Faça ciclovias e eles virão… Se forem protegidas, mais ainda
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Após a Rua Leôncio de Carvalho ser requalificada como rua compartilhada e calçadão, as mais de 10 mil pessoas por dia que atravessavam na esquina com a Paulista passaram a ter uma caminhada contínua e sem riscos de atropelamento.
2 de junho de 2025Você sabe o que é rua compartilhada e a sua função? Segundo o Dérive LAB, uma rua compartilhada é um tipo de projeto urbano em que a rua é nivelada em uma única superfície contínua, promovendo um espaço mais integrado. Essa configuração prioriza a circulação de pessoas a pé, tornando o ambiente mais seguro e agradável para caminhar. Ao mesmo tempo, ela também permite a convivência com outros modos de deslocamento, como bicicletas e carros, mas em velocidades reduzidas.
Em São Paulo, a Rua Leôncio de Carvalho, adjacente à Avenida Paulista, um dos principais eixos urbanos da cidade, é um dos bons exemplos de rua compartilhada. Há um ano, o local passou por uma requalificação que mudou completamente sua função na região.
O espaço, antes dominado pelo asfalto e por áreas dedicadas ao tráfego de carros segregados das calçadas, foi transformado em um boulevard voltado à convivência e aos deslocamentos a pé. A intervenção reflete um esforço para romper com o modelo urbano convencional, centrado nos veículos motorizados, e resgatar o espaço público como lugar de descanso, encontro e mobilidade.

A principal transformação foi a criação de um calçadão em um dos trechos da via, que se tornou exclusivo para circulação a pé, sem acesso de veículos, e agora funciona como uma praça. No restante da rua, agora sem saída para carros, foi implantado um modelo de rua compartilhada. O asfalto deu lugar ao piso intertravado no mesmo nível da calçada, convidando as pessoas a caminharem por todo o espaço.

O Instituto Caminhabilidade realizou um estudo em parceria com o SESC que resultou no relatório “Análises de Caminhabilidade e Usos: Rua Leôncio de Carvalho”. O documento apresenta os impactos dessa transformação, revelando dados promissores. Ao comparar os dados de circulação de pessoas e veículos e as atividades na rua entre 2022 (antes da transformação) e 2024 (depois da transformação), constatou-se uma melhora na caminhabilidade e um aumento na diversidade de atividades no espaço.
Leia mais: Caminhabilidade, o que é?
De acordo com o estudo, a proporção de deslocamentos a pé na Rua Leôncio de Carvalho aumentou significativamente, passando de 54,6% para 86,5%. Enquanto isso, o uso de carros caiu de 26% para 7,1% dos deslocamentos.

Os resultados são fruto da combinação de diferentes metodologias de análise de uso e desenho urbano, como contagem de fluxos e observação de atividades, além da aplicação do Índice Cidadão de Caminhabilidade.
Com a alteração da distribuição do espaço, mais da metade da área da rua (54,35%) está dedicada exclusivamente aos pedestres, e o restante é área compartilhada entre veículos e pessoas. Antes, menos da metade do espaço (43,05%) era para quem estava a pé e o restante era para os veículos. Ou seja, houve um aumento de 26% no espaço exclusivo para pedestres.
O Índice Cidadão de Caminhabilidade, que avalia as condições das ruas para as pessoas com base em seis aspectos do espaço — ambiente, fachada, mobiliário, comunicação, conexão e caminho —, também teve um resultado positivo, aumentando de 2,4 para 4 em uma escala de 6 pontos.

As camadas mais bem avaliadas após a intervenção foram o caminho, que analisa a travessia, o espaço e o piso, seguido do ambiente, que avalia a frequência de pessoas, sons e cheiros.
Embora a Leôncio seja um exemplo de caminhabilidade e segurança, ainda temos uma longa jornada para que as cidades sejam mais adaptadas para quem está a pé. Apenas nos dois primeiros meses de 2025, 53 pessoas morreram atropeladas nas avenidas da capital paulista, um aumento de 30% no número de mortes por atropelamento se comparado ao mesmo período de 2024, que registrou 41 casos.
Esses números evidenciam a urgência de ampliar iniciativas de requalificação urbana e desenho de ruas mais seguras com foco nas pessoas, como a realizada na Leôncio. O planejamento urbano centrado no carro historicamente tem gerado cidades insustentáveis e espaços urbanos inacessíveis e mais inseguros, principalmente para grupos que caminham mais, como crianças, idosos, mulheres e pessoas com deficiência.
Leia mais: As 3 melhores iniciativas públicas para caminhabilidade no Brasil
Não por acaso, já estamos na segunda Década de Segurança Viária da ONU (2021 a 2030), que considera as mortes no trânsito uma epidemia global e evitável. As ações principais são a diminuição das velocidades nas cidades e o desenho de ruas que priorizam deslocamentos ativos para diminuir as fatalidades. A chamada “visão zero” acredita que nenhuma dessas mortes é aceitável e que é possível zerar esse número com políticas públicas responsáveis.
Desenhos de rua inovadores e centrados no pedestre ajudam as pessoas a conhecerem e reivindicarem ruas mais seguras e acolhedoras, criando modelos para a cidade.
Diante de ideias que deram protagonismo ao automóvel particular por décadas, nosso planejamento urbano muitas vezes deixou de lado os pedestres e ciclistas. Porém, sabemos que colocar as pessoas em primeiro lugar é um passo fundamental para tornar as cidades melhores para todos. Se você quer saber mais sobre o que deveria ser diferente no urbanismo brasileiro, conheça o curso “Do Planejamento ao Caos“.
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