Por que “Casablanca” é o melhor filme sobre cidades
Filme Casablanca. Imagem: Domínio Público

Por que “Casablanca” é o melhor filme sobre cidades

O clássico nos lembra que as cidades são construídas para servir às pessoas, e não o contrário.

10 de setembro de 2026

O filme “Casablanca”, de 1942, é um dos mais aclamados da história, e não é à toa. A história de amor perdido, heroísmo e sacrifício prende do começo ao fim e traz atuações que marcaram as carreiras de Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Paul Henreid e Claude Rains. Indicado a oito Oscars, “Casablanca” levou três, entre eles o de Melhor Filme e o de Melhor Diretor, para Michael Curtiz. Suas falas icônicas — “Um brinde a você, garota”, “Toque outra vez, Sam” e “Prendam os suspeitos de sempre” — são tão usadas até hoje que é fácil esquecer de onde vieram.

Mas eu acrescentaria outra distinção a “Casablanca”: é o melhor filme sobre cidades. E com isso quero dizer que ele exemplifica o que há de mais importante nas cidades: as pessoas, e não os edifícios ou as avenidas.

Todo mundo vai ao Rick’s

Para quem conhece minimamente o filme, “Casablanca” pode parecer, à primeira vista, uma escolha estranha para a admiração de um urbanista. Diferentemente de “A Princesa e o Plebeu” ou “Manhattan”, “Casablanca” não é uma carta de amor à cidade que lhe dá nome. Na verdade, o filme nem foi filmado no Marrocos, mas em Los Angeles, em um estúdio da Warner Brothers. Além disso, ao longo do filme se vê muito pouco da cidade de Casablanca, nem mesmo de uma versão hollywoodiana. Isso porque a maior parte da história se passa dentro de um espaço relativamente pequeno, o Rick’s Café, um “botequim” de propriedade do personagem de Bogart, que também o administra.

O filme gira em torno das diferentes pessoas que chegaram a Casablanca, a maioria vinda de toda uma Europa devastada pela guerra e por razões muito distintas. Alguns são nazistas, outros são heróis da resistência. Alguns são canalhas, outros são nobres e decentes. Quase todos têm falhas de um tipo ou de outro, mas alguns têm salvação. No Rick’s, todas essas pessoas diferentes se encontram e se confrontam, e é desse contato muito humano que emergem as histórias do filme, tanto as grandes quanto as pequenas. É disso também que se trata uma cidade — as histórias acontecem por causa do contato, da colaboração e até do confronto dentro de um espaço determinado.

Cena de “Casablanca” no Rick’s Café. Imagem: Domínio Público

Deixe-me recorrer a outro filme — um mais recente — para mostrar o que quero dizer. Em “O Show de Truman”, o personagem principal (vivido por Jim Carrey) é a estrela involuntária de um reality show em que todo o seu mundo foi construído para ele. Tudo em sua vida, até o clima, é completamente controlado. Para mim, isso soa como o inferno — e é exatamente o oposto do que a vida realmente é. Mas se “O Show de Truman” é como o inferno, então “Casablanca” é como o purgatório: todos estão esperando para ir ao próximo lugar. Essa é a realidade da vida.

É também a realidade do que significa viver de fato em uma cidade. Não há nada pior para se sonhar ou perseguir no planejamento de uma cidade do que a ideia de utopia. Utopia significa que todo mundo tem que seguir um conjunto de regras. A história de “Casablanca” é interessante porque há o choque de pessoas muito diferentes no mesmo lugar, e elas não foram parar ali por serem obedientes, comportadas ou sequer simpáticas. Do mesmo modo, não se trata de um congresso de enfermeiros ou de professores de literatura, em que todos estão reunidos pelo mesmo motivo.

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Ao contrário, há pessoas com motivações políticas — nazistas e membros da resistência — e há jogadores de todo tipo que não estão interessados em nada além de sobreviver. Mas é essa fusão de gente com origens diferentes e motivações variadas que torna uma cidade interessante, e é o que faz de “Casablanca” um filme verdadeiramente urbano.

Um brinde a você

Como cheguei a esse ponto de vista? Ao longo da minha carreira como urbanista, morei em muitas cidades — de Paris a Nova York, de Bangkok a San Salvador, de Sanaa a Chandigarh — e por isso tive ampla oportunidade de ver o que funciona e o que não funciona no desenho urbano. E o que descobri é que uma cidade funciona quando seu desenho serve às pessoas que vivem nela — e não o contrário.

Não é muito difícil enxergar as maneiras pelas quais o excesso de planejamento das cidades pode gerar problemas. Primeiro, a própria localização de uma cidade deveria, idealmente, surgir de forma orgânica. Arquitetos sonham em construir cidades novas, mas se você constrói uma cidade nova no meio do nada, onde não mora ninguém, quem vai querer ser o primeiro morador?

As cidades universitárias costumam oferecer bons exemplos das armadilhas do excesso de planejamento. A cidade de Champaign, no estado de Illinois, por exemplo, surgiu em grande medida porque o que hoje é a Universidade de Illinois foi instalada ali na década de 1860. Hoje, a universidade é de longe a maior empregadora da cidade, e boa parte de sua população desaparece no fim de cada ano letivo. Isso não significa que a universidade não seja uma comunidade vibrante, mas ela é formada sobretudo por gente de passagem, que não está tão comprometida com o sucesso da cidade em si.

A diversidade também é um aspecto importante de qualquer cidade. Uso a palavra diversidade não em um sentido político ou identitário, mas no da rica variedade de perfis que a humanidade oferece. Não é muito desejável mudar-se para uma cidade privada, em que todo mundo faz apenas uma coisa, porque ali não haverá uma mistura de pessoas com experiências de vida diferentes. Isso, de novo, pode ser um problema em cidades universitárias como Champaign, assim como em cidades construídas em torno de uma única indústria.

Para que uma cidade realmente prospere, é preciso que ela tenha diferentes tipos de pessoas interagindo de diferentes maneiras, o que a torna um lugar mais criativo, inovador e interessante. Era isso que o Rick’s Café oferecia em “Casablanca”. Refugiados sabiam, por exemplo, que podiam ir até lá para trabalhar e até para tentar conseguir vistos para os Estados Unidos. Em resumo, era um lugar aonde se ia para resolver problemas.

É essa fusão de gente com origens diferentes e motivações variadas que torna uma cidade interessante.

A Casablanca do filme pode ser um exemplo perfeito de como uma cidade deveria funcionar, mas também há paralelos no mundo real. Muitas cidades ao longo da história, como a Viena do século 19, tiveram fortes culturas de cafés nas ruas. Mas isso existiu também na nossa época. Quando morei em Paris, em meados do século 20, a maioria das pessoas não tinha telefone, então, quando você queria mandar um recado para alguém, deixava esse recado para o seu amigo no café, com um garçom. Repassar essas mensagens era parte normal do trabalho de um garçom. Dessa forma, então, o café era de fato a central de comunicação de uma comunidade.

Café em Paris nos anos 1960. Foto: Nationaal Archief

Nossas vidas hoje, no entanto, são muito mais isoladas do que eram naquela época. Essa é uma das grandes razões pelas quais considero ótimo o estímulo aos “terceiros lugares” — os espaços de convívio que não são nem a casa nem o trabalho —, como o que a Starbucks começou a fazer recentemente. Algumas cidades estão indo além. Quando visitei Porto Alegre, em 2024, fiquei encantado ao ver que algumas fábricas antigas tinham sido convertidas em instalações com muitos espaços comunitários: escritórios, salas de aula, bares, restaurantes, tudo no mesmo prédio.

Isso multiplica o poder do que um ponto de encontro pode ser, porque dá às pessoas os espaços que elas querem, os espaços de que precisam para se encontrar, conversar e colaborar com os outros de forma mais efetiva. Embora muita gente tenha dito que a pandemia de COVID-19 seria o fim das cidades, todos nós percebemos rapidamente que nada poderia substituir o encontro com as pessoas e o contato presencial espontâneo.

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As reuniões no Zoom são simplesmente estruturadas e planejadas demais: se você quer encontrar novas ideias, se conectar com os outros por uma tela de computador não é o veículo para isso. Uma sala de reunião online amais poderia ocupar o lugar dos negócios que se fechavam no Rick’s Café. Precisamos da informalidade e da aleatoriedade da presença física, e esses são aspectos inerentes às cidades bem-sucedidas.

“Casablanca” não é apenas uma bela história; é uma lição de que uma cidade tem a ver com as pessoas e de que tudo o que se constrói em torno delas — metrôs, redes de esgoto, arranha-céus — está ali para servi-las, e não o contrário. Os planejadores urbanos deveriam tirar essa lição do filme e não tentar encaixar as pessoas à força em alguma visão abstrata do que uma cidade deve ser. Porque quando os planejadores urbanos colocam as pessoas e suas necessidades em primeiro lugar, bem, esse pode ser o começo de uma bela amizade.

Artigo originalmente publicado em Discourse, em abril de 2025.

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