A descentralização administrativa na África e o contexto brasileiro
Na África Subsaariana, descentralizar não é uma pauta técnica; é uma disputa sobre quem controla o território e os recursos que o sustentam.
Como a rua espanhola, com sua densidade, diversidade, espaços públicos e fachadas ativas, começou a desaparecer.
21 de setembro de 2026Ao chegar a A Coruña, no norte da Espanha, a primeira coisa que se nota não é o azul cristalino do Atlântico quebrando na faixa de areia da Playa del Orzán. Também não são as incontáveis galerías, as fileiras de varandas brancas fechadas com vidro que dão a A Coruña o apelido de “Cidade de Cristal”. Nem mesmo o farol romano de quase 2 mil anos que ainda alerta os navios sobre os rochedos ao redor da cidade. O que impressiona quem visita pela primeira vez essa cidade média de 250 mil habitantes é a altura de tudo.
O veículo espanhol elDiario.es analisou mais de 12 milhões de edifícios em cidades espanholas e descobriu que A Coruña tem a maior altura média entre as cidades do país. Você pode estar imaginando uma Manhattan no Golfo Ártabro, mas a cidade supera a segunda mais alta — Barcelona — com uma altura média de pouco mais de cinco andares.

A altura pode enganar: ela não é necessariamente um indicador de densidade urbana, e às vezes pode indicar o oposto. Isso vale especialmente para o desenvolvimento urbano da Espanha no pós-guerra.
A Espanha tem a merecida fama de abrigar alguns dos espaços urbanos mais agradáveis do mundo: bairros densos e de uso misto, onde o comércio no térreo acompanha ruas caminháveis e praças que convidam a parar para um café ou uma taça de vinho. Essa paisagem urbana é típica na Espanha, onde 65% da população vive em apartamentos, mais que o dobro da taxa americana, de 26%, e atrás apenas da Coreia do Sul, com 74%, segundo a OCDE.
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Na minha visita recente, passei por cerca de uma dúzia de cidades de tamanhos variados, entre elas A Coruña, aproveitando o prazer de andar a pé tendo para onde ir e onde sentar. Mas em A Coruña, caminhando pela orla deslumbrante depois de visitar o farol romano, encontrei um bairro que não oferecia nem uma coisa nem outra.
O bairro Adormideras foi construído na década de 1980 como parte de uma estratégia deliberada para evitar que as famílias de classe média se mudassem para municípios suburbanos. A ideia do arquiteto modernista galego Andrés Fernández-Albalat foi projetar um bairro que trouxesse o subúrbio para dentro da cidade. O bairro é formado por uma série de edifícios residenciais curvilíneos de 8 a 9 andares, cercados por espaços abertos, quadras esportivas e estacionamentos. O térreo de cada edifício era usado como depósito e, em sua maioria, foi fechado com paredes ou transformado em garagem, criando muros de blocos de concreto no lugar de fachadas ativas.
Embora Adormideras fique na península em forma de martelo onde está o movimentado centro de A Coruña, o transporte público municipal passou anos sem ligar o bairro ao resto da cidade. Quatro décadas depois, ainda há poucos destinos aos quais se possa ir a pé no bairro além de um mercado municipal, que passou por uma reforma de 2 milhões de euros com fundos europeus em 2022, mas só abre das 9h às 15h. Como reclamou um morador, ainda não dá para comprar um rolo de papel higiênico numa terça-feira à tarde. Nesse “país dos bares e cafés”, é preciso subir a ladeira até o bairro de Monte Alto, mais animado, para encontrar um lugar para sentar e tomar alguma coisa. A atração mais interessante de Adormideras — e talvez um sinal do seu isolamento — é a praia de nudismo que fica ali perto.

O contraste entre o centro de A Coruña, anterior à guerra, e a Adormideras do pós-guerra traz uma revelação: apartamentos não tornam um bairro necessariamente urbano, assim como prédios altos não o tornam necessariamente denso. Um urbanismo bem-sucedido exige ruas conectadas, mistura de usos e vida pública ativa. Se Adormideras parece uma aberração em relação ao centro tradicional, ela não é um caso isolado: a Espanha tem um longo histórico de construir exatamente esse tipo de bairro.
Embora o urbanismo espanhol remonte a milhares de anos, aos comerciantes fenícios e às legiões romanas, boa parte do que hoje entendemos como a paisagem urbana espanhola clássica tem caráter medieval, com uma forte marca islâmica no sul. Com a industrialização da Espanha no século 19, muitas cidades demoliram suas fortificações medievais e construíram ensanches (expansões) para acomodar uma classe média emergente. O bairro do Eixample, em Barcelona, com sua malha viária ortogonal e seus quarteirões de uso misto edificados no perímetro, é o mais famoso, mas ensanches em malha ortogonal surgiram por todo o país, de Madri a Bilbao.
Ildefons Cerdà projetou os quarteirões abertos e arejados do Eixample para aliviar a superlotação insalubre do Bairro Gótico, mas partes do Eixample acabaram ficando mais densas que a cidade medieval. Hoje, Barcelona é uma das cidades mais densas da Espanha — cerca de 2,5X mais densa que A Coruña, embora os prédios de A Coruña sejam, em média, mais altos. Como eu disse, a altura pode enganar.
Após a Guerra Civil Espanhola, o país atravessou um período de isolamento econômico (a chamada autarquia) e empobrecimento sob a ditadura de Franco. Em 1959, como parte de um programa de liberalização econômica, começou uma nova onda de industrialização, concentrada principalmente em Madri, Barcelona e no País Basco. A mecanização agrícola desencadeou uma migração em massa de milhões de camponeses para as áreas urbanas entre 1950 e 1975, com cerca de 3,1 milhões se mudando para as cidades só na década de 1960.
O regime respondeu a essa nova demanda por moradia urbana do mesmo jeito que os governos de todos os lugares estavam fazendo: com torres modernistas monolíticas. Assim como no conceito de “torres no parque”, esses polígonos de vivienda (conjuntos habitacionais) costumavam ser cercados por espaços abertos, desconectados da malha viária e do entorno, e não tinham o comércio no térreo que caracterizava o desenvolvimento urbano espanhol histórico.
Diferente do modernismo americano, a maior parte desse desenvolvimento aconteceu em anéis ao redor dos centros históricos das cidades espanholas. Enquanto o desenvolvimento urbano nos Estados Unidos demoliu “cortiços” densos no centro das cidades, os polígonos espanhóis muitas vezes substituíram assentamentos informais na periferia, erguidos às pressas para abrigar os migrantes pobres. Os primeiros empreendimentos, como o conjunto Antonio Rueda, em Valência, não passavam de quatro ou cinco andares, porque não havia dinheiro para elevadores. Mas, com a decolagem do “milagre” econômico espanhol na década de 1960, os prédios ficaram mais altos, e os polígonos passaram a atingir com frequência sete ou oito andares.

Com a desaceleração do êxodo rural no fim da década de 1970 e a descentralização das competências de planejamento após a morte de Franco, os novos edifícios foram perdendo altura ao longo do tempo. Na década de 1980, o espraiamento de casas unifamiliares no estilo americano chegou a enclaves como Sant Cugat del Vallès, nos arredores de Barcelona, e Pozuelo, nos arredores de Madri, embora tenha permanecido, em grande parte, um produto de luxo. Um estudo sobre Barcelona, Madri, Valência e Saragoça constatou que, embora a área urbanizada tenha crescido cerca de 350% entre 1950 e 2015, mais de 95% desse crescimento foi horizontal e periférico, e não um adensamento vertical dos centros históricos.
Mesmo o crescimento vertical que ocorreu foi modesto: os autores do estudo concluíram que “o adensamento não esteve ligado a uma grande expansão de edifícios altos, que ainda são raros nas quatro cidades”. O espraiamento urbano da década de 1990 continuou na forma de mais blocos de apartamentos e casas geminadas, com a construção de baixa altura predominando nos anos anteriores até o estouro da bolha imobiliária, em 2008.
Na década de 1990, enquanto boa parte do mundo abandonava os princípios do planejamento modernista de meados do século 20, o edifício multifamiliar construído nos limites do lote, ou ocupando toda a quadra, voltou ao desenvolvimento urbano espanhol. Mas trazer os edifícios de volta para o alinhamento das ruas não restaurou necessariamente a mistura de usos e as comodidades que animavam os bairros espanhóis tradicionais.
O bairro Parque Venecia, em Saragoça, é típico: seus edifícios de nove andares chegam até a calçada, mas a rua oferece longos trechos de vidro e tijolo, poucas comodidades e vias de quatro faixas de largura. Quinze anos depois da chegada dos primeiros moradores, a população local ainda reclama da falta de serviços municipais. A maioria precisa ir de carro até o supermercado, e as queixas são de trânsito demais e estacionamento de menos. O atrativo dessas novas expansões é oferecer moradia de classe média mais acessível que a do centro da cidade, mas, quando reproduzem sua forma física, costumam fazer isso sem a vida urbana diversificada que o centro tem.

Essa versão esvaziada do urbanismo tradicional vem sendo cada vez mais acompanhada de uma forma arquitetônica padronizada que os críticos chamam de “blocos zebra”. As faixas alternadas de revestimento claro e janelas escuras deram origem ao apelido, mas o estilo aparece por todo o país, independentemente do clima, dos materiais ou da tradição arquitetônica locais. Com componentes padronizados e pré-fabricados, esses edifícios são mais fáceis de orçar, aprovar e replicar — o que um crítico chama de “fast food imobiliário” —, mas muitas vezes dão as costas para a rua, com térreos que frequentemente não têm os espaços comerciais ativos que dão vitalidade ao centro tradicional. Em vez disso, produzem “bairros-dormitório”, onde a vida se recolhe para dentro dos edifícios.
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Em um país que enfrenta uma grave escassez habitacional, os “blocos zebra” oferecem moradia de forma eficiente e rápida, mas essa eficiência traz custos urbanos mais amplos e de longo prazo. Ainda assim, o sucesso comercial desses edifícios indica que as incorporadoras devem continuar a construí-los.
De volta a A Coruña, Adormideras fica em um local onde os moradores podem ver os navios de cruzeiro e de carga indo e vindo das janelas do 9º andar antes de encarar a longa subida da ladeira para comprar papel higiênico. Aliás, o nome do bairro é a palavra espanhola para a flor da papoula, derivada do verbo adormir — fazer dormir. Adormideras é, literal e figurativamente, um bairro-dormitório.
Como boa parte do que a Espanha construiu no pós-guerra, Adormideras existe ao lado, mas logo fora do alcance, do urbanismo caminhável, comercial e em escala humana que faz dos bairros históricos espanhóis centros tão vivos e vibrantes. Se os bairros mais novos da Espanha servem de indicação, hoje esse espírito continua adormecido.
Artigo publicado originalmente em City of Yes, em setembro de 2026.
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