Menos carros elétricos, mais ônibus e bicicletas elétricos
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As calçadas são uma parte fundamental do espaço público de uma cidade, mas elas não têm recebido a devida atenção.
26 de março de 2026Não existe alternativa de transporte ambientalmente mais correta do que andar a pé. O pedestre é totalmente inofensivo com relação ao ar da cidade e consome pouquíssima energia. É estranho, portanto, que — num momento em que tudo precisa ser sustentável, ecológico, orgânico — esse hábito não seja mais estimulado nas nossas maiores cidades. Em São Paulo, por exemplo, andar a pé às vezes ainda é considerado um hábito excêntrico ou impossível.
Mas não é: caminhar é a modalidade de transporte mais popular na cidade de São Paulo, na verdade. Ainda assim, ela não deixa de ser também uma aventura. A situação das calçadas de São Paulo é provavelmente a nossa mais absurda calamidade urbana: porque a calçada talvez seja o espaço público mais importante de uma cidade.
Leia mais: Calçadas brasileiras revelam negligência com o pedestre
Não é à toa que Jane Jacobs, no clássico e maravilhosamente bem escrito “Morte e vida de grandes cidades”, dedica os três primeiros capítulos a calçadas e a questões da vida urbana que dependem diretamente delas: segurança, contatos e, curiosamente, “assimilating children“. Para Jane Jacobs, o movimento de pessoas numa calçada não é importante apenas para a segurança da rua ou para estreitar a relação entre os habitantes do mesmo bairro: a calçada — que é também um ambiente para crianças se divertirem sob o olhar de adultos — tem ainda uma função pedagógica, civilizadora.
É muito triste ler Jane Jacobs e andar por São Paulo. Só o fato de a obrigação de conservar a calçada ser do proprietário do imóvel lindeiro já é uma aberração: porque o piso perde a regularidade, a manutenção não acontece, o custo é mais alto e a responsabilidade dilui-se entre milhões de proprietários anônimos. Uma das consequências desse modelo tropical de manutenção é que o estado das nossas calçadas consegue ser pior do que o das nossas ruas.

Os problemas variam, mas são graves em todos os tipos de bairros paulistanos. Nos mais ricos, os arquitetos são incapazes de diferenciar uma área que precisa funcionar — como uma área de pedestre em que as pessoas precisam, antes de tudo, andar — de um espaço mais, digamos, contemplativo. Na Faria Lima, por exemplo, em frente a um desses prédios que se consideram sustentáveis e inteligentes, uma calçada chega ao cúmulo de ter seu traçado em zigue-zague, obrigando o pedestre quase a rebolar em seu trajeto.
E regiões em transformação estão perdendo a oportunidade de se organizar de maneira mais urbana. Quarteirões inteiros estão sendo fechados para abrigar condomínios-clube. Um bairro agradável oferece padarias, mercados, lojas de roupas, lavanderias, livrarias etc., que dão vida à vizinhança. Sem esse pequeno comércio, um bairro se esvazia. E, suburbano, fica menos divertido e mais perigoso. Na Vila Olímpia, o problema com as calçadas se repete, mas em outro sentido: multiplicou-se infinitamente a quantidade de pessoas que frequentam a região, mas a infraestrutura continua igual. Os pedestres então se acotovelam nas calçadas, onde disputam espaço com carrinhos de cachorro-quente, ou são obrigados a andar no meio da rua.
Leia mais: Pela estatização da calçada
É verdade que existem projetos pontuais na direção oposta, em geral de iniciativa privada. O Brascan Century Plaza, no Itaim, abriu uma praça que é praticamente uma extensão do calçamento em seu entorno. O alargamento e a padronização da calçada num trecho da Oscar Freire melhoraram seu aspecto e circulação. No Centro, a família Mancini recuperou um trecho da rua Avanhandava. Na Vila Madalena, o edifício residencial Simpatia 236 afasta a grade da rua e oferece um banco ao pedestre. É de iniciativas generosas, inteligentes e baratas assim que São Paulo precisa.

Se não me engano, foi Bernard Shaw quem disse que, quanto mais altos os muros de uma cidade, menos civilizada ela é. A lógica funciona também com relação à qualidade das calçadas. Daí — independentemente do carro que guiamos, das pontes que atravessamos, da quantidade de helicópteros que sobrevoam São Paulo — é possível estimar o estágio de civilização em que nos encontramos. E, se pretendemos sair dele, portanto, precisamos aprender a andar de pé. Ops, a pé.
Este artigo foi originalmente publicado na Revista Amarello (2011) e faz parte do livro “Pequenas Tentações — Cidades, arquitetura e outros passeios”, de Eduardo Andrade de Carvalho.
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Uma vez que o artigo “Em defesa das calçadas” utiliza fração de texto do livro “Pequenas Tentações — Cidades, arquitetura e outros passeios”, de 2011, cita o exemplo de gentileza urbanística no recuo da testada de fundos do residencial Simpatia 236, na rua Medeiros De Albuquerque, 399, onde o exemplar banco para pedestres, infelizmente foi suprimido logo após a pandemia da COVID19. Buscar respostas sobre esse retrocesso aprofundaria esse importante debate.
O banco foi retirado pra uma reforma, continua lá e é bem usado.