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Parque Potycabana, em Teresina. Foto: Governo do Piauí
O problema não é falta de parque, é falta de espaço público
Teresina tem quase 40 parques, mas o problema não é a quantidade. Entre mobilidade precária, manutenção insuficiente e tentativas de privatização, o desafio é transformar áreas verdes em espaços públicos vivos e acessíveis.
É um domingo tranquilo. Joana, estudante, decide sair de casa e ir a um dos parques de Teresina em busca de ar fresco e um pouco de tranquilidade. Logo lembra que, aos domingos, a frota de ônibus é reduzida e precária. Um Uber não cabe no orçamento. Joana fica em casa.
No sábado, Daniel e a esposa fazem o movimento oposto. Vão de carro próprio ao parque no fim da tarde, tentando escapar do calor intenso da cidade. Voltam aborrecidos: pouca manutenção, poucos programas, pouco motivo para permanecer. Acabam no shopping, tomando um sorvete.
Teresina, capital do Piauí, frequentemente chamada de cidade planejada, é também conhecida por estar entre as capitais mais quentes do país. Ao mesmo tempo, possui uma notória área verde preservada. Marcada pelos rios Parnaíba e Poti, que cortam sua malha urbana, mantém extensas áreas de margem preservada — sobretudo ao longo do rio Poti, onde se concentra a maior parte dos parques ambientais. Embora não exista um documento consolidado com todos os parques do município, o cruzamento de decretos e registros oficiais indica a existência de cerca de 38.
Distribuição dos Parques de Teresina (PI) por Zona. Mapa elaborado pelos autores a partir de dados da Prefeitura Municipal de Teresina (2015).
Dos 38 parques, 11 estão na Zona Norte, 13 na Zona Leste, 3 na Zona Centro, 10 na Zona Sul e apenas 1 na Zona Sudeste. A maior concentração está justamente na Zona Leste, região de maior poder aquisitivo e que divide protagonismo com os principais shoppings da cidade. Criar novos parques pode parecer sempre uma boa ideia — afinal, quanto mais áreas verdes, melhor. Mas a pergunta é inevitável: se não conseguimos manter os que já existem, por que criar mais?
O problema não é a quantidade. Espalhá-los pela malha urbana é desejável. O problema central é o acesso — físico, social e simbólico. E aqui não se trata apenas de renda, mas de mobilidade. Teresina é majoritariamente rodoviária e possui um transporte público ineficiente, mal conservado e sem climatização. Em uma das cidades mais quentes do país, isso não é um detalhe, é uma barreira.
Quadra sem manutenção no Parque Poti I. Foto: Kaio Pinto
Entre os parques mais conhecidos, destacam-se o Floresta Fóssil, Raul Lopes, Nova Potycabana e Zoobotânico, na Zona Leste; o Parque da Cidadania, no Centro; e o Encontro dos Rios, na Zona Norte. Cada um assume uma vocação distinta — esportiva, contemplativa, simbólica. Alguns funcionam como cartão-postal; outros, como ponto de encontro; outros, infelizmente, são um espaço esquecido.
A infraestrutura de muitos deixa a desejar. Nos menos frequentados, a manutenção é quase inexistente: mobiliário deteriorado, ausência de sinalização, equipamentos inutilizados. Nos mais utilizados, há maior esforço de conservação, mas faltam programas que estimulem permanência e diversidade de uso. Faltam bancos adequados, brinquedos de qualidade, espaços para idosos e, sobretudo, acessibilidade.
Outro fenômeno recorrente é a tentativa de privatização desses espaços, sustentada pela ideia de que a gestão privada necessariamente melhora sua qualidade. Mas melhora para quem? A elitização transforma áreas de convivência em verdadeiros shoppings a céu aberto, com serviços caros e acessíveis a poucos. Como discute a professora Raquel Rolnik, a crescente influência de interesses privados na produção do espaço urbano tensiona a função social da cidade. O que deveria ser público passa a ser condicionado ao consumo, enquanto o poder público se distancia da responsabilidade cotidiana de cuidar.
A função do poder público não termina na inauguração. Ela continua no cuidado diário.
O Parque Raul Lopes exemplifica essa contradição. Intensamente utilizado para corrida e lazer, especialmente nos fins de semana, torna-se cenário de eventos, redes sociais e geração de renda informal. A apropriação é viva, mas a precariedade também é visível. Faltam bancos, lixeiras adequadas, equipamentos funcionando e cuidado contínuo. Prioriza-se o fechamento da avenida para grandes eventos, muitas vezes voltados ao lucro de promotores, enquanto a qualificação permanente do espaço segue secundária.
Avenida Raul Lopes no domingo, fechada para lazer. Foto: Kaio Pinto
A existência de parques está alinhada a diretrizes nacionais e internacionais que reconhecem áreas verdes como promotoras de saúde e qualidade de vida. No entanto, como aponta o urbanista Jan Gehl, cidades saudáveis dependem do contato entre pessoas. A vida urbana acontece onde há presença, diversidade e permanência. Espaços vazios não produzem encontro nem pertencimento.
Área com bancos no Parque Poti II, à margem do Rio Poti. Foto: Kaio Pinto
Como, então, manter uma cidade viva? No Brasil, a resposta parece simples, mas sua execução é complexa. Não basta inaugurar, pintar bancos ou promover eventos pontuais. É preciso direcionar recursos de forma contínua e investir em educação ambiental e pertencimento. Parques ambientais só se preservam quando são vividos.
Criar espaços é diferente de mantê-los. A função do poder público não termina na inauguração. Ela continua no cuidado diário, na escuta da população e na construção de espaços que sejam, antes de tudo, parte real da vida urbana.
Kaio Pinto é graduando em Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal do Piauí (UFPI) e pesquisador do Laboratório Urbano da Paisagem (LUPA), onde desenvolve estudos sobre espaços livres, rios urbanos e patrimônio cultural de Teresina. Karenina Matos é professora doutora em Arquitetura e Urbanismo na UFPI e coordenadora do LUPA. Wilza Lopes é professora doutora em Arquitetura e Urbanismo na UFPI e também coordenadora do LUPA.
Este artigo recebeu menção honrosa no Concurso de Artigos do Caos Planejado de 2026.
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