A claustrofóbica Hong Kong: prisão ou salvação?

Fonte imagem: http://abcnews.go.com/blogs/headlines/2013/02/shocking-photos-of-cramped-hong-kong-apartments/

Apartamentos claustrofóbicos em Hong Kong

Recentemente a dura realidade da pobreza de Hong Kong foi exposta pelos fotógrafos Michael Wolf e Benny Lam em duas séries diferentes. Michael Wolf retrata o lado externo: a verticalidade, repetição e superdensidade dos arranha-céus do atual território especial chinês. Já Benny Lam captura o interior destes apartamentos, que já pequenos são divididos em unidades menores para diminuição de custos e aumento da densidade. Ambas séries chocaram o mundo ao mostrar o espaço claustrofóbico e pobre em uma cidade que normalmente ostenta riqueza.

De sites de arquitetura e design como Phaidon e ArchDaily a coberturas importantes de notícias como ABC News e Business Insider choveram artigos, protestos e comentários denunciando os precários direitos à moradia existentes na cidade causados pelo sistema capitalista, evidenciando a crescente desigualdade e os perigos da aglomeração humana. Algumas reportagens comparam as unidades com celas de prisão, usando a palavra “jaula” para descrevê-las. Realmente, desavisados que abrem estas fotos confortavelmente tomando seu café da manhã tem um duro choque de realidade. No entanto, acho que a indignação deve ser colocado em perspectiva.

Hong Kong foi “devolvida” à China em 1997 e hoje é uma região especial no meio do regime do Partido Comunista: muito além de maior liberdade econômica que o resto do país (mesmo com a abertura comercial nas últimas décadas Hong Kong está anos luz à frente do capitalismo de estado chinês), a ilha é um ambiente onde os direitos humanos, a liberdade de expressão, a propriedade (não há desapropriações em massa como na China ou mesmo no Brasil) são respeitados, com uma democracia sólida e uma economia verdadeiramente de mercado. Além disso, tem um PIB per capita nominal de $34,049 contra $6,094 do resto da China, sendo que alguns sites relatam $3,912, e na zona rural este valor cai para U$1,200.

No que é chamada de “China continental”, cidadãos sofrem restrições migratórias e precisam de vistos especiais para sair da própria cidade onde moram, além de terem sites como Facebook, Twitter e Google restritos pelo governo (chineses certamente não terão permissão para ler esta postagem). Além disso, eles sofrem multas pesadas se tiverem mais que um filho, experimento que resultou em uma proporção de 122 homens para cada 100 mulheres: devido à preferência cultural do país, meninas são abortadas para que o casal não pague as multas estabelecidas pelo governo. As crianças, então, muitas vezes optam por trabalhar para sobreviver, quando não são escolhidas para “servir à nação”, não para o exército, mas para treinamentos forçados de ginástica olímpica. O nível dos absurdos do governo chinês faz a nossa corrupção e ineficiência parecer respeitável: até 2001, homosexualismo segundo o Ministério de Saúde chinês era considerado uma doença mental. Além disso, para quem mora em cidades respira o ar mais poluído do mundo (na comparação São Paulo seria uma cidade chinesa “limpa”), e mesmo assim é uma melhoria de qualidade de vida comparado ao campo. É fácil de ver que a ditadura permanece forte na China, sendo constantemente denunciada por figuras já internacionais como o arquiteto e artista plástico Ai Weiwei.

A discrepância nas instituições e na qualidade de vida entre Hong Kong e o resto do país causa uma migração interna ilegal anual de cerca de 54,000 pessoas na direção da ilha, na maioria pobres vindos da precária zona rural, sem saneamento básico, com taxas de mortalidade infantil seis vezes mais altas que nas zonas urbanas chinesas, que ainda estão aquém de Hong Kong. Estas milhares  de pessoas correm riscos altíssimos cruzando fronteiras proibidas para chegar em Hong Kong, mesmo que isso signifique morar em um minúsculo apartamento.

Fonte imagem: http://likearock.com.br/michael-wolf-registra-a-claustrofobia-da-arquitetura-de-hong-kong/

Verticalização das paredes de concreto de Hong Kong

 

A causa destes micro-apartamentos finalmente se torna visível: muita gente com poucos recursos quer morar em Hong Kong, que tem pouquíssimo espaço. Por motivos geográficos e regulatórios (a cidade ocupa apenas 6,8% da sua área para habitação), as únicas maneiras de permitir que todos possam morar ali é através da verticalização e da diminuição do tamanho dos apartamentos. O incrível de tudo isso é que, mesmo assim, a demanda é tão grande que os preços de imóveis são absurdamente altos: “se você não está disposto a pagar por este preço, há outras centenas que estão à procura”. Aparentemente é o preço que as pessoas estão dispostas a pagar para fugir do autoritarismo chinês.

Ao chegarem na ilha suas condições de vida são sim deploráveis, não só comparados à média de Hong Kong, mas mesmo comparado à média brasileira. Mas se a pequena ilha proibisse esta verticalização ou a vida em micro apartamentos – o que os artigos sobre as galerias fotográficas sempre sugerem – ela nunca conseguiria receber estes pobres migrantes, já que os padrões mínimos seriam muito além do que estes novos moradores conseguiriam pagar. Estas pessoas simplesmente permaneceriam na prisão mais espaçosa do mundo, a zona rural chinesa.

Uma das alternativas sendo estudadas para mitigar estes efeitos é a implementação de limites aos preços dos aluguéis. No entanto, caso assim fosse, novos apartamentos não apareceriam com este valor reduzido: eles ora simplesmente deixariam de existir dada a limitação de preço ou a fila para conseguir um ia ser tão grande que muitos simplesmente morariam nas ruas. Controle de preços gera escassez, seja no Plano Cruzado ou no mercado imobiliário: Jane Jacobs também percebeu este efeito em “The Nature of Economies“.

O julgamento a partir de imagens soltas, sem conhecer o contexto, sempre pode levar a conclusões perigosas. Ao termos contato com visuais chocantes esquecemos das atrocidades da ditadura chinesa. Esquecemos da nossa própria realidade: a do déficit habitacional, das favelas e da exclusão do pobre através das regulamentações elitistas que limitam a oferta de moradia e estabelecem padrões de qualidade inatingíveis. Não percebemos a parte positiva que as imagens mostram: o acesso à produtos industrializados e máquinas (chaleiras elétricas, as tradicionais panelas de arroz, ventiladores e geladeiras), acesso a informação e comunicação (computadores, celulares, televisões, livros, calculadoras e revistas), infraestrutura (água, energia, gás) e comida que não precisa ser caçada ou colhida pelo próprio consumidor – facilidades que elas não tinham no lugar de onde maioria delas vieram.

Infelizmente não há alternativa mágica para, de noite para o dia, solucionar a pobreza de centenas de milhões de camponeses. Nenhum cidadão, em qualquer lugar do mundo, se sentiria confortável em sua cidade ao saber que, nos próximos 5 anos, 300 mil chineses pobres chegariam para morar próximo ao seu bairro (alguns dos próprios moradores de Hong Kong já protestam contra a onda migratória, felizmente com pouco resultado). Também é raro encontrar aqueles que, com todos os problemas sociais que as sociedades enfrentam, apoiam aumentos de impostos para construir moradias mais dignas para imigrantes, mesmo que de outras cidades. E quando apartamentos são enfim produzidos para atender estes pobres humanos aqueles que os produzem são criticados e punidos.

Assim, como contraponto, fiz minha própria galeria. Mostro o resto da China, de onde estes moradores vieram, cabendo ao leitor decidir o que acredita ser mais humano: viver em um micro-apartamento em Hong Kong ou permanecer na espaçosa ditadura. Atenção: algumas destas imagens podem ser perturbadoras.

Beijing: cidade com ar mais poluído teve aumento de 5 vezes na
incidência de câncer de pulmão. [Fonte: The Economist]
Criança de apenas 6 anos, órfã com HIV vive sozinha em condições precárias em Guangxi
[Fonte:  ChinaSmack]
Fonte Li Enlam em sua casa em Yanhmiao, um vilarejo na província
de Henan. “Comemos de alguma forma, mas nunca é suficiente”,
ela conta. [Fonte: NYTimes]
Após governo chinês demolir a maior favela da China, o pequeno
Yan Maowen agora vive em um chiqueiro. [Fonte: Ministry of Tofu]
Cheng Zhenbo, de apenas 12 anos, vive sozinho e faz sua comida com
lenha que ele mesmo corta usando uma faca de bambu.
[Fonte: ChinaSmack]
Trabalho infantil na zona rural chinesa é uma prática comum. Aqui
um exemplo em um vilarejo próximo à Guyan.
Políticas do governo chinês para produzir atletas olímpicos resultam
em treinamento torturosos desde a infância. [Fonte: DailyMail]
Imagem mostra studio de Ai Weiwei, um dos artistas mais influentes do
mundo conteporâneo e dissidente do regime, sendo demolida pelo governo.
A exposição dele está no MIS-SP até 14 de abril [Fonte: Designboom]
Wu Run, uma garota de 6 anos de idade que vive em meio ao lixo.
[Fonte: China Daily]
  1. Pedro

    Ótimo artigo. Também acrescentaria que, apesar de tudo, Hong Kong continua com um IDH extremamente elevado. Maior até que o da Dinamarca, por exemplo!

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