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Bogotá: das guerras aos caminhos para a solução
Imagem: Brian Shrader.

Bogotá: das guerras aos caminhos para a solução

Ester Carro conta sobre a sua experiência vivenciando o dia a dia de Bogotá e como a cidade vem enfrentando seus desafios urbanos e sociais.

23 de março de 2022

Em dezembro de 2021, chegava em Bogotá, na Colômbia, a jovem nascida e criada da favela do Colombo. Passaporte carimbado, mãos trêmulas e uma mistura de medo e alegria. Eram os primeiros passos para o novo, o desconhecido, a mudança e o aprendizado fora dos muros, a realização do primeiro intercâmbio, de um sonho até pouco tempo distante.

Durante aproximadamente dois meses, aquele seria o meu lar, um lugar que já foi marcado por violência, sangue derramado e insegurança, e ainda considerado um dos países mais desiguais do mundo.

Esses tempos de guerra haviam ficado pra trás? De acordo com a colombiana Diana Jerônimo, “a guerra não terminou. Não é como antes, claro, mas ainda existem conflitos, as FARCs (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) permanecem atuando. Em dezembro de 2021, por exemplo, estavam matando pessoas numa parte da Colômbia”.

Ainda que os conflitos permaneçam, esse cenário passou a ser alterado pelas mudanças aplicadas pela gestão pública. Acordos de paz desenvolvidos por organizações, investimento de iniciativas privadas e mobilização social tornaram a cidade referência em urbanismo social e transformação territorial. Um contexto de extrema importância para inspirar e guiar ações e projetos desenvolvidos no Instituto Fazendinhando.

Em Bogotá, me integrei à Fundação Jesus El Bueno Pastor durante 45 dias. Lá, o trabalho ocorria de forma voluntária, durando entre cinco a seis horas por dia, com crianças colombianas e venezuelanas em situação de vulnerabilidade social.

Nos demais horários e aos finais de semana, existia a possibilidade de conexão com a cidade e seus moradores. Esse contato com a realidade era transformador. Através dos relatos, da escuta ativa de quem vive o dia a dia e das análises de todo o contexto urbano, era possível criar comparativos com o Brasil, como se verá em alguns projetos a seguir:

Transmilênio, o sistema de ônibus de Bogotá

Sistema Transmilênio, Bogotá
Sistema de transporte público, Transmilênio. (Imagem: Mariana Gil/ EMBARQ Brasil)

Sistema de ônibus que percorre a cidade de Bogotá em faixas exclusivas. Por um lado, facilita a vida dos moradores, já que o trânsito é terrível, por outro, não consegue atender toda a demanda e fluxo existente. A cidade não possui um sistema de metrô e os moradores sofrem com a ausência e as promessas repetidas a quase quarenta anos.

TransMiCable

Sistema TransMiCable
Sistema de TransMiCable e intervenções urbanas no território. (Imagem: Armando Gallardo/IFC)

Sistema de teleférico implementado pela cidade, complementar ao sistema Transmilênio. O modal representa dignidade numa cidade onde o transporte público é extremamente caótico. Ele simplifica o fluxo de tráfego numa das regiões mais pobres de Bogotá, possibilitando que os moradores das áreas mais afastadas não tenham que levar mais de duas horas para atravessar os morros e chegar em suas respectivas casas.

O TransMiCable também conta com a utilização de painéis solares que geram a energia responsável pelo seu funcionamento, mostrando o caráter sustentável do projeto.

Além disso, nesse percurso, é possível encontrar salões comunitários, centros culturais, museus, parques, miradouro, passeio pedonal, pintura e grafites de diversas cores, trazendo mais vida e qualidade urbana.

Eje Ambiental

Em 1997, foi construído um dos projetos mais ambiciosos do espaço público, integrado ao centro de Bogotá, que consiste em um grande trajeto urbano, conectando o córrego que atravessa a região e recuperando o uso sustentável dos bens comuns municipais.

Na proposta idealizada por Rogelio Salmona e Luis Kopec, a Avenida Jiménez constituiu-se como um grande caminho de tijolos acompanhado pelo canal do Rio São Francisco, povoado por espécies da flora nativa, como a palmeira de cera e as pimentas da primavera.

Buscava-se também resgatar a memória histórica do Rio São Francisco, conduzindo a água por um canal que lembrava seu traçado, e que homenageava seu nome muisca Viracachá, que significa brilho da água no escuro.

Passeio Público de Bogotá

Calçada e rua de Bogotá
Calçada e rua de Bogotá. (Imagem: Mariana Gil/WRI Brasil)

As ruas e calçadas representam a maior parcela dos espaços livres urbanos, e os passeios públicos comportam o deslocamento de pedestres e ciclistas, os sistemas de infraestrutura, a arborização e o mobiliário urbano.

Jane Jacobs defende que a manutenção da segurança não é feita apenas pela polícia mas pela rede intrincada, quase inconsciente, de controles e padrões de comportamento espontâneos presentes em meio ao próprio povo e por ele aplicados. O principal atributo de um distrito urbano próspero é que as pessoas se sintam seguras e protegidas na rua em meio a desconhecidos.

Os passeios públicos de Bogotá impressionam, tanto em bairros periféricos quanto nos bairros nobres. Em muitos casos, as faixas dos automóveis são menores que as calçadas — diferente do que acontece em São Paulo —, o que traz a sensação de segurança e conforto ao caminhar, e deixa nítida a prioridade a pedestres e ciclistas.

Ao longo das calçadas, há mobiliários urbanos com lixeiras separando os resíduos orgânicos dos recicláveis, bancos, árvores e iluminação pública. Vale ressaltar que quase não há fiação elétrica visível, o que contribui para a paisagem urbana. Os edifícios possuem fachadas ativas, que possibilita uma maior circulação de pessoas, a troca e o encontro.

Habitação de Interesse Social

A iniciativa privada investe nessas construções com apoio do governo, que concede subsídios. Para ter direito ao benefício, o cidadão precisa ser maior de 28 anos de idade, não ter registro de imóvel em seu nome e receber até dois salários mínimos.

As edificações possuem qualidade arquitetônica e características que contribuem para a qualidade de vida dos moradores, tais como:

• Fachada ativa, comércios e pequenos negócios no térreo;

• Área de estacionamento dentro dos blocos residenciais, evitando veículos nas calçadas;

• Apartamentos de no mínimo 42 m²;

• Ventilação e iluminação natural, com grandes aberturas em todos os ambientes;

• Áreas de lazer e convivência entre os blocos;

• Passeio público excepcional, com grandes calçadas na maioria das vias.

Equipamentos institucionais e culturais de Bogotá

Bogotá é cercada de equipamentos públicos, culturais e educacionais, que convidam o estar e permanecer, com excelentes projetos arquitetônicos, manutenção dos espaços e construções, além de muita arte, cor e vida.

A biblioteca Virgilio Barco, projetada por Rogelio Salmona, encanta com toda a sua leveza, transparência e aberturas. Inserida no espaço urbano, valoriza e abraça o seu entorno verde, com uma estrutura circular de tijolo rodeada por espelhos d’água.

Ao caminhar pelo centro da cidade, é possível conhecer mais sobre o processo histórico, o passado e o presente de Bogotá, a partir dos monumentos, esculturas, museus, catedrais, grafites, que deixam perceptível a luta, os sonhos e avanços deste povo.

Parques e praças

Parque Simón Bolivar, Bogotá
Parque Simón Bolivar. (Imagem: Dominic Chavez/World Bank)

É impressionante a quantidade de áreas verdes e de lazer dessa cidade, composta por parques, várias praças arborizadas e excelente infraestrutura urbana. São pequenos pulmões verdes inseridos em diversos lugares, de um extremo a outro, proporcionando o bem-estar dos seus moradores e atividades de forma coletiva.

Uma dessas belezas é o parque Simón Bolivar, considerado o maior parque da cidade, superando inclusive as dimensões do Central Park. O espaço é marcado por lagos, bosques, pontes, monumentos, áreas para acampamento, equipamentos urbanos para todas as idades e lindos gramados que possibilitam caminhar com os pés descalços.

Um outro lugar mágico por sua imensidão verde e o contato com a natureza é o Jardim Botânico de Bogotá, fundado em 1955 em homenagem ao naturalista, matemático e astrônomo José Celestino Mutis.

O espaço apresenta um orquidário com cinco mil espécies, um jardim de rosas de diferentes cores, a flor de Mutis, palmeiras e plantas medicinais, e a árvore nacional da Colômbia: o Nogal. O passeio encanta com tanta diversidade, riqueza natural e cultura atraindo diversos turistas e deixando a sensação de que uma única visita é muito pouca para contemplar e respirar o puro dos diversos ambientes.

A incrível cidade de Bogotá, com suas dificuldades, crescimento e desenvolvimento, é hoje referência para a arquiteta e urbanista social da favela. As fotos, vídeos, textos, memórias e lembranças serão sempre resgatadas para recordar os momentos, o esperar, o viver, o aprender, mas, acima de tudo, para contar histórias marcantes de quem ali vive e viveu, e do potencial transformador dessa cidade.

Retornar ao Brasil me mostra que ainda há um árduo caminho a ser trilhado e estudado, que a luta deve continuar articulando ações e projetos com um olhar para quem mais precisa, buscando entregar o melhor com qualidade estética, conforto, permeabilidade e acolhimento, além de criar a disponibilidade para o processo participativo e a escuta ativa.

As respostas estão aqui, na leitura das cidades, dos territórios, da sociedade, da valorização cultural e da riqueza natural que vem se perdendo ao longo dos anos. É preciso agir, mas agir de forma coletiva com a ambição de construir e desconstruir o que segrega e destrói vidas, com novos modelos de planejamento, conscientização e gestão sustentáveis.

Bogotá, uma cidade um tanto caótica, de desigualdades, de altos vales, da arte, da trajetória valente, nos inspira a evoluir, fazer, sensibilizar, impactar e transformar.

Um agradecimento especial ao escritório Miguel Pinto Guimarães, Luciano Huck e equipe do Domingão, AIESEC, Insper e Fundação Jesus El Bueno Pastor.

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