O que o caminhar das crianças ensina sobre a cidade?
Caminhar revela a cidade que os planos não mostram: ouvir crianças transforma diagnósticos urbanos em experiências reais.
O espraiamento das cidades brasileiras tem gerado altos custos. Os dados revelam que estamos construindo cidades para carros, não para pessoas.
29 de janeiro de 2026Nas cidades brasileiras, fazemos uma escolha silenciosa todos os dias. Frequentemente, ela se disfarça de uma preferência estética por bairros baixos ou da ilusão de que verticalização é sinônimo de perda de qualidade de vida. Mas a rejeição ao adensamento urbano não é uma questão estética. É uma decisão econômica e social brutal.
Como adverte José Carlos Martins (CBIC/FIIC) em sua análise recente, negar a densidade nos centros é fazer uma “escolha socialmente injusta e ambientalmente predatória”.
Na prática, condenamos a população de menor renda a viver em periferias cada vez mais distantes, queimando horas produtivas no transporte e exigindo que a natureza dê lugar ao asfalto.
É hora de confrontarmos as narrativas com os dados. E os dados são assustadores.
A “escolha injusta” que vemos no Brasil é sintoma de uma epidemia continental. O relatório “Accommodating Urban Growth in Latin American and Caribbean Cities” (“Acomodando o Crescimento Urbano nas Cidades da América Latina e Caribe”), uma colaboração entre o IDB Invest e a New York University liderada pelo Prof. Shlomo (Solly) Angel — referência global que também integrou o corpo docente do Instituto Cidades Responsivas —, joga luz sobre essa realidade com dados empíricos de 68 cidades.
O estudo revela um descompasso chocante nas últimas três décadas (1990-2020):
Estamos consumindo terra 3X mais rápido do que crescemos em gente.
Um exemplo brasileiro citado no estudo ilustra o extremo desse fenômeno: Palmas (TO). No período analisado, a cidade expandiu sua mancha urbana por um fator de 13,7 vezes. Enquanto a população crescia, a cidade se espalhou quase 14 vezes em território. É como construir 13 novas cidades vazias ao redor da original. Isso não é crescimento, é espraiamento descontrolado.

Aqui entramos no ponto nevrálgico levantado por Martins: o colapso fiscal. Uma cidade espraiada é uma bomba-relógio para o orçamento municipal. A matemática é implacável:
O relatório do BID/NYU traz um alerta específico sobre programas de habitação social massivos na região, como o Minha Casa Minha Vida. Embora fundamentais para reduzir o déficit habitacional, quando implementados com a lógica de “terreno barato longe do centro”, esses programas atuam como vetores de espraiamento.
O dado é cruel: a economia feita na compra do terreno periférico é rapidamente anulada pelo custo perpétuo de levar e manter serviços públicos em locais remotos. O município economiza na obra, mas quebra na manutenção, enquanto o morador paga a conta com horas de vida perdidas no ônibus.
Leia mais: Repensando o MCMV: estratégias para um urbanismo de qualidade
Precisamos urgente de uma nova narrativa urbana no Brasil. A antítese do espraiamento caótico não é a proibição do crescimento (que gera favelização), mas sim o equilíbrio estratégico.
O caminho, validado pelos dados do Prof. Shlomo Angel, passa pelo modelo da cidade compacta. E aqui vale um esclarecimento técnico crucial trazido pelo autor em seu estudo complementar, “Anatomy of Density”: densidade não é sinônimo exclusivo de arranha-céus.

Angel decompõe a densidade em fatores mensuráveis e prova que existem “diversos tipos de densidade”. Uma cidade pode ser densa pela altura (como Hong Kong), mas também pela alta cobertura do solo (como Bogotá) ou, infelizmente, pela superlotação (como Kinshasa).


O nosso desafio no Brasil não é apenas “empilhar” pessoas, mas buscar a densidade de qualidade. Isso significa combinar verticalização estratégica em eixos de transporte com um aproveitamento inteligente do solo (uso misto, fachadas ativas), evitando tanto o espraiamento infinito quanto a superlotação insalubre.
A solução se sustenta em três pilares:
Leia mais: A (falta de) densidade urbana nas áreas centrais das cidades brasileiras
É preciso superar a demonização do mercado imobiliário e da verticalização. Prédios altos em eixos de transporte não são vilões, são ferramentas de eficiência urbana e justiça social.
Como o estudo do BID sugere, o futuro exige um pacto duplo: adensar com qualidade onde já existe cidade e planejar a expansão onde a cidade inevitavelmente crescerá (sim, ela vai crescer, queiramos ou não).
Ignorar a densidade não cria cidades bucólicas. Cria cidades excludentes e inviáveis.
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