Desmistificando a gentrificação
A gentrificação é vista como a grande vilã das cidades. No entanto, é preciso entender o que esse termo realmente significa.
A Avenida Leitão da Silva é muito mais que um corredor viário em Vitória: é um espelho das escolhas urbanas que moldaram a cidade, revelando como decisões históricas de planejamento urbano podem transformar uma via em fronteira social.
16 de abril de 2026É muito provável que você conheça a imagem emblemática que coloca, lado a lado, Morumbi e Paraisópolis, símbolo da segregação socioeconômica nas cidades brasileiras. Essa realidade, porém, não é exclusiva de São Paulo: ela se repete em diferentes contextos urbanos no Brasil e no mundo, muitas vezes passando despercebida no cotidiano.
Desta multiplicidade de contrastes, destacam-se as diferenças econômicas entre bairros que coexistem lado a lado, a exemplo das áreas de morro — favelas — margeadas por bairros nobres do asfalto. Essas resultam de decisões históricas de planejamento e investimento que moldaram o desenvolvimento intraurbano de forma desigual, privilegiando determinados territórios e excluindo outros.
Segundo Flávio Villaça, a cidade brasileira é fragmentada e composta por “ilhas” diferenciadas pela qualidade dos imóveis, infraestrutura, serviços e condições de segurança. Assim, bairros com urbanização consolidada coexistem com áreas marcadas pela precariedade, ausência de saneamento, vulnerabilidade ambiental e restrição de acesso a direitos básicos, como moradia digna, educação, saúde, emprego e participação política.
Leia mais: Podcast #86 | Dados urbanos e desigualdades socioespaciais
Nesse contexto, Vitória, capital do Espírito Santo, é um exemplo de cidade fragmentada. Ela combina paisagens naturais, como praias e morros, com áreas urbanizadas que revelam contrastes sociais marcantes e diferentes formas de ocupação do território ao longo de sua história.

Quando vista de cima, percebe-se nitidamente onde se concentra a área nobre e a área com menor poder aquisitivo da cidade. Nota-se que, mais próximo às praias, está concentrada a população de maior renda e, conforme se avança para a porção noroeste da ilha, assim como nas encostas de grande parte dos morros do território, tornam-se mais visíveis os bairros e comunidades formados pela população de menor renda.

O contraste econômico mostra-se mais evidente nos arredores da Avenida Leitão da Silva, a qual possui em seu entorno bairros nobres como Santa Lúcia, Barro Vermelho, Praia do Canto, Enseada do Suá, Bento Ferreira (e outros) e, ao mesmo tempo, morros e áreas tomadas por construções onde moram a população de menor poder aquisitivo, como os bairros Jesus de Nazareth, Praia do Suá, Consolação, São Benedito, Itararé, Bonfim, Bairro da Penha, Gurigica e as comunidades Jaburu, Constantino, Floresta e Engenharia — estes últimos compõem o chamado Território do Bem.

Muitas vezes, quem percorre a Avenida Leitão da Silva não percebe que, logo ao lado, há morros ocupados por favelas e comunidades urbanas. O que se nota com mais facilidade são outras características: a predominância de usos comerciais, a ausência de edifícios residenciais no entorno imediato, o esvaziamento no período noturno e a sensação recorrente de insegurança.
Seria apenas coincidência?
A origem desse contraste remonta ao planejamento urbano de Vitória, especialmente ao plano conhecido como Novo Arrabalde, de Saturnino de Brito. Esse plano foi projetado quando Vitória ainda tinha menos de 10 mil habitantes, durante o governo de Muniz Freire (1892-1896), e representava uma área com cerca de seis vezes as dimensões da ocupação urbana da capital na época. Ele tinha a intenção de ampliar as áreas de ocupação, já pensando no crescimento populacional que a cidade viria a ter decorrente da economia que estava crescendo na época.

Segundo a professora Flavia Botechia, o projeto foi dividido em quatro partes: a estrada de rodagem, a Vila Monjardim, a Vila Hortícula e o Novo Arrabalde. Como partido urbanístico, ele se materializou em um desenho de três grandes avenidas dispostas em triângulo — uma delas, a Av. Leitão da Silva —, cada uma com 28 m de largura, convergindo a nordeste com um ângulo agudo.

No entanto, passou o governo de Muniz Freire e seus sucessores deixaram o projeto do Novo Arrabalde de lado, visto que Vitória não iria crescer populacionalmente no curto prazo a ponto de precisar de uma área de terra tão grande para ser ocupada.
Foi durante o governo de Florentino Avidos (1924-28) que o interesse pelo projeto retomou. De início, a procura por lotes na região foi muito baixa, porém, a partir dos anos 1970, viraram alvos de lucrativos empreendimentos imobiliários. Isso significa que as porções de terra nessa região passaram a ser ocupadas por quem possuía relativo poder aquisitivo, tornando-se bairros onde os moradores faziam parte da parcela com maior renda na cidade.
É importante ressaltar que, no plano urbanístico desenvolvido por Saturnino de Brito, os morros foram deixados intactos, com as avenidas cortando entre eles, fazendo com que fossem parte da paisagem a ser contemplada. Diante disso, surge uma questão: o que levou parte desses mesmos morros a serem posteriormente ocupados por populações de baixa renda, especialmente nas imediações da Av. Leitão da Silva?
Ao longo do tempo, a Avenida Leitão da Silva tornou-se palco de ocupações distintas, tendo de um lado os lotes do Novo Arrabalde sendo ocupados por famílias ricas e empreendimentos e, do outro, famílias carentes lutando para construir, encosta acima, um barraco onde pudessem morar, com sequer as mínimas condições necessárias para isso. Isso aconteceu porque o Novo Arrabalde não foi implementado em sua plenitude, fazendo com que o outro lado da avenida não fosse abrangido pelas obras. Isso deu margem para que não “impedissem” a ocupação destes morros, visto não terem sido englobados na execução do plano.

Importante ressaltar que nunca foi intenção de Saturnino de Brito que a Avenida tivesse esse caráter separatório, assim como não era previsto que os morros fossem ocupados. Todavia, dadas as circunstâncias de ocupação da área, a via adquiriu esse simbolismo de linha que corta e divide o território em dois, separando o lado de cá do lado de lá.
Essa assimetria não se limita à paisagem. Ela se expressa no acesso desigual à infraestrutura, serviços e oportunidades. Embora fisicamente próximos, os territórios separados pela Avenida Leitão da Silva vivenciam a cidade de maneiras distintas. A proximidade geográfica não elimina as barreiras sociais e espaciais construídas ao longo do tempo.
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Este caso revela como o planejamento urbano, mesmo quando não explicitamente excludente, pode produzir fronteiras. Decisões sobre onde investir, quais áreas priorizar e quais permanecerão à margem moldam o território de forma cumulativa. A cidade resultante dessas escolhas tende a naturalizar desigualdades que, na verdade, foram historicamente construídas.
Hoje, a avenida permanece como testemunho dessa história. Ela não é apenas um eixo viário, mas uma linha que organiza percepções, valores e acessos, servindo como exemplo para repensar como as cidades brasileiras lidam com suas fronteiras internas e como podem, no futuro, evitar que novas linhas de separação se consolidem no espaço urbano.
Amanda Fardin Thomazini é arquiteta e urbanista especialista em Cidades Responsivas. Desenvolve trabalhos voltados à desigualdade socioespacial, planejamento urbano e dinâmicas de ocupação em cidades brasileiras.
Este artigo recebeu menção honrosa no Concurso de Artigos do Caos Planejado de 2026.
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