A Europa não é mais tão baixa quanto parece

20 de maio de 2026

Manchester pode se tornar uma das cidades mais verticais da Europa. A frase parece improvável para quem ainda imagina o continente europeu como um território homogêneo de edifícios baixos, centros históricos preservados e forte resistência à altura. Mas basta olhar para o atual mapa de edifícios altos europeus para perceber que essa imagem já não explica mais o continente inteiro. 

O imaginário sobre a cidade europeia ainda está muito ligado à média altura, à preservação histórica e a skylines relativamente contidos. Só que o atual mapa de edifícios altos do continente começa a mostrar outra realidade.

O skyline londrino já não está mais restrito à City e a Canary Wharf. Há, no mínimo, mais sete clusters em formação na cidade. Frankfurt consolidou sua imagem financeira vertical há décadas e segue construindo mais edifícios altos. Paris talvez seja um dos casos mais interessantes justamente porque nunca rejeitou completamente os edifícios altos. Apenas decidiu deslocá-los. La Défense, formada por municípios como Nanterre, Puteaux e Courbevoie, criou uma nova centralidade vertical sem romper diretamente com a paisagem histórica parisiense. 

Mas o ponto mais interessante talvez esteja em outras cidades.

Manchester vem construindo um dos processos de verticalização mais intensos da Europa recente. Rotterdam passou a consolidar um skyline contínuo e cada vez mais denso com edifícios altos. Varsóvia se transformou em um dos principais polos verticais da Europa Central. Milão incorporou novas centralidades contemporâneas ao lado de seu tecido histórico consolidado. Madrid expandiu seu eixo financeiro ao norte da cidade e passou a incorporar edificações altas de maneira cada vez mais evidente. Mesmo cidades tradicionalmente menos associadas à verticalização, como Viena e Berlim, passaram a discutir edifícios mais altos de maneira menos resistente do que há algumas décadas. 

E o fenômeno continua se espalhando. Bratislava, Belgrado e Tirana passaram a desenvolver skylines que dificilmente fariam parte do imaginário europeu dominante dos anos 1990. Em outra escala, Moscou e Istambul ampliam ainda mais essa transformação. 

Isso não significa que a Europa abandonou sua tradição de média altura ou que passou a reproduzir modelos urbanos baseados exclusivamente em torres. O que mudou foi a forma como edifícios altos passaram a ser incorporados à estratégia urbana de determinadas áreas. 

Grande parte desses projetos aparece associada a eixos de infraestrutura, antigas áreas industriais, waterfronts, distritos financeiros ou zonas específicas de transformação urbana. Em vez de espalhar altura de maneira homogênea, muitas cidades europeias passaram a concentrá-la de forma cada vez mais deliberada. 

Talvez o maior erro seja continuar olhando a Europa com uma imagem urbana congelada do passado. O continente europeu segue preservando seus tecidos históricos e sua tradição de média altura. No entanto, também passou a aceitar, de maneira cada vez mais explícita, que algumas áreas podem crescer para cima como parte de sua estratégia urbana.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Mestre em Arquitetura e Urbanismo (UniRitter/Mackenzie) e Doutor em Arquitetura (UFRGS). Membro do Council on Tall Buildings and Urban Habitat (CTBUH) e líder do CTBUH Brazil Chapter. ([email protected])
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