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O trabalho remoto prova que as cidades são insubstituíveis
Imagem: Matt Bango.

O trabalho remoto prova que as cidades são insubstituíveis

Precisamos de cidades que acomodem mais pessoas e permitam que elas se movam mais rapidamente e interajam de forma mais intensa.

5 de setembro de 2022

Recentemente, a Andreessen Horowitz (A16Z) anunciou que está “migrando para a nuvem”. A empresa estava inicialmente cética em trabalhar de forma remota, mas aprendeu com a experiência:

“Acontece que administrar uma empresa de tecnologia à distância funciona muito bem. Não é perfeito, mas mitigar os problemas culturais associados ao trabalho remoto acaba sendo mais fácil do que gerenciar a insatisfação dos funcionários com o deslocamento forçado ao escritório 5 dias por semana. Como resultado, quase todas as empresas de tecnologia mudaram para uma abordagem de trabalho remota ou híbrida e essa mudança está enfraquecendo profundamente o efeito de rede do Vale do Silício.”

A16Z não é só mais uma empresa. Eles eram investidores em algumas das companhias de tecnologia mais proeminentes, incluindo Facebook, Twitter, Coinbase, Affirm, Airbnb, Lyft, Slack, Roblox, Flexport e Instagram. Sua liderança e orientação impactam centenas de milhares de funcionários.

Mas o anúncio da A16Z incluiu outra novidade:

“No novo modelo operacional de nossa empresa, trabalhamos principalmente virtualmente, mas usaremos nossa presença física para desenvolver nossa cultura, ajudar empreendedores e construir relacionamentos. Especificamente, a empresa agora é virtual, mas pode se materializar fisicamente sob comando.

Como resultado, configuramos a empresa para ser capaz de montar-se fisicamente em qualquer lugar do mundo de forma muito rápida. Para isso, estamos abrindo 3 novos escritórios em Miami Beach, Nova York e Santa Mônica, além dos já existentes em Menlo Park e San Francisco.”

Espera, como assim? “Migrar para a nuvem” e “abrir 3 novos escritórios”? A princípio, essas duas afirmações parecem contraditórias. Mas fazem todo o sentido. A capacidade de trabalhar à distância não significa que deixaremos de trabalhar presencialmente; em vez disso, significa que podemos (e devemos) ser mais ponderados sobre como interagimos pessoalmente.

A internet não substitui as cidades; ela as amplia. A criatividade e a inovação dependem da disseminação eficiente de ideias — do rápido fluxo de informações e da velocidade com que elas podem chegar à pessoa que pode fazer o melhor uso delas.

As cidades são redes. E, historicamente, estar em uma cidade significava acessar informações (e know-how) indisponíveis em outros lugares. Elas permitiram a rápida combinação de tarefas, conhecimentos e reuniões entre pessoas que tinham algo a ganhar umas das outras.

O trabalho remoto nos mostrou como a conexão e a colaboração podem ser eficientes quando eliminarmos o custo do espaço físico. Não apenas o aluguel, mas também o de caminhar até uma reunião, ou ir até o escritório, ou encontrar aquela pessoa com quem você precisa falar. E sim, também o custo de não conhecer ou contratar quem não mora na mesma área metropolitana.

Como destaca Luis Bettencourt, as cidades são redes sociais que visam permitir que seus nós interajam na maior velocidade possível. Isso ocorre porque os retornos dessas interações são superlineares e, portanto, muito produtivos.

Por superlinear, refiro-me ao fato de que cada nova pessoa adicionada a uma cidade a torna X vezes mais produtiva: aumentar a população em 1% resulta em mais de 1% de aumento na produtividade e inovação.

De certa forma, esse argumento mostra por que o trabalho remoto é tão atraente. Ele permite que uma empresa aumente instantaneamente seu pool de talentos em dezenas de milhões de pessoas. Mas esse argumento também nos lembra por que os centros urbanos ainda têm tanto potencial.

Nas últimas décadas, muitas cidades tornaram-se piores em fazer o que elas fazem de melhor. Em vez de ajudar a aumentar a velocidade das interações, elas a reduziram. Conseguiram isso incentivando mais tráfego, negligenciando o transporte público, forçando mais pessoas a morarem mais longe (devido à falta de novas construções ou leis que desaceleram e aumentam o custo do desenvolvimento).

Isso foi particularmente verdadeiro nas cidades mais prósperas, como Nova York e São Francisco e, em menor grau, Londres. As cidades estavam indo tão bem que começaram a dar seus moradores — e potenciais moradores — como certos.

Ao mesmo tempo, a sociedade deu as cidades como certas. Presumimos que elas eram o que eram e que não podíamos esperar que fossem muito melhores.

Elas já eram muito mais produtivas do que as alternativas, então assumimos que isso era o melhor possível. Mas o trabalho remoto nos mostrou que o fluxo de informações dentro das redes de pessoas pode ser ainda mais rápido e levar a uma produtividade ainda maior.

Isso não prova que precisamos de menos cidades mas de cidades maiores, que acomodem mais pessoas e permitam que elas se movam mais rapidamente e interajam de forma mais intensa.

Nas próximas décadas, algumas cidades se tornarão mais valiosas do que nunca. Esses serão os centros urbanos que descobriram como aumentar seu tamanho e acelerar o movimento de pessoas dentro de sua área metropolitana.

As cidades não devem lutar com a (ou desistir da) internet. Devem descobrir uma maneira de se encaixar a ela, de se tornarem supernós em um mundo conectado. Elas precisam acelerar e escalar. Então, muitas outras empresas seguirão a A16Z — elas migrarão para a nuvem e abrirão vários novos escritórios.

Artigo publicado originalmente em Hype-Free Education em julho de 2022. Traduzido por Gabriel Lohmann. Veja também Drop Poleg e Chartwell Speakers.

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