Utilizamos cookies para oferecer melhor experiência, melhorar o desempenho, analisar como você interage em
nosso site e personalizar o conteúdo. Saiba mais em Política de
privacidade e conduta.
Atualmente já não há muita discussão sobre o fato de que os governos locais – prefeituras, em bom brasileiro – são as entidades governamentais mais aptas para responder às demandas da população. Tanto a nível político quanto técnico, estão mais próximos dos cidadãos, entendem melhor o contexto, têm condições de identificar melhor as soluções para os problemas enfrentados, e, no fim das contas, pagam o preço político caso as coisas não vão bem.
E embora haja uma forte discussão pela descentralização fiscal, temos um arranjo institucional e de governança relativamente descentralizado no Brasil. Muitas vezes tomamos como algo natural esse grau de autonomia (entre responsabilidades e possibilidades) que as nossas prefeituras dispõem. Isso significa prefeituras com mandato eleitoral próprio, competência para arrecadar impostos como o IPTU e o ISS, acesso a transferências constitucionais como o Fundo de Participação dos Municípios (FPM) e, em muitos casos, capacidade de financiar investimentos por meio de empréstimos junto a bancos de desenvolvimento – um arcabouço institucional que a maioria dos países subsaarianos (e, iria ainda mais longe, globalmente) ainda está longe de ter.
Na grande parte dos países que trabalho na África Subsaariana, apesar de existir, a figura do “governo local” muitas vezes não passa de figurativa (com perdão pelo trocadilho): ou a instituição que seria equivalente à prefeitura não existe (a autarquia, em termos técnicos), ou não goza dos mínimos elementos para que possam funcionar de maneira adequada. A grande maioria não celebra eleições a nível local (os administradores são designados a partir do governo central), e muitas não têm nem a possibilidade – e capacidade – de arrecadar receitas.
Avenida dos Combatentes da Liberdade da Pátria no centro de Bissau (Guiné Bissau). Foto: Wikimedia Commons
Nesses casos, é o governo nacional que fica a cargo de muitos dos serviços que se esperaria dos governos locais. Isso inclui desde o planejamento territorial e urbanístico, até a conceitualização, a execução e a operação de projetos de água, saneamento e outros serviços públicos. Como se pode imaginar, além da distância física e contextual, que gera problemas de alinhamento de prioridades e soluções, a própria operação de sistemas dentro de um território local a partir de uma entidade nacional acaba criando dificuldades frequentes de governança.
Processos de descentralização são, porém, complexos e politicamente muito difíceis de implementar, e obviamente não há uma solução única. O que se aplica a qualquer contexto é o fato é que, sem recursos a nível local, uma autarquia não funciona de maneira minimamente autônoma e com a capacidade para operar, independente do nível de responsabilidades que se aplique. Por isso, é pelas receitas municipais que começa o trabalho que tenho apoiado em países desse contexto.
As receitas municipais abrangem todas as fontes de recursos, sejam eles externos (transferências intergovernamentais, receitas patrimoniais, entre outros) ou internos (impostos, taxas, tarifas, multas, entre outros).O foco do meu trabalho tende a ser as receitas endógenas (internas) e, em especial, o imposto sobre o solo e a propriedade, reconhecimento globalmente como um imposto local por natureza, a principal fonte de receita dos governos locais na maioria dos países com estruturas governamentais mais desenvolvidas.
Obviamente, quando se trata de recursos, qualquer iniciativa enfrenta muitas barreiras, mas nesse caso o empecilho não é tanto uma possível rejeição popular, mas o que se chama de “arranjo político”. O “arranjo político” (deixo em aspas pois a tradução não captura realmente a expressão original em inglês – political settlement) é um conceito sobre distribuição real de poder entre grupos sociais e políticos que molda como instituições funcionam na prática. Surgiu nos anos 1970 mas foi realmente difundido por Mushtaq Khan nos últimos 20 anos, e se resume da seguinte forma, na minha humilde interpretação (provavelmente exageradamente simplista e totalmente passível de contestação): é muito difícil mexer com um sistema em que as principais partes envolvidas já se beneficiam de uma certa maneira.
Em termos práticos: por que um prefeito (ou administrador) de uma cidade pequena, em um contexto onde o marco regulatório é praticamente inexistente e a capacidade institucional limitada, vai cobrar mais impostos se ele já se beneficia tirando a sua comissão, e a população não reclama (tanto) pois paga quase nada?
Achar os pontos de entrada para quebrar essa dinâmica, como pode-se imaginar, é bastante difícil. Em um mundo ideal, o trabalho seria de convencer através do fato de que, ao se arrecadar mais recursos, com a prefeitura fazendo um bom trabalho, a população veria os benefícios advindo dos seus impostos, e o prefeito/administrador poderia seguir com seu cargo por aprovação popular. No mundo real, é quase que o famoso cenário do ovo e da galinha…
Discutir descentralização é discutir a própria capacidade de um Estado existir onde a vida acontece: no território, na rua, no bairro, na cidade.
Na prática, o que tenho visto funcionar não é uma grande reforma, mas pequenas vitórias acumuladas – aquele trabalho incremental, paciente, perseverante e de longo prazo. Um projeto piloto de cadastro que demonstra que a arrecadação pode crescer sem impopularidade; uma transferência intergovernamental condicionada a metas de receita própria, que cria um incentivo externo para mudar o comportamento interno; ou simplesmente um prefeito que, por razões próprias, decide que quer deixar um legado diferente. Não é elegante, e não escala facilmente. Mas em contextos onde o “arranjo político” é o principal obstáculo, a mudança raramente vem de cima, ela começa pelas margens.
Para quem está acostumado com o debate urbano brasileiro, onde as prefeituras dispõem de instrumentos como o IPTU progressivo e operações urbanas consorciadas, pode parecer distante esse cenário de escassez institucional quase total. Mas vale a reflexão: mesmo no Brasil, com todo o arcabouço legal disponível, quantos municípios realmente utilizam o imposto sobre a propriedade como ferramenta de desenvolvimento urbano, e não apenas como fonte de arrecadação mínima? O problema do arranjo político, afinal, não é exclusividade do continente africano.
Há, contudo, lições concretas que a experiência africana pode oferecer ao Brasil. A primeira é sobre a relação entre receita própria e autonomia real: municípios que dependem quase exclusivamente de transferências federais acabam, na prática, respondendo mais ao governo central do que aos seus próprios cidadãos – o mesmo problema estrutural do arranjo político, apenas em grau diferente. A segunda é sobre condicionalidade: transferências intergovernamentais atreladas a metas de desempenho fiscal, como as que têm sido testadas em contextos africanos com apoio do Banco Mundial e de outros parceiros, poderiam inspirar mecanismos similares no Brasil para estimular municípios que historicamente subutilizam sua base tributária. A terceira, talvez a mais sutil, é sobre o valor da transparência fiscal como ferramenta de prestação de contas (accountability): quando o cidadão consegue rastrear o que paga e o que recebe em troca, o arranjo político começa, pouco a pouco, a perder terreno.
No fim das contas, discutir descentralização na África Subsaariana ou qualquer outro contexto é discutir a própria capacidade de um Estado existir onde a vida acontece: no território, na rua, no bairro, na cidade. Sem governos locais minimamente autônomos, com recursos próprios e capacidade de decisão, qualquer promessa de desenvolvimento urbano vira um exercício distante, conduzido por instituições que não vivem o cotidiano que tentam regular. E é justamente aí que mora o desafio: fortalecer o nível local não é apenas uma questão técnica, mas uma disputa política sobre quem ganha, quem perde e quem controla o território.
Em muitos países, isso significa começar pequeno, encontrar brechas, construir confiança e mostrar que o ciclo virtuoso é possível: arrecadar melhor, investir melhor, gerar resultados e, aos poucos, mudar a relação entre Estado e cidadão. É um processo lento, cheio de tensões, mas indispensável para qualquer país que queira cidades que funcionem de verdade.
Sua ajuda é importante para nossas cidades. Seja um apoiador do Caos Planejado.
Somos um projeto sem fins lucrativos com o objetivo de trazer o debate qualificado sobre
urbanismo e cidades para um público abrangente. Assim, acreditamos que todo conteúdo que
produzimos deve ser gratuito e acessível para todos.
Em um momento de crise para publicações que priorizam a qualidade da informação, contamos com
a sua ajuda para continuar produzindo conteúdos independentes, livres de vieses políticos ou
interesses comerciais.
Gosta do nosso trabalho? Seja um apoiador do Caos Planejado e nos ajude a levar este debate a
um número ainda maior de pessoas e a promover cidades mais acessíveis, humanas, diversas e
dinâmicas.
Os críticos diziam que liberar mais potencial construtivo geraria apartamentos grandes e caros. Mas uma pesquisa em Mumbai, uma das cidades mais populosas do mundo, descobriu o contrário.
As megacidades da China cresceram com um impressionante desenvolvimento imobiliário e investimento em infraestrutura. Hoje, elas também apresentam algumas fragilidades.
Por que as cidades brasileiras têm tantos imóveis ociosos? Os motivos são heterogêneos, e para buscar soluções é preciso entender a complexidade do problema.
A segurança pública é um dos maiores problemas urbanos do Brasil hoje. Além do policiamento, precisamos de uma política urbana e social para os territórios controlados pelo crime.
COMENTÁRIOS