invasão japonesa da Manchúria em 1931, a migração chinesa em massa levou a população de Hong Kong a dobrar de cerca de 800 mil para 1,6 milhões de pessoas. Em seguida, com a invasão japonesa de Hong Kong em 1941, a população então diminuiria de 1,6 milhões a um pouco mais de meio milhão em um período de dois anos.

Diversidade de tipologias arquitetônicas em Kowloon.

No livro “The Making of Hong Kong” os autores Shelton, Karakiewicz e Kvan atribuem a arquitetura de Hong Kong desta época à influência das legislações implementadas em Singapura por Sir Stamford Raffles, representante do Império Britânico e considerado fundador de Singapura. As casas era uma mistura da arquitetura inglesa com a tipologia oriental natural, a chamada “shop-house”, cortiços de uso misto com comércio no térreo e residência no andar de cima, onde as legislações limitavam a altura dos edifícios a uma ou uma vez e meia a largura da sua rua. A limitação do espaço gerava intensa aglomeração de gente morando nestas pequenas casas: apesar das baixas alturas, Hong Kong já era conhecida por sua densidade, onde a coabitação era natural e o consumo de metros quadrados por habitante era mínimo.

Após a Segunda Guerra, no entanto, a população de Hong Kong cresceu ainda mais rápido do que ela tinha diminuído, dado o início da revolução comunista de Mao Zedong na China continental. Para se ter uma ideia, historiadores relatam que uma das políticas radicais implementadas do final dos anos 40 na China foi o extermínio em massa de milhões de proprietários locadores de imóveis e agricultores ricos, seguido de uma das maiores destruições de imóveis da história da humanidade, entre 30% e 40% de todas as casas. Nos quinze anos subsequentes a 1951, a população de Hong Kong aumentou meio milhão de habitantes a cada cinco anos.

Vista de Kowloon do topo da ICC Tower.

Levantamento feito em 1972 mostra que, na década de 1950, a altura média dos edifícios de Hong Kong era de três ou quatro andares. O intenso fluxo de imigrantes aliado a uma política urbana restritiva resultou em uma série de assentamentos irregulares — semelhante às favelas — pela ilha de Hong Kong, desde novas construções a pessoas morando na cobertura de edifícios existentes. 50 mil pessoas por quilômetro quadrado era uma densidade “moderada”, 200 mil algo normal e 400 mil algo que ocorria, mas nenhum absurdo, e em 1957 cerca de metade da população morava em cubículos. Foi neste contexto que Hong Kong iniciou um massivo esforço de construção de moradia pública, assim como uma reestruturação total da sua política de urbanização até então, contemplando um projeto massivo de realocação de moradias informais.

O primeiro formato arquitetônico utilizado para estes edifícios públicos era de grandes blocos habitacionais com a planta em forma de “H”, normalmente integrados com a calçada. Em termos de uso, inicialmente a proposta era replicar blocos exclusivamente habitacionais como o resto do mundo estava fazendo na época, mas com o tempo o governo foi adaptando às necessidades, permitindo que as atividades ocupassem os espaços que fizessem mais sentido: comércio no térreo, até mesmo usos industriais e, nas coberturas, escolas e usos institucionais. Seria uma combinação pragmática do conceito modernista de blocos planejados e isolados com o conceito anterior do “shop-house” e sem os grandes afastamentos entre os prédios. No final dos anos 50 os edifícios ficaram ainda maiores, e desta vez mais alinhados com os conceitos modernistas internacionais: grandes blocos exclusivamente residenciais de até vinte andares começavam a se espalhar pela cidade. Novas regulamentações permitiram edifícios de nove andares sem necessidade de elevadores, e índices de aproveitamento chegando a vinte vezes a área do terreno, um dos mais altos do mundo na época. Isso não significou uma diminuição da atividade na rua: pelo contrário, a densidade ausente de recuos intensificou o uso comercial no térreo e o trânsito de pedestres pela cidade.

Edifícios residenciais antigos em Kowloon, onde a coabitação é comum.
 

Nova urbanização

A intensidade de construção na época levou à revisão da regulamentação, em 1962, para índices de aproveitamento menores e a introdução de uma nova tipologia arquitetônica que dominaria a forma construída de Hong Kong até hoje: ao invés de grandes blocos edificados, a legislação incentivaria o formato “base-torre”, onde seria possível construir estruturas mais altas mas esbeltas e recuadas umas das outras, ainda que mantendo um embasamento comercial que já tinha se estabelecido como uma necessidade em Hong Kong. A forma hoje se multiplica por toda cidade e vai gradualmente aumentando, ao ponto do embasamento comercial chegar a mais de seis andares, transformando as pequenas lojas em grandes shoppings.

Foto da região central de Hong Kong, a partir de uma das passarelas na Connaught Road.

Com blocos próximos entre si e em vias estreitas, a nova urbanização de Hong Kong criou uma das maiores redes de passarelas de pedestres ligando as edificações por cima das calçadas. Em urbanismo, um dos mapas utilizados para analisar a forma urbana é o chamado “figura-fundo”, onde as edificações são representadas em preto e o espaço público em branco. Em inglês este mapa se chama “figure-ground”, o que levou os pesquisadores Frampton, Solomon e Wong a publicarem o livro “Cities Without Ground”, ou “Cidades Sem Térreo” (ou, no caso do mapa, sem “fundo”), sobre a forma urbana de Hong Kong. Ou seja, a área edificada é tão densa e tão conectada que, em muitos casos, o mapa de figura-fundo simplesmente não consegue representar o espaço aberto das ruas e calçadas. O livro também mostra como é possível atravessar bairros inteiros a pé sem nunca tocar no chão, a calçada do níveo térreo, mas apenas circulando nos espaços e passarelas públicas dos edifícios. Isso se torna evidente ao passarmos pelas escadas rolantes que sobem de Central para Mid-Levels, o maior sistema de escadas rolantes cobertas do mundo, obra que, com elevação de 135 metros e 800 metros de comprimento, fez parte do planejamento do sistema de transportes da cidade.

“Do Central Piers é possível caminhar até Mid-Levels através do sistema de escadas rolantes mais longo do mundo, com 800 metros de extensão vertical e 135 metros de altura.” (Fonte: livro Cities Without Ground)

Apesar da ilha de Hong Kong ser mais conhecida pela densidade de arranha-céus, as densidades demográficas mais altas estão no lado continental de Kowloon, que possui, em média, 43.000 hab/km² e chegando a valores como 59.000 hab/km² em Kwun Tong. Região com edifícios mais antigos e renda per capita menor, Kowloon representa melhor a aglomeração dos blocos edificados dos anos 50 e as primeiras versões do formato base-torre que exigiam menos recuos para a torre. Com ampla mistura de tipologias edificadas, Kowloon é um espaço vibrante durante todo o dia, onde até mesmo indústrias continuam operando no formato vertical, em edifícios de vinte andares com pés direitos mais altos. Lá também tive a oportunidade de subir no International Commerce Centre, edifício mais alto de Hong Kong e nono mais alto do mundo, com 118 andares. Do topo, os já altos edifícios de 30 ou 40 de Kowloon pareciam nanicos.

Densidade se tornou parte da natureza intrínseca de Hong Kong, que não mudou tanto o número de habitantes por quilômetro quadrado mas mudou sua forma de ocupação, utilizando o solo de forma cada vez mais intensa. Apesar da cidade ainda ter hoje um baixo consumo de área por habitante, cerca de 17m², na década de 50 70% das moradias tinham menos de 11m², sendo que a média de habitantes por moradia era de 4,7. Fato curioso é que, devido a restrições geográficas e o desejo de preservar uma grande área verde, apenas 24% da área de Hong Kong é urbanizada, 7% para uso residencial, sendo a maior parte restante de preservação natural.

Orla recentemente reformada: International Finance Centre (IFC) à esquerda, com 88 andares. Do outro lado da baía, em Kowloon, o ICC, com 118 andares.

Talvez esta decisão parta do princípio de que, assim como na China e apesar da colônia britânica anterior, o governo local também é dono de todas as terras, funcionando como uma espécie de gestor territorial que arrenda terrenos para incorporadores. Assim, ao invés de utilizar a área preservada atual, a escassez da terra leva o governo de Hong Kong a expandir seu território ao longo da baía com uma série de aterros. Essa atividade iniciou no século 19 e, até hoje, se estima que cerca 35% da área urbanizada e 6% da sua área total encontram-se em áreas de aterro. Por serem obras caras e lentas, os aterros não tem conseguido equilibrar a oferta e a demanda por espaço no território de Hong Kong. Segundo o índice de acessibilidade à moradia do Demographia, nos últimos oito anos, Hong Kong mantém a liderança como a cidade mais cara do mundo em relação à renda, mais de duas vezes mais cara que Londres em relação à renda.

Esta forma de gestão territorial recebe críticas de diferentes pontos de vista: alguns defendem uma maior ocupação das áreas de preservação para dar espaço à oferta imobiliária, outros criticam o impacto na vida marinha, como na recente controvérsia do megaprojeto de aterrar mais 17km² na ilha artificial de Lantau, que teria condições de abrigar mais 1,1 milhões de pessoas nas próximas décadas. Como medida paliativa, a cidade também continua construindo moradias públicas a preços subsidiados, com a previsão de que 60% das unidades lançadas sejam públicas, aumentando a proporção de 30% do total. No entanto, a alta demanda aliada à oferta restrita leva hoje a um período de espera em torno de cinco anos e três meses para conseguir uma unidade, o mais longo em dezoito anos. Jovens de 18 anos aplicam para estas unidades para garantir sua vaga no futuro, assim como um número significativo de jovens pós-graduados que cada vez mais têm dificuldades de se sustentar na cidade. Entre os mais pobres é comum a coabitação, sendo comum o consumo de apenas 5m² por habitante.

The Pacifica, mais um novo conjunto de edifícios em Kowloon.

É importante destacar que não apenas a oferta restritiva leva a estas condições, e que a alta demanda por espaço continua crescendo por conta de movimentos migratórios. A solução de moradia para Hong Kong não é simples dada a demanda por espaço: a fórmula “Um País, Dois Sistemas” gera um desequilíbrio quando justamente o sistema que mais atrai moradores tem apenas 7 milhões de habitantes perante uma China de 1,3 bilhões. Desde que o território foi devolvido em 1997, estima-se que cerca de um milhão de chineses migraram para Hong Kong em busca de oportunidades melhores. Outros 300 mil moradores são migrantes das Filipinas e da Indonésia que, muitas vezes, mesmo possuindo diplomas de ensino superior em seus países, chegam em Hong Kong para trabalhar em profissões que não exigem tal qualificação, principalmente como empregados domésticos. Migração continua correspondendo a cerca de 70% do crescimento populacional de Hong Kong, contribuindo para o desafio de providenciar espaço para todos.


Série Especial | Urbanização na China

#1 – Introdução

#2 – Pequim

#3 – Shanghai

#4 – Chengdu

#5 – Hong Kong – Parte 1

#6 – Hong Kong – Parte 2

#7 – Shenzhen

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