“O turismo mata os bairros”: como o AirBnB afeta as cidades – Parte 2

Foto de escritório do AirBnb em Toronto. São Francisco, onde fica a sede da empresa, é uma das cidades que mais conta com imóveis disponíveis na plataforma — sinal de que realmente faltava opções mais acessíveis para este tipo de ocupação. (Imagem: Open Grid Scheduler, Creative Common)

Diversas cidades, de Veneza a Barcelona, têm sido afetadas drasticamente pelo turismo, que se tornou um fator importante no seu desenvolvimento. Na primeira parte deste artigo destaco como, ironicamente, essa abertura de portas incentivada pelo poder público deu origem a uma série de críticas por parte dos habitantes dessas cidades, que culpam turistas e iniciativas como o AirBnB por uma série de problemas — em especial o aumento dos valores dos aluguéis.

Com padrões rigorosos de avaliação cruzada tanto dos proprietários como dos próprios hóspedes, assim como políticas de seguro generosas, “ficar em um AirBnB” se tornou uma maneira mais barata e mais autêntica de viajar, já que o contato direto com moradores locais é muito mais intenso. Viajantes acabam, muitas vezes, se tornando amigos dos hospedeiros, em uma experiência muito diferente da que estamos acostumados com o setor hoteleiro tradicional.

Os fundadores do AirBnB apostaram em um conceito que poucos acreditavam dar certo: o da “economia colaborativa”. As pessoas se hospedariam na casa de estranhos em suas viagens a outras cidades? Os números mostram que sim: a plataforma já tem mais de 150 milhões de usuários, e a empresa é uma das startups mais valiosas do mundo.

Durante as Olimpíadas de 2016, o AirBnB fez uma parceria com a cidade do Rio de Janeiro para permitir que a ferramenta atendesse aos milhares de turistas sem obrigar a cidade a aumentar o número de hotéis de forma desnecessária. Já Belo Horizonte, que também recebeu jogos, agiu no sentido de incentivar a construção de hotéis para o evento, resultando em uma série de torres subutilizadas espalhadas pela cidade.

Embora cidades com maior número de imóveis no AirBnB sejam afetadas pela plataforma, não acho que os sinais de transformação estejam levando à morte das comunidades. Pelo contrário: elas estão deixando essas comunidades mais diversas, de acordo com os potenciais e as necessidades das suas cidades.

Demanda sazonal ou pontual: Rio de Janeiro entrou em um acordo com o AirBnb durante as Olimpíadas, o que ajudou a cidade a receber um número ainda maior de visitantes que a cidade já recebia. Belo Horizonte seguiu um caminho diferente. (Imagem: Edgardo W. Olivera, Creative Commons)

O que o AirBnB permite é equilibrar oferta para ocupações de curta duração em ambientes urbanos onde essa oferta não pode ser expandida. Fica claro que, em lugares onde o AirBnB faz sucesso, existia um déficit de imóveis ou quartos para curta duração — é exatamente por esse motivo que a plataforma se popularizou nessa região. Ou seja, o AirBnB permite que a própria natureza da cidade seja “desvendada”, já que existia uma necessidade de espaços para curta duração que não estava sendo atendida e que, até então, não era viável para o setor hoteleiro.

Isso, por si só, não configura destruição, mas transformação. Um bairro pode ser muitas coisas e ter múltiplos usos ao longo da sua vida. Dizer o que um bairro deve ser, obrigatoriamente e para sempre, é uma abordagem não diferente de um pensamento modernista, já obsoleto, que defende a “organização” da cidade, zoneando-a por atividades: setores residenciais, comerciais e industriais. Esse conceito é ultrapassado pois não só obriga as pessoas a se deslocarem (geralmente em automóveis individuais) para qualquer atividade, mas também porque congela o bairro em uma determinada característica pré-concebida.

O que é interessante sobre o cadastramento de um imóvel no AirBnB é quão dinâmica é essa mudança de perfil dos bairros. É possível que esse caráter de curta duração se perca com o tempo, e nada impede que esses imóveis sejam revertidos em residências permanentes. O mesmo não pode ser dito dos hotéis, que seriam a alternativa anterior para atender a demanda por estadias de curta duração. Os imóveis também podem ser cadastrados pontualmente, por motivo de grandes eventos que trazem um número não usual de visitantes, expandindo a capacidade para estas pessoas sem precisar construir uma oferta permanente de hotéis que não se sustentariam em outros períodos. 

O aumento do preço reflete um aumento na demanda pelo bairro com esta nova configuração. Os proprietários ganham com a valorização do seu imóvel, os comerciantes locais ganham com o aumento do movimento, os moradores e consumidores locais ganham com o aumento de opções. Porém, os problemas afloram quando a cidade limita rigidamente o seu crescimento, impossibilitando uma resposta natural a tal aumento de demanda por espaço: este é o efeito atual nestes grandes centros de turismo.


Não é possível que uma cidade restrinja sua oferta imobiliária para fins históricos, se torne extremamente atraente por causa disso, e queria, ao mesmo tempo, preços baixos e poucos turistas.”


Outra crítica às opções de estadia curta é o encarecimento da moradia para quem aluga, dado que proprietários tiram o imóvel do mercado de longa duração, resultando em um aumento de preço. Uma explicação para este fenômeno é que as leis de oferta e demanda da economia não permitem que todos as preferências em jogo sejam atendidas simultaneamente: não é possível que uma cidade restrinja sua oferta imobiliária para fins históricos, se torne extremamente atraente por causa disso, e queria, ao mesmo tempo, preços baixos e receber poucos turistas. Não há nada intrinsecamente errado em uma cidade querer preservar seu patrimônio histórico, mas isso terá um custo de oportunidade de crescimento, deixando de investir em matrizes econômicas não necessariamente ligadas ao turismo, e uma limitação da expansão da oferta imobiliária, trazendo aumento de preços frente a um aumento de demanda. Se Veneza ou Barcelona, por exemplo, permitissem a construção de edifícios com índices de aproveitamento de seus terrenos significativamente mais altos que os atuais, a tendência seria diminuir a pressão imobiliária — mas as cidades provavelmente perderiam o apelo turístico que possuem hoje.

A acusação de “ameaçar a vida de um bairro”, na verdade, seria coerente ao condená-lo a uma única característica para a eternidade. Um bairro vivo, por definição, se transforma ao longo do tempo, em forma, tamanho, uso e tipos de usuários. Como bem disse Jane Jacobs, em seu célebre “Morte e Vida das Grandes Cidades”,“Tratar de uma cidade, ou mesmo de um bairro, como se fosse um grande problema arquitetônico, capaz de ser resolvido através de um trabalho disciplinado de arte, é cometer o erro de tentar substituir a vida pela arte. Os resultados de tão profunda confusão entre arte e vida não são nem arte, nem vida. Eles são taxidermia.”

Cidades que decidem preservar suas características históricas geram algumas externalidades positivas para a humanidade e se tornam museus a céu aberto, mas não são vivas como Jacobs descreveu. Infelizmente é muito difícil ser um centro de turismo e de preservação da história e, ao mesmo tempo, uma cidade viva.

  1. Felipe

    Vocês são ótimos em entender como os incentivos interagem com a estrutura urbana das cidades, infelizmente a filosofia de vocês é totalmente torta, acho até desumano colocar a liberdade e a democratização das cidades acima de tudo, acima da estética e da preservação urbana por exemplo, fica aqui meu protesto à ideologia nefasta desse portal assim como meus parabéns pelas praticidade de suas propostas.

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  2. Weslley

    Achei o texto sensacional! A cidade deveria ser mais entendida como um ambiente extremamente orgânico e mutável. As legislações deveriam acompanhar e subsidiar a capacidade de surgimento de diversas formas de usos, relações e apropriação do tecido urbano. Achei as palavras do Felipe; tais como desumano e nefasta; um tanto quanto superlativas demais. Não entendo que o CP coloque a democratização acima de tudo. Mas entendo a importância da sua postura enfática de mostrar o quão prejudicial é a falta de um planejamento urbano mais democrático, sendo, principalmente, um facilitador de relações em micro escala urbana (comunidades, bairros).

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    • Felipe

      Eu acredito que uma verdadeira pluralidade pode existir respeitando os espaços urbanos preservados, em Paris ao invés de demolirem a cidade tradicional eles construíram um distrito comercial novo(La Défense), na minha opinião demolir os bairros históricos é a mesma coisa que apoiar a caça predatória, vai trazer benefícios econômicos no curto prazo mas vai impedir que as futuras gerações conheçam as espécies que forem extintas, no Brasil destruímos grande parte do nosso patrimônio histórico sob justificativa de abrir espaço para o progresso, na Europa foram mais espertos, preservaram suas cidades e hoje recebem milhões de turistas. Existe como democratizar nossos espaços urbanos sem destruir nosso patrimônio e ainda de cima gerar espaços agradáveis.

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      • Anthony Ling

        Anthony Ling

        Caro Felipe, obrigado pelo comentário. São discussões aprofundadas e pensadas como essa que mais incentivam nosso trabalho no Caos Planejado. Gostaria de responder a sua crítica de que “colocamos a liberdade e a democratização das cidades acima de tudo”. O que tentamos fazer aqui, normalmente, é deixar mais claras as consequências de determinadas regulações ou planos urbanos. Não sou “contra” uma cidade decidir preservar o seu patrimônio para finalidades históricas. No entanto, não é possível dissociar tal decisão de uma consequência de redução de vitalidade, adaptabilidade e manutenção do estoque habitacional mesmo com uma população crescente, afetando o preço e a acessibilidade da moradia. Tentei deixar isto claro na frase em destaque: “Não é possível que uma cidade restrinja sua oferta imobiliária para fins históricos, se torne extremamente atraente por causa disso, e queria, ao mesmo tempo, preços baixos e poucos turistas.”. Aliás, normalmente citamos aqui a solução de La Défense, que você mencionou, como criativa e positiva na tentativa de resolver essa dualidade, e é uma das soluções mais defendidas pelo Edward Glaeser, outro urbanista que referenciamos frequentemente por aqui. Fico feliz com sua preocupação com as cidades e estamos sempre à disposição para continuar a excelente conversa. Abraço!

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  3. Gabriel

    Repito a consideração inicial do comentário do Felipe, sendo extremamente bem-vinda essa abordagem que relaciona incentivos econômicos a modificações na estrutura urbana. Longe de achar, porém, a ideologia do blog “nefasta” ou alguma palavra mais pesada, eu também me preocupo com o menosprezo existente, implícito ou explícito, quando alguém resolve minimizar ou deslegitimar a questão da estrutura urbana e da evolução das cidades e dos bairros enquanto pauta política. Assuntos se “politizam”, via de regra, porque o mercado não consegue resolvê-los: ele é bem eficiente, por exemplo, em prover alimentos em quantidade, qualidade e variedade, de modo que quase ninguém hoje em dia clama pela coletivização da agricultura. A mesma economia de mercado, porém, não consegue fornecer segurança, saúde, educação e seguridade social para todos, tem dificuldades para financiar infraestrutura de longos prazo e sim, também é ineficiente internalizar as externalidades geradas pelo espaço urbano. Relegar a solução de tudo ao mercado e deixar de atender aos anseios dos cidadãos é permitir que a chama da fogueira populista ganhe mais corpo. Também sou contra soluções de comando e controle, mas algo tem que ser feito para conciliar os interesses em jogo, e eu não sei o que possa ser: impostos sobre turistas? Criação de distritos de negócios fora das zonas históricas à moda La Défense? Eu não sei o que pode ser feito, mas com alguma imaginação deve ser possível atingir um “segundo melhor” que satisfaça à grande maioria.

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  4. anônimo

    Quem escreveu isso nunca morou num bairro degradado e foi expulso quando o proprietário aumentou o aluguel em 100%. Ajuste orgânico se daria se cada hóspede procurasse e encontrasse por si só estadia. Uma corporação bilionária como ferramenta para direcionar populações inteiras para áreas antes resisdenciais ao sabor de quem pagar pela publicidade não é ajuste é predação. AirBnB causa o mesmo problema que os grandes resorts quando escolhem um local para construir. AirBnB = nuvem de gafanhotos.

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