O caos planejado da Barra da Tijuca
O urbanismo modernista da Barra é considerado por muitos a antítese do que deveria ser feito.
Helsinque, capital da Finlândia, recentemente alcançou um feito inédito: passar um ano inteiro sem registrar nenhuma morte no trânsito. O que podemos aprender com isso no Brasil?
15 de setembro de 2025Durante 12 meses entre 2024 e 2025, Helsinque registrou zero mortes no trânsito. Infelizmente, essa ainda é uma realidade distante para muitas cidades, tanto em números absolutos quanto em números relativos. E só foi possível devido a uma série de medidas de planejamento urbano como a redução dos limites de velocidade, o redesenho das ruas e a priorização dos pedestres e ciclistas em detrimento dos carros. A experiência finlandesa traz lições valiosas para quem deseja cidades mais seguras e humanas.
É importante destacar o quanto a conquista de Helsinque é relevante e o que ela representa em ordens de grandeza. Alguns podem argumentar que foi possível zerar as mortes no trânsito porque a cidade tem “apenas” 690 mil habitantes, muito menos que capitais como São Paulo e Rio de Janeiro. Observando a partir dessa perspectiva, podemos então comparar esse dado com cidades brasileiras de tamanho semelhante.
Ribeirão Preto, por exemplo, tem 698 mil habitantes e tem registrado em 2025 mais de 8 mortes por mês, podendo ultrapassar 100 mortes anuais se esse ritmo permanecer. Joinville, com 616 mil habitantes, registrou 90 vítimas fatais no trânsito ao longo do ano de 2022. E Uberaba, com 337 mil habitantes (metade da população de Helsinque), chegou a 47 vidas perdidas durante o ano de 2023. Se o feito de Helsinque tivesse a ver exclusivamente com o tamanho não tão grande da sua população, veríamos realidades bem diferentes nessas cidades brasileiras.
Também é possível fazer uma comparação com valores relativos. A cidade de São Paulo registrou 8,6 mortes no trânsito por 100 mil habitantes em 2024. No mesmo ano, Helsinque teve apenas 4 mortes totais, representando 0,59 mortes por 100 mil habitantes. Mesmo considerando a diferença populacional, São Paulo mata 14 vezes mais. Helsinque também se destaca no próprio contexto europeu, com um desempenho consideravelmente melhor que outras capitais europeias. Berlim e Londres têm mais que o dobro de mortes por 100 mil habitantes. E em Viena e Madri, esse número é pelo menos 40% maior que o de Helsinque.

O que a capital finlandesa conquistou é impressionante até para os padrões europeus. Mas em comparação com o Brasil, é importante destacar esse grande abismo — que não é fruto do acaso, mas um reflexo dos diferentes rumos que o planejamento urbano decidiu seguir nos dois países.
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O segredo não está em uma única medida, mas em uma estratégia de longo prazo com diferentes frentes de atuação. Helsinque abraçou a chamada “Visão Zero”, uma política iniciada na Suécia nos anos 1990 e que hoje tem aderência de diversas cidades no mundo. Ela parte da premissa de que nenhuma morte no trânsito é “aceitável” e de que o objetivo deve ser, mais do que diminuir, zerar completamente esse número. A ideia é criar várias “camadas de proteção” para que, se uma falhar, o impacto do acidente de trânsito seja mitigado por outra.
Em Helsinque, isso foi traduzido em ações concretas:

Para direcionar as intervenções físicas, Helsinque identificou os trechos de maior risco a partir de uma vasta coleta de dados sobre acidentes, veículos e percepções dos moradores. Para além das outras medidas citadas, a falta desse tipo de monitoramento também é uma deficiência generalizada no planejamento urbano brasileiro.
O primeiro passo ao analisar exemplos como o de Helsinque é não criar barreiras como “isso só é possível lá porque a cidade não é tão grande” ou “o Brasil não é a Europa, a realidade aqui é outra”. É claro que essas considerações podem ser relevantes, mas elas desviam o foco do que realmente importa: estamos perdendo muitas vidas no trânsito diariamente, e isso precisa mudar. A própria Helsinque, em 1983, registrou 7 vezes mais fatalidades do que no ano de 2024, mostrando que houve uma mudança intencional e um esforço estruturado ao longo dos anos em prol do objetivo conquistado.
A lição mais importante, no entanto, é a lista de ações da capital finlandesa dentro da “Visão Zero”. Infelizmente, são medidas muito incomuns no Brasil, o que explica o abismo entre os dois no número de vidas perdidas. Em Brasília, uma placa publicitária recente do Governo do Distrito Federal divulga a construção de 11 novos viadutos nos últimos anos, enquanto pouquíssimo é falado sobre ações de melhoria de travessias, calçadas e ciclovias. Esse é o cenário da maioria das cidades brasileiras. A inversão de prioridades na mobilidade urbana é clara e é fatal.

Por outro lado, também temos alguns exemplos pontuais que estão seguindo rumos mais alinhados com a proposta da “Visão Zero”. Talvez o maior atualmente seja a cidade de Fortaleza, que de 2014 a 2022 apresentou uma queda de 58,3% nas mortes no trânsito. O “segredo” foi muito semelhante ao de Helsinque: redução de velocidades dos carros, redesenho viário para priorizar pedestres e ciclistas, aumento da fiscalização.
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Esses casos nos mostram que existe um caminho possível para evitar mortes no trânsito e que ele já está sendo testado e comprovado. Agora o que nos resta é segui-lo.
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