“O turismo mata os bairros”: como o AirBnB afeta as cidades – Parte 1

“O turismo mata os bairros!”: pixação anti-turistas na cidade de Barcelona. (Imagem: Twitter, CUP Sant Martí)

Cidades investem em turismo e proteção da cultura local de diferentes formas: construindo museus, protegendo seu patrimônio histórico com subsídios públicos ou restringindo seu desenvolvimento orgânico para preservar característica de determinado ponto da sua história.

Em busca do turismo global, cidades abriram suas portas para que pessoas do mundo inteiro pudessem conhecer esses locais, reforçando o caldeirão de culturas e possibilitando sociedades mais diversas. Tal fator também é diretamente relacionado ao enriquecimento da população global ao longo das últimas décadas. Apenas na China foram 500 milhões que saíram da extrema pobreza, gerando uma nova classe média com ambições de viajar e explorar outros países e culturas.

Entre as regiões que melhor aproveitaram esse boom do turismo está a Europa ocidental. Mesmo os países que investem pouco em turismo de forma direta, como a França, contam com orçamentos na casa dos bilhões para investimentos em cultura — um dos principais fatores na atração desses turistas na região. A União Europeia também conta com uma série de subsídios ao turismo na região, como o tradicional programa de intercâmbio Erasmus, que move cerca de €15 bilhões.

Esse incentivo artificial a locais já naturalmente atraentes fez com que a economia de muitos destes países passasse a se basear nessa atividade. O turismo é responsável por 18% do PIB da Grécia. Na Itália e na França os números chegam a 11% e 10%, respectivamente. Mesmo com as riqueza culturais e históricas inegáveis desses países, é possível imaginar que, sem esses investimentos massivos, as cidades e as economias desses países teriam evoluído de maneira muito diferente.

Por essas características que críticos como Ignasi de Solà-Morales comparam esses países com destinos exclusivamente criados para o turismo com os parques temáticos da Disney. Em uma análise controversa mas um tanto razoável, a vontade de “consumo turístico” dos visitantes é semelhante: uma família pode decidir visitar Roma ou visitar a Disney em suas férias, como produtos concorrentes. Tais visitas são feitas, muitas vezes, sem conhecer detalhes ou entender a relevância histórica do local, mas incentivadas pelo aspecto puramente fotográfico ou cênico de obras como o Coliseu ou a Torre Eiffel.


“Uma família pode decidir visitar Roma ou visitar a Disney em suas férias, como produtos concorrentes. Tais visitas são feitas, muitas vezes, sem conhecer detalhes ou entender a relevância histórica do local, mas incentivadas pelo aspecto puramente fotográfico ou cênico de obras como o Coliseu ou a Torre Eiffel.”


A ironia desses históricos investimentos e proteções arquitetônicas é que muitos moradores dessas cidades agora abominam seus turistas. Em Barcelona, um dos epicentros desse movimento, é possível ver pichações dizendo “El Turisme Mata Els Barris”, catalão para “O turismo mata os bairros”. As acusações se dão, em parte, pelo descaso dos turistas com o patrimônio histórico local, ao sobrecarregarem as ruas ou então beberem e comerem sobre ruínas milenares. No entanto, uma crítica mais sofisticadas e cada vez mais comum diz respeito à superpopulação, que estaria encarecendo a moradia nestas cidades. Tal fato é potencializado pelo aumento dos aluguéis de curta duração para viajantes através de plataformas digitais como o AirBnB.

O AirBnB é uma plataforma digital que facilita que proprietários de imóveis disponibilizem seus imóveis (inteiros ou parte deles) para aluguel de curta duração. É evidente que o AirBnB faz sucesso em cidades onde a demanda por estadias curtas é grande — de forma geral, cidades com alto potencial turístico. Minha cidade natal de Porto Alegre, por exemplo, não adesão tão significativa da plataforma, pois não há tal atratividade em grande escala. Já cidades como o Rio de Janeiro e São Francisco têm centenas de imóveis disponíveis pelo aplicativo, sinal de que realmente faltava opções mais acessíveis para este tipo de ocupação.

Ao facilitar muito o acesso a esses imóveis, o AirBnb logicamente afeta essas cidades. O número de visitantes tende a aumentar, já que o custo total da viagem diminui consideravelmente com a redução dos gastos com estadia. O mercado hoteleiro se vê cada vez menos relevante e, assim como os taxistas com a popularização do Uber, tentam proteger seus interesses. Mas será que a plataforma é realmente perigosa para a cidade, especialmente para seus habitantes que vivem de aluguel? Ou ela só responde a uma demanda que já existe, oferecendo a essas cidades todas as vantagens que o choque de diferentes culturas pode trazer?

Confira na segunda parte do artigo!

  1. “O turismo mata os bairros”: como o AirBnB afeta as cidades – Parte 2 | Caos Planejado

    […] afetadas drasticamente pelo turismo, que se tornou um fator importante no seu desenvolvimento. Na primeira parte deste artigo destaco como, ironicamente, essa abertura de portas incentivada pelo poder público deu origem a […]

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  2. Thomáz Sátiro

    “Tais visitas são feitas, muitas vezes, sem conhecer detalhes ou entender a relevância histórica do local” Bem, voce vai lá justamente para conhecer esses detalhes, geralmente acompanhado de um guia, como os famosos “free walking tour” 😛

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  3. Pedro Coelho

    Se o pessoal não sabe preservar os monumentos e a história das cidades, o problema não é turismo, é falta de educação.

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