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Epidemias: o fracasso das cidades?

Epidemias: o fracasso das cidades?

Grandes cidades, densas, interativas e conectadas, parecem ser o campo perfeito para a rápida disseminação de epidemias ou pandemias como a do COVID-19.

18 de março de 2020

Cidades trazem oportunidades, diversidade e ganhos de escala, que eventualmente atraem mais moradores e motivam retroativamente seu crescimento. Apesar de, há décadas, preverem o fim das cidades em virtude do telefone, da internet, das videoconferências ou da realidade virtual, cidades e encontros presenciais continuam crescendo. Grandes áreas urbanas continuam atraindo cada vez mais gente. Motivado não apenas pelo turismo, a indústria de viagens também tem crescido ano após ano, mostrando o quanto as pessoas querem estar presencialmente onde as coisas estão acontecendo, seja em reuniões, eventos, shows ou simplesmente para encontrar amigos e familiares.

Nas últimas semanas, esse conceito parece ter sido colocado em xeque. Grandes cidades, densas, interativas e conectadas, parecem ser o campo perfeito para a rápida disseminação de epidemias ou pandemias como a do COVID-19. A Cruz Vermelha, falando sobre surtos virais urbanos, diagnostica que, “como atores nestas epidemias, os ambientes urbanos prestam um duplo papel de ajudar a transmissão e, em seguida, dificultando a resposta a ela”. Embora um recente relatório sobre o COVID-19 do Departamento de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul tenha relatado que a “densidade demográfica não parece ter efeitos sobre a taxa de expansão do vírus”, a comparação foi feita entre países, e não cidades. Estudando o efeito da densidade populacional sobre epidemias, os autores Li, Richmond e Roehner concluíram que a densidade demográfica pode sim ter efeito na intensidade da disseminação e taxa de mortalidade de epidemias como influenza e pneumonia.

Talvez seja por isso que a corrente de alastramento do COVID-19 tem sido mais forte justamente nestes locais. Embora muitos não tenham ouvido falar dela antes da epidemia, a cidade de Wuhan, onde o surto iniciou, tem mais ou menos o tamanho de São Paulo, com 11 milhões de pessoas na sua área municipal e 19 milhões na sua região metropolitana. Na Coreia do Sul, a região mais impactada foi Daegu que, embora muitos também não a conheçam, é a terceira maior cidade do país com mais de 2,5 milhões de habitantes na sua área metropolitana. Na Itália, a região mais afetada foi a Lombardia, a mais populosa e mais conectada com o resto do mundo, onde fica Milão, centro urbano e financeiro do país. Nos Estados Unidos, algumas das regiões que estão sendo mais afetadas foram Seattle, cidade sede de empresas como Amazon e Microsoft, o Vale do Silício, com grande população asiática-americana e conectividade com a Ásia, e a costa leste, onde se encontra a maior concentração populacional do país, com Nova York como polo central.

Metrô de Nova York, sábado, dia 14 de março, às 16h. (Imagem: Alan Greig/Flickr)

No Brasil não está sendo muito diferente. São Paulo, maior cidade do país e também a mais conectada com a economia global, conta na data que escrevo com cerca da metade dos casos do país. Tudo indica que enfrentaremos, por aqui, um caso desafiador em virtude não apenas das dificuldades de atendimento do sistema de saúde mas da própria configuração urbana das nossas cidades.

Como relata matéria recente do O Globo, as favelas podem ser afetadas desproporcionalmente. A matéria cita Ana Luísa Gomes, doutora em epidemiologia da Fiocruz, que alerta: “se a COVID-19 se espalhar dentro de uma comunidade, vai ser muito rápido o contágio daquela população”. Isso ocorre dado que a aglomeração em comunidades informais é ainda maior: as pessoas ficam muito mais próximas, unidades habitacionais são menores e muitas vezes não conseguem, por restrição de espaço físico, seguir as medidas recomendadas pelo Ministério da Saúde em caso de contaminação do vírus, de isolamento em cômodo separado da casa. Trabalhadores de baixa renda, dada a natureza dos seus trabalhos, também dificilmente tem o privilégio de trabalhar de casa, exigindo que ora saiam para a rua ora corram o risco de ter sua renda suspensa no período de crise. Esta semana, de forma a mitigar o alastramento do COVID-19, três entidades de arquitetos e urbanistas já solicitaram a suspensão de reintegrações de posse, despejos e remoções, de forma a não agravar ainda mais a situação desta população neste momento de crise.

Além disso, a maior parte destes moradores utilizam as redes de transporte coletivo, outra solução encontrada principalmente em grandes cidades, onde há escala suficiente de passageiros para viabilizar tais modais. Nos ônibus e metrôs o contato humano próximo é maior e as epidemias podem se alastrar ainda mais rápido. Até o momento desta publicação, apesar de alterações na agenda de eventos, empresas, instituições e setor público, o transporte público de várias grandes cidades brasileiras continuava operando normalmente, gerando questionamento e medo de muitos dos passageiros.

Quando o Brasil enfrentou a gripe espanhola, em 1918, o principal impacto foi na maior cidade da época: a então capital Rio de Janeiro, com mais de 900 mil habitantes, sendo cerca de 700 mil na sua zona urbana, arcando com cerca de 15 mil mortes. Já em São Paulo, que então tinha mais de 500 mil pessoas, 1% da sua população morreu devido à gripe espanhola, percentual semelhante ao da cidade de Porto Alegre, que possuía cerca de 160 mil habitantes. No entanto, em 1918 apenas 17% da população brasileira — de cerca de 27 milhões de habitantes — morava em cidades, enquanto hoje se aproxima de 90% dos quase 210 milhões

Na época, a epidemia levou à criação da lei mais rígida e abrangente até então, o Código Sanitário do Estado de São Paulo. A ciência ainda não havia compreendido exatamente quais os principais fatores de disseminação do vírus, focando ainda em medidas mitigatórias da extinta teoria da miasma, que entendia que as doenças poderiam ser causadas pelo “ar ruim” de ambientes mal ventilados e pouco ensolarados. Boa parte das regras destinadas à construção tinham como objetivo a luz e a ventilação, proibindo, por exemplo, salas sem aberturas como portas e janelas para o exterior. Mesmo assim, foi um importante documento delineando regras e diretrizes para o saneamento de um estado que abrigaria, nas décadas seguintes, a maior cidade do país.

Durante boa parte da história das cidades, o urbanismo esteve ligado ao saneamento, dado que este foi um dos primeiros grandes problemas da urbanização. Em 1858, Paris já se transformava com a remodelação de Haussmann, abrindo grandes avenidas e demolindo cortiços, onde os principais objetivos eram trazer luz, ar, água limpa e saneamento à antiga cidade medieval. No Reino Unido, um dos primeiros documentos extensos de organização urbana e construtiva foi o Public Health Act de 1875 que, entre outras coisas, tentava impedir os dejetos de esgoto nas áreas públicas da cidade.

No Brasil, grandes intervenções urbanas também iniciaram a partir de profissionais ligados à área médica, os chamados “sanitaristas”. No Rio de Janeiro, uma das transformações mais marcantes foi movida pelo então prefeito Pereira Passos que, inspirado por Haussmann, em 1902 começa a abrir avenidas e a demolir centenas de cortiços, também embasado parcialmente na teoria da miasma. Alguns anos depois, Saturnino de Brito começa a se tornar um expoente nacional sanitarista, bebendo diretamente da fonte dos sanitaristas franceses e influenciando a urbanização de cidades de todo país.

Avenida Central, Rio de Janeiro, 1910, um dos projetos de Pereira Passos. (Imagem: Mark Ferrez, Álbum da Avenida Central)

É justamente nesse contexto que surge o modernismo, talvez um dos movimentos mais influentes na nossa urbanização: em 1933, o arquiteto e urbanista suíço Le Corbusier publica a Carta de Atenas, expondo o que seriam as novas diretrizes para a urbanização mundial. O foco seria utilizar das novas tecnologias construtivas, que então permitiriam a verticalização, para abrir grandes espaços verdes na cidade, distanciando grandes blocos edificados de forma a permitir ampla exposição à luz do sol e à ventilação — outra referência à miasma, dado que o texto indicava que tal ambiente poderia gerar “germes mortais” como os causadores da tuberculose.

Recentemente, com a instalação de redes de saneamento, a compreensão da disseminação bacteriana e viral substituindo a antiga teoria miasmática e a criação de uma rede de saúde mais robusta, deixamos de querer mudar radicalmente a estrutura urbana das nossas cidades em virtude de epidemias. Exceto os casos evidentes de necessária urbanização de assentamentos irregulares, expandindo tais sistemas de saneamento que ainda são ausentes para grande parte da população, essa talvez seja mesmo a decisão correta. Mesmo assim, a experiência atual indica que a gestão urbana deve agir rapidamente na mitigação e contenção destas epidemias para que a cidade não fracasse.

A particularidade atípica do COVID-19 comparado com outros vírus que temos visto nos últimos anos, como a SARS em 2003 e a gripe suína em 2009, é a facilidade de contágio aliada à falta de sintomas principalmente nos primeiros dias de contração da doença. Isso significa que, quando se identifica o primeiro caso de contágio, provavelmente outras pessoas já contraíram o vírus e iniciaram uma reação em cadeia exponencial de transmissão. Nestes cenários, dificilmente empresas ou mesmo a sociedade civil tem condições de reagir rapidamente e de forma coordenada para mitigar a velocidade de transmissão e evitar o caos no sistema de saúde. É neste contexto que se dá a importância da rápida resposta da gestão urbana municipal pública de grandes cidades.

Em Bogotá, por exemplo, já estão criando 22 quilômetros de ciclovias temporárias para criar alternativas de transporte com menor contato humano. Outras cidades foram mais radicais. Espaços públicos que tradicionalmente devem ser geridos como locais de encontro foram, em Tianjin, na China, isolados com cercas metálicas semelhante às usadas para tapumes de obras, de forma a restringir a circulação de pessoas e disseminação do vírus. Em São Paulo, uma das primeiras medidas foi a suspensão da Paulista Aberta, evento que abre a avenida para pedestres aos domingos e que marcou o início de uma transformação urbana na cidade. O seu exemplo nova-iorquino, a praça de Times Square, permanece aberta, embora surpreendentemente vazia dado que o turismo foi fortemente afetado e as pessoas têm evitado aglomerações. Estudos já mostram que a velocidade de reação ao COVID-19 em cidades italianas semelhantes fez toda a diferença na contenção da epidemia.

Alguns urbanistas como Michele Acuto, da Universidade de Melbourne, em entrevista para o CityLab, já começaram a defender a restrição de densidades demográficas em virtude de epidemias. O exemplo citado na entrevista é o de Hong Kong, que chega a densidades de até 59 mil habitantes por quilômetro quadrado em algumas regiões, acima de bairros densos como Copacabana e quase seis vezes bairros paulistanos como o Itaim Bibi e Pinheiros. No entanto, o próprio exemplo dado mostra que os problemas da densidade podem ser superados quando há boa gestão pública. Hong Kong, tendo sido foco da epidemia de SARS em 2003, teve uma das melhores respostas ao COVID-19 mesmo com cerca de 300 mil pessoas transitando entre Hong Kong e a China, onde o vírus se originou. Assim que ficaram sabendo do vírus, implementaram controles de temperatura corporal em todos os acessos da cidade e, em uma semana, o que seria o equivalente à sua Câmara de Vereadores votou para permitir a quarentena de casos suspeitos. Quando o primeiro caso apareceu em Hong Kong, foram implementadas restrições migratórias da China, principalmente de Wuhan, exigindo também a quarentena de 14 dias para viajantes de fora. Em seguida, implementaram medidas que algumas cidades brasileiras estão tomando hoje: solicitando que funcionários públicos trabalhem de casa; cancelando ou adiando grandes eventos; e, por último, fechando escolas, com muitas aulas sendo feitas pela internet.

Quando problemas urbanos em grande escala ocorrem, uma resposta frequente é simplesmente sugerir a restrição da densidade e das aglomerações, ou seja, a restrição da cidade. O mesmo foi visto poucas semanas atrás, quando as enchentes que provocaram caos em várias cidades do país levaram alguns a culparem a urbanização em si. No entanto, exemplos de sucesso pelo mundo mostram que aglomerações urbanas podem sim prosperar, desde que os problemas sejam adequadamente priorizados e boas práticas de gestão urbana sejam implementadas.

Roger Keil, professor de estudos urbanos da Universidade de Toronto, nos lembra, em entrevista para o CityLab, que “a ideia de que podemos ir para a zona rural para nos proteger é um mito, porque ela não existe como antigamente. Muitas doenças surgem em zonas rurais ou periféricas, e estas regiões normalmente estão menos preparadas para lidar com elas. Além disso, regiões periféricas são muito mais conectadas que antigamente: mesmo morando em um subúrbio você pode sair pra jantar, ir no cinema e no supermercado todos os dias, em contato próximo com outras pessoas. Em outras palavras, se o objetivo é limitar o seu contato com o mundo externo, pouco importa se você está fechado no seu microapartamento no centro de São Paulo ou em uma fazenda no interior do Mato Grosso do Sul.

No seu livro “O Triunfo da Cidade“, o economista Edward Glaeser aponta o saneamento como um dos maiores desafios da urbanização, ilustrando com a tarefa hercúlea de prover água limpa para impedir a disseminação de doenças em cidades americanas no início do século 19. Tal feito exigiu um investimento massivo em infraestrutura pública de distribuição de água e saneamento, assim como em serviços públicos de limpeza urbana em Nova York algumas décadas depois. Há mais de um século atrás já se defendia que cidades seriam inviáveis, e quando grandes impactos acontecem muitos ainda correm para esta narrativa. No entanto, através dos ganhos de escala e do fruto da própria cooperação humana propiciada por cidades, muitos desses problemas foram e serão resolvidos. Como um amigo me confidenciou esta semana: “Eu pensei em ir para a região da Serra, mas lá não tem UTI”. Embora as grandes cidades possam ser epicentros de epidemias, elas também são as que possuem ganhos de escala suficientes para ter, por exemplo, instalações médicas de ponta, com leitos adaptados para respiradores, que recebem pacientes de cidades menores, além de grupos de pesquisa que desvendam a cura das nossas doenças. Pelo tamanho do impacto, cidades podem parecer fracassar diante de uma epidemia como a que estamos vivendo, mas não há dúvida de que elas também serão as melhores para superá-la.

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