Por que um urbanista portoalegrense ama São Paulo

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Inauguração da ciclovia da Av. Paulista, com o Conjunto Nacional ao fundo. Foto: EmbarqBrasil @ Flickr

Essa semana deixo São Paulo depois de morar aqui durante cinco anos. Apesar de sempre considerar Porto Alegre a minha casa, não vai ser fácil voltar. Aprendi a amar São Paulo.

São Paulo carrega a imagem de uma cidade violenta, com trânsito infernal onde as pessoas são menos educadas e mais difíceis de se relacionar. Na minha vida aqui, isso é um mito que impede São Paulo de ser ainda maior.

Não só mostram os rankings de violência, mas me sinto muito menos seguro caminhando nas ruas de Porto Alegre do que as daqui. As ruas paulistanas são mais caminháveis e tem mais movimento de pedestres que Porto Alegre. Não tem semana que não volto a pé para casa depois das onze da noite, totalmente despreocupado.

O trânsito de São Paulo também pode até ser infernal, mas tem um transporte público muito superior – e inclusive mais fácil de acessar, justamente porque é uma cidade mais caminhável. A proximidade entre as atividades cotidianas aliada à rede de ciclovias também torna a cidade mais fácil de pedalar do que Porto Alegre. Por esse mesmo motivo aqui comecei a pedalar em São Paulo e provavelmente vou aposentar a magrela em Porto Alegre.

A generalização também não poderia ser menos verdadeira quando se refere às pessoas. São Paulo é um caldeirão de culturas onde paulistano “de verdade” é minoria. Há diversidade e, com isso, tolerância e um entendimento comum de que, vindo de fora, todo mundo precisa se ajudar. Andando a pé pude conhecer meus vizinhos, tanto os moradores como os profissionais que oferecem serviços ao redor do bairro. Em um novo senso de comunidade, durante meu tempo aqui também participei de um grupo de Facebook que conta com 5 mil moradores do meu bairro, que compartilham diariamente dicas de serviços na região assim como suas preocupações com segurança e infraestrutura.

São Paulo abriga pessoas que vem do resto do país inteiro, normalmente em busca de novas oportunidades ou de algo mais desafiador. Nesse sentido, minha impressão é de que São Paulo tem “cara de Brasil”, enquanto em Porto Alegre um “não gaúcho” já se sente estrangeiro. Paulistanos entendem essa característica como uma virtude da cidade e que, sem gente de fora, a cidade não existe. Vejo isso com menos frequência em Porto Alegre, onde estrangeiros tem maior dificuldade de se integrar justamente pelo fato de ser menos plural – onde há mais resistência para crescer ao invés da vontade de crescer para abrigar todos que querem morar lá.

Por fim, e talvez característica mais importante, a massa populacional de São Paulo gera ganhos de escala que deixa zonas metropolitanas como a do Rio de Janeiro em um distante segundo colocado.

Escala permite cada vez mais especialização de atividades e produtos – o que significa que nossas necessidades são cada vez melhor atendidas, tanto no emprego como no consumo. Muitos dos projetos com os quais eu me envolvi aqui dificilmente existiriam em outras cidades brasileiras, assim como conheci muita gente que dificilmente poderia estar trabalhando em outra cidade.


“…São Paulo teria ganhos de escala de aproximadamente 50% comparado com a cidade de Porto Alegre.”


No lado do que a cidade oferece, são centenas de museus, galerias, praças, bares, botecos, restaurantes e auditórios de tamanha variedade que só uma cidade desse tamanho consegue sustentar. É tanta coisa pra fazer que em São Paulo ninguém se sente culpado se perde algum evento, já que sabe que em seguida certamente vai ter outro tão bom quanto. Apenas seguindo o que chamo de “Lei de West e Bettencourt”, formulada principalmente por Geoffrey West e Luis Bettencourt do Santa Fe Institute, que mostra que cidades apresentam ganhos de escala de 15% a cada vez que dobram a sua população, São Paulo teria ganhos de escala de aproximadamente 50% comparado com a cidade de Porto Alegre.

Claro que São Paulo tem problemas, mas me parece que, principalmente durante meu período aqui, se vê o início de uma nova etapa de São Paulo. Uma São Paulo onde pessoas ocupam os edifícios de um dos centros históricos mais incríveis do mundo e onde ciclistas ocupas as vias pra fugir do trânsito infernal. Onde o maior viaduto do Brasil acaba de ser declarado parque e a sua principal avenida se torna área de lazer aos domingos, compensando a sua falta de espaços públicos verdes. Nova York passou por maus lençóis nos anos 80 e 90 e hoje toma a liderança esbanjando qualidade de vida. Vejo algo parecido em São Paulo, embora ainda de forma mais tímida. Me parece que a “cultura da congestão” que possuem tanto tanto Nova York quanto São Paullo permite também que saiam na frente nas soluções.

Apesar dos pesares, São Paulo é uma cidade incrível, e com um futuro ainda mais promissor.

  1. Elias Souza dos Santos

    Sou do Nordeste e sou natural de Aracaju/Sergipe.Morei em São Paulo no período de agosto de 2009 a julho de 2011. Durante esse tempo cursei o Mestrado em Educação na Universidade de São Paulo. Realmente, com todos os problemas que existem nessa grande metrópole, confesso e concordo com o autor desse artigo, o Anthony!! É uma cidade plural e que dar oportunidades aos brasileiros que chegam de outros estados. É o que é, do ponto de vista econômico, cultural e educacional, por causa dessa diversidade que há nela. Gostei, imensamente, de ter morado Sampa. Foi uma experiência incrível!!

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