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“Vancouverismo”: verticalização com vida na rua
Imagem: Luís Henrique Bueno Villanova.

“Vancouverismo”: verticalização com vida na rua

É possível uma tipologia de edificações em altura moldar os rumos para um urbanismo denso sem perder as características de uma cidade aprazível aos olhos humanos?

8 de setembro de 2020

Estive em Vancouver por um mês e meio, do início de fevereiro até metade de março deste ano de 2020. Vivi praticamente a parte final do inverno, um frio mais ameno que no restante do Canadá. Temperaturas variavam entre 1 a 8ºC, com chuva quase o tempo todo. Aliás, chuva é a principal característica desta estação em Vancouver, diferente dos meses de verão em que o sol predomina, com temperaturas dificilmente ultrapassando os 25ºC. E este aspecto demarca Vancouver como o melhor clima para se viver no Canadá, ao contrário das maiores cidades, Toronto e Montreal, que variam as suas temperaturas entre -30ºC no inverno e 40ºC no verão.

Apesar do clima cinza do inverno, a cidade não deixa de vibrar. Sempre é possível ver pessoas caminhando nas ruas, caminhando, utilizando transporte público ou bicicleta. Há até uma aparente contradição, de uma cidade chuvosa e fria com tanta gente vivendo as calçadas. 

Essa condição climática é refletida nas edificações da cidade. Com invernos cinzas e chuvosos e verões amenos, os edifícios, em sua maioria altos, possuem fachadas em pele de vidro, na busca de aproveitar as melhores condições solares em ambas estações. Além, é claro, de poder usufruir das belas paisagens que a região proporciona. Ao contrário das edificações envidraçadas do Brasil, em que as fachadas prezam mais por uma estética universal do que uma solução cultural ou ambiental, dada a ineficiência da solução para o quente clima tropical.

Dois arquitetos se destacaram ao darem início a esse retrato das edificações. São eles: Arthur Erickson, pioneiro no estilo brutalista nas edificações da cidade como, por exemplo, o Evergreen Building e o 1075 West Georgina, e seu discípulo James Cheng, autor de diversos edifícios nos bairros Yaletown e Coal Harbor, além do edifício mais alto de Vancouver, Shangri-la Tower, com 200 metros de altura. Porém, não foram apenas bons projetos de edifícios altos que proporcionaram uma certa identidade à Vancouver, e sim um misto de bom planejamento urbano e uma natureza abençoada da região na qual a cidade está inserida.  

Vancouver e as montanhas de North Shore ao fundo. (Imagem: Luke Lawreszuk/Pixabay)

Vancouver está localizada na Península Burrard, na costa oeste do Canadá, a 54 km da divisa com os Estados Unidos. Pelo Estreito de Geórgia, se conecta ao Oceano Pacífico e, ao norte, às belas montanhas de North Shore. A cidade, a maior da província de Colúmbia Britânica, possui uma população de 675 mil habitantes, e a Grande Vancouver, mais de 2 milhões de pessoas, tornando-se a terceira maior região metropolitana do país. A cidade costeira, em que mais da metade da população não possui o inglês como língua nativa, é a quarta mais densa da América do Norte, atrás apenas de Nova York, São Francisco e Cidade do México. 

Ano após ano, Vancouver desponta entre as dez melhores cidades do mundo para se viver em rankings como o da revista britânica The Economist, que avalia métricas em cinco categorias: estabilidade, saúde, cultura e meio ambiente, educação e infraestrutura. Ela tem metas para ser a cidade mais verde do mundo até 2050, com todo habitante da cidade tendo um parque ou área verde a cinco minutos a pé de casa. A restruturação no urbanismo da cidade tem sido essencial para atingir esses objetivos. É isso que conta o planejador urbano Larry Beasley em seu livro “Vancouverism”: como uma típica cidade de porte médio e padrão urbanístico norte-americano conseguiu transformações tão visíveis e que hoje carrega seus louros em planejamento urbano. 

Beasley escreve que, até meados dos anos 80, a cidade sofria um processo recorrente em praticamente todos os centros urbanos dos Estados Unidos e Canadá — a suburbanização. A região central de Vancouver servia cada vez mais para o trabalho do que para o morar. Edifícios de escritórios afastados das calçadas e rodeados de praças secas tomavam o lugar das antigas edificações de tijolos de até cinco pavimentos do início do século XX. Autopistas chegaram a ser propostas para circundar a região central, assim como outras cidades americanas que foram dilapidadas pelo rodoviarismo, o que gerou grandes protestos entre os moradores da cidade e, por sorte, não foram construídas.

Michael J. Short, no seu livro “Planning for Tall Buildings”, escreve que a experiência vivida nas décadas de 1970 e 80, aliada a um grande evento ocorrido na cidade, a Expo 86, fez com que houvesse uma mudança cultural nos habitantes de Vancouver. O resultado foi população, políticos e urbanistas, todos dispostos a rejuvenescer Vancouver. Muitos, inspirados em Jane Jacobs, célebre jornalista urbanista de origem canadense, viram uma brecha para subverter a lógica da suburbanização e traçar rumos que marcam a cidade até os dias atuais. Algumas questões que foram levantadas eram como convencer pessoas que escolheram morar no subúrbio a se mudarem para a região central e como revitalizar o centro de Vancouver, um típico distrito financeiro dos anos 80 em pleno declínio.

Só foi possível resolver esses desafios interligando vizinhanças, promovendo diversidade populacional e responsabilidade ambiental, incentivando o uso de transportes mais sustentáveis, e através da colaboração pública e privada com a intenção de um desenho urbano de cidade. Este último, o mais visível entre todos, principalmente nos bairros revitalizados de Coal Harbour e Yaletown, na região central de Vancouver. Essa interligação de movimentos em busca de mais pessoas morando perto do trabalho ganhou status de fenômeno apelidado de “Vancouverismo”, como o nome do livro de Beasley. 

Skyline a partir do Stanley Park para o bairro revitalizado de Coal Harbor. No fundo, os dois edifícios mais altos de Vancouver: Shangri-la Tower e Trump Tower. (Imagem: Luís Henrique Bueno Villanova)

O resultado obtido foi uma intensa atividade urbana que se mescla a uma tipologia de edificação em altura de volumetrias híbridas. Os bairros de pavilhões industriais e armazéns de mantimentos Coal Harbor e Yaletown serviram como experimento para a realização da característica mais notável do fenômeno urbano que deu a identidade de Vancouver: as Point Towers.

“Point Towers” em Yaletown. (Imagem: MAJIM/Flickr)

Essa tipologia de edifícios combina torres residenciais esbeltas, de vinte a quarenta pavimentos, mais base, ora para moradia, ora para lojas ou escritórios de até cinco pavimentos; e as suas garagens, que não podiam ficar a olho nu, eram normalmente inseridas em subsolo ou miolo do quarteirão. Um tipo de edifício que servia de contraponto, até então, às edificações isoladas no terreno e com térreos vazios que vinham sendo construídas no centro da cidade. 

A intenção da mistura de volumetrias das Point Towers era criar ruas vibrantes para Vancouver. Essas edificações em grandes alturas possuíam o intuito de adensamento da região — colocar de fato mais pessoas morando no centro, com apartamentos desde studios a três dormitórios. Ao mesmo tempo, a vontade era permitir grandes visuais, maior insolação e ventilação das habitações. 

Para que houvesse essas condições, a prefeitura impôs um certo controle na altura das edificações, no objetivo de preservar corredores visuais para a cordilheira, localizada a vinte minutos do centro. Assim, para que sempre ocorra alguma uniformidade entre a paisagem da cidade e a paisagem natural, apenas em lugares específicos são permitidas alturas maiores pontuando o skyline. Dessa maneira estão inseridos os dois arranha-céus mais altos de Vancouver, Shangri-La Tower e Trump Tower, com 200 e 188 metros de altura, respectivamente. Localizadas na parte mais alta da West Georgia Street, essas edificações são como o cume de uma montanha do skyline produzido pelos edifícios de Vancouver.

Corredores Visuais de Vancouver. (Fonte: City of Vancouver Planning Department)

Já em relação à base das Point Towers, esta exerce as funções de moradia ou comércio, a partir do desejo de criar uma escala humana para a cidade verticalizada. Uma das maneiras de formar esta sensação foi com portas e janelas abrindo diretamente para a calçada. Os “olhos da rua” do térreo das altas edificações foram propostos para se tornarem townhouses, uma antiga tipologia de residência com três pavimentos, muito utilizada no período da revolução industrial na Inglaterra, semelhante ao conceito de “casas geminadas” conhecido no Brasil.

Townhouses na base das edificações “Point Towers”. (Imagem: Luís Henrique Bueno Villanova)

Mas porque townhouses em complexos de edificações na região central de Vancouver? 

Beasley explica que esse conceito foi introduzido a partir da chegada do planejador urbano Ray Spaxman ao desenvolvimento urbano de Vancouver. Com ideias oriundas de livros como “The Social Life of Small Urban Spaces”, Spaxman decidiu colocar em prática ideias de edificações que configurassem “streetwalls” para as ruas do centro de Vancouver. A ideia era basicamente que os edifícios, de preferência as suas bases, chegassem perto das calçadas. Esse pódio, porém, não poderia estar sem uso, pois a intenção era justamente a ativação da rua, e isto poderia ser resolvido, como em tantos lugares no mundo, destinando essa parte da edificação para o comércio local.

No entanto, urbanistas perceberam que nem toda a região teria demanda para lojas térreas, o que poderia resultar em espaços vazios por anos até que houvesse a plena ocupação. Desta forma, uma primeira evolução deste espaço nas Point Towers foi a sua destinação para infraestruturas condominiais, como piscinas, academias, salões de festas etc. Mas estes usos também não geravam a ativação desejada pelos planejadores da mesma forma que o comércio. Assim, decidiram experimentar um outro tipo de uso para a base com o seguinte questionamento: se as pessoas que se mudam para os subúrbios relatam como motivo escapar da vida de apartamento, por que elas não poderiam ter a oportunidade de morar no centro da mesma maneira vivida em bairros afastados? A partir desse questionamento, as townhouses passaram a ser a característica mais marcante das Point Towers da Vancouver de hoje. 

Com a ideia de transformar os pódios dos altos edifícios em casas geminadas poderiam ser mitigadas várias das questões levantadas. As residências de três ou quatro pavimentos poderiam suavizar a sensação de grande altura dos edifícios, mitigar o desejo das famílias de se mudarem para subúrbios, gerar permeabilidades visuais desde a rua através de janelas e ainda tornar possível as almejadas calçadas vibrantes em locais onde não havia demanda para o comércio. 

Baesley chega a relatar a dificuldade de convencer a implementação dessa tipologia. Em seu livro, menciona o preconceito contra a ideia, em um relato de que “[…] um arquiteto disse, ironicamente, que apenas uma prostituta optaria por uma casa geminada porque o trajeto para o trabalho seria curto”. Mas como o próprio autor conclui, os críticos estavam errados. As primeiras unidades lançadas de townhouses foram um sucesso de vendas e, em seguida, replicadas em grande quantidade nos empreendimentos da cidade.

Para quem visita Vancouver, as intenções dos projetos das Point Towers são nítidas para qualquer um. Basta uma caminhada ou um passeio de bicicleta pelas “seawalls”, as orlas destinadas ao lazer da população e que servem como barreiras contra possíveis avanços do mar, para notar as características próprias que se amarram a visões contemporâneas de edifícios em altura. 

Vista aéra de Vancouver. (Imagem: Rick Schwartz/Flickr)

A pesquisadora de edificações em altura, Terri Boake, em seu artigo “Base Conditions”, já dizia que os skylines são importantes indicadores da identidade de um lugar, porém o principal foco em um edifício em altura deve ser sempre a condição da base em relação ao local de inserção. E é isto que acontece em Vancouver. As altas torres residenciais mais suas bases ativas, seja com comércio ou com townhouses, dão caráter e vida a um centro que estava totalmente em declínio na década de 1980. 

A região central de Vancouver possui uma densidade superior a 18 mil habitantes por quilômetro quadrado, quase o dobro de bairros paulistanos como Itaim Bibi e Pinheiros, apresentando um crescimento populacional de 154% ao longo dos últimos trinta anos. Ainda assim, críticos à tipologia questionam a densidade proporcionada pela base mais torre das Point Towers. Dizem que o adensamento possibilitado por elas é o mesmo proporcionado por edifícios sem recuos e de menos altura, como os vistos em cidades como Paris ou Barcelona.

Em termos puramente quantitativos em relação à densidade, isso é verdade. No entanto, a altura passa a ser necessária quando outros fatores buscam ser considerados. O tamanho médio de unidades em Paris é em torno de 50 metros quadrados, enquanto em Vancouver é em torno de 75 metros quadrados, ou seja, 50% maiores. Sempre haverá um ponto onde, para atingir certas densidades, será imprescindível construir para cima, ao invés de correr o risco de incentivar uma diminuição no tamanho das unidades — que atualmente ocorre em Paris. Ainda, as escolhas feitas em Vancouver são opções amarradas a um ideal de cidade, em nome de preservações de visuais que a natureza da região proporciona, junto à necessidade de luz solar nos meses mais frios e chuvosos. Da mesma forma, a opção pelas inúmeras edificações em pele de vidro, que merecem ser criticadas em uma realidade brasileira ou tropical, se justificam tecnicamente no clima de Vancouver.

Efetivamente, a implementação de um modelo urbanístico proporcionado pelas Point Towers — com a alta densidade das torres residenciais e, ao mesmo tempo, com bases que permitem a ativação das ruas — resultou no aumento da vitalidade do coração da cidade, envolvendo espaços e transportes públicos de qualidade e ruas mais vibrantes em sua área central. Combinado a essas características, o compromisso com a preservação dos corredores de visuais, a fim de garantir o aproveitamento ao máximo das paisagens deslumbrantes, tanto da cidade como da natureza ao seu redor. Já que nossos planos diretores no Brasil incentivam os “paliteiros” e não conseguem se desvincular das exigências de recuos laterais, não seriam as Point Towers um modelo de inspiração para proporcionar ao menos calçadas ativas hoje prejudicadas por térreos vazios ou ocupados por vagas de garagem?

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