Do trabalho ao transporte: como o calor extremo está mudando a vida urbana
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Do trabalho ao transporte: como o calor extremo está mudando a vida urbana

O aumento das temperaturas está colocando à prova a funcionalidade das cidades, da eficiência do transporte à produtividade do trabalho informal. O desenho urbano e as infraestruturas resilientes são fundamentais para que as metrópoles continuem habitáveis.

16 de fevereiro de 2026

Ao meio-dia em Mathare, um assentamento informal densamente povoado em Nairóbi, no Quênia, o sol castiga as fileiras apertadas de barracos de madeira e telhados de chapa metálica ondulada. A uma altitude de 1.795 metros, Nairóbi é há muito tempo conhecida por seu clima temperado. No entanto, nos últimos anos, o calor tornou-se um problema inevitável — especialmente nos assentamentos informais, que podem ser até 5°C mais quentes do que o restante da cidade.

Em Mathare, os vendedores de rua locais que comercializam produtos frescos e peixes contavam com um fluxo constante de clientes ao longo do dia. Agora, o calor frequentemente estraga suas mercadorias antes mesmo que possam ser vendidas.

“Se a venda não for rápida, eles enfrentam grandes prejuízos ao final do dia”, afirma Michelle Koyaro, associada de programas da Slum Dwellers International (SDI) Quênia. Alguns comerciantes passaram a vender nas noites mais frescas, mas o fluxo de clientes é menor nessas horas. Em vez disso, após longas jornadas sob o sol forte, os vendedores retornam para casa com dores de cabeça e baixos rendimentos.

Comerciantes em uma rua de Mathare, Nairóbi (Quênia). Foto: Ninara/Flickr

Em cidades ao redor do mundo, o calor extremo não é mais um evento de curta duração ou um transtorno sazonal. É uma pressão diária crescente que está redesenhando a forma como as pessoas vivem, se deslocam e trabalham — e a situação está se agravando.

O calor é uma ameaça à saúde amplamente documentada. Segundo a Organização Mundial da Saúde, quase 500.000 pessoas morrem anualmente por causas relacionadas ao calor — um número que deve aumentar em 50% até 2050. Mas a crise extrapola a saúde pública: o calor também está minando economias, infraestruturas, sistemas sociais e o bem-estar dos residentes em centros urbanos globais.

À medida que as temperaturas sobem, as cidades enfrentam um desafio complexo, urgente e interconectado. O calor não é um problema isolado. Para se adaptarem de forma eficaz, as cidades precisam entender como o aumento das temperaturas está transformando e ameaçando múltiplos aspectos da vida urbana — e reconhecer que não estão sozinhas nos desafios que enfrentam.

Atualmente, mais de 350 cidades em todo o mundo lidam com temperaturas acima de 35°C no verão, e esse número só crescerá conforme o clima aquece. As cidades possuem um enorme potencial de aprender umas com as outras — o que funcionou e o que falhou — enquanto se adaptam ao calor e trabalham para mitigar seus piores impactos.

Neste artigo, sob a ótica de quatro setores essenciais — saúde, transporte, emprego e produtividade econômica — examinamos a cadeia de efeitos do calor nas cidades e oferecemos soluções tangíveis e escaláveis que os municípios podem utilizar para desenvolver estratégias eficazes e de longo alcance.

Leia mais: Projetando cidades menos quentes: lições das civilizações antigas

Saúde: priorizando o bem-estar em cidades cada vez mais quentes

Qualquer pessoa que já passou tempo ao ar livre em um dia de calor extremo sabe o quão exaustivo isso pode ser — dores de cabeça, desidratação, fadiga e dificuldade de concentração. Mas o que acontece quando essa exposição é constante — não apenas por algumas horas, mas todos os dias? Os efeitos no corpo podem passar de desconfortáveis para perigosos.

A exposição prolongada ao calor pode sobrecarregar órgãos vitais como o coração e os rins, prejudicar o sono, causar estresse mental e agravar condições crônicas, como asma e doenças cardiovasculares. Pesquisadores projetam que a exposição de longo prazo ao calor se tornará a norma, com partes da África, Sul da Ásia e América Latina entre as mais afetadas.

O calor extremo representa um desafio particular para residentes urbanos de baixa renda, que podem viver em habitações com ventilação precária ou trabalhar ao ar livre. Ao longo do dia, a exposição prolongada ao calor potencializa os riscos enfrentados. Crianças, gestantes e idosos são especialmente vulneráveis.

Endereçar esses riscos exige uma abordagem multifacetada que atue tanto no curto quanto no longo prazo. De imediato, as cidades precisam investir em intervenções que reduzam a exposição nos locais onde as pessoas passam o tempo ou que ofereçam opções para escapar do calor. Sistemas de alerta antecipado, como os de Atenas e Buenos Aires, avisam os residentes sobre ondas de calor iminentes e oferecem orientações práticas de segurança.

Centros de resfriamento públicos — espaços comunitários com ar-condicionado ou ventiladores e água potável — podem reduzir ameaças imediatas à saúde ao fornecer refúgio temporário. Em Jodhpur, na Índia, que lida com ondas de calor intensas, um abrigo de resfriamento de emissão zero equipado com ventiladores de nebulização, painéis solares e uma torre de vento que circula ar mais fresco passivamente oferece alívio para quem precisa estar na rua. Internamente, as temperaturas chegam a ser 12°C mais baixas do que do lado de fora.

Em Phoenix, Arizona — a cidade mais quente dos Estados Unidos — um centro de resfriamento 24 horas atraiu milhares de visitantes durante o período mais quente de 2024, incluindo pessoas em situação de rua, que são muito mais propensas a morrer por causas relacionadas ao calor. Esse local, somado a outros esforços de preparação da cidade — como conectar pessoas a recursos para reparos em ar-condicionado — contribuiu para uma queda de 20% nas chamadas de emergência relacionadas ao calor. Mesmo breves pausas em espaços frescos demonstraram reduzir o estresse fisiológico e cardiovascular.

No entanto, só os centros de resfriamento não são suficientes. As cidades também devem investir em estratégias de longo prazo para expandir a habitação resiliente ao calor e reduzir as ilhas de calor urbanas em locais onde os residentes passam o tempo: na escola, no trabalho ou em deslocamento. O aumento da infraestrutura verde e da cobertura vegetal pode reduzir as temperaturas máximas em até 5°C.

Em assentamentos informais, onde os telhados são frequentemente feitos de materiais que retêm calor, como aço galvanizado, programas de urbanização de favelas com caráter participativo — que envolvem diretamente os moradores na melhoria de suas condições de vida — podem aumentar substancialmente a resiliência e a saúde. Por exemplo, pesquisas mostram que a instalação de telhados “frios” (como superfícies refletivas ou vegetação) em moradias informais pode reduzir a exposição dos residentes ao calor extremo em até 91% ao longo de um ano.

Esforços de longo prazo para reduzir a exposição ao calor e os riscos de saúde associados devem ser baseados em dados que incluam o potencial de soluções eficazes. Estudos podem revelar não apenas quão quentes certas áreas podem ficar, mas também as diversas formas como as comunidades enfrentam os ônus relacionados ao calor. Isso ajuda as cidades a priorizarem onde focar as medidas de resiliência. 

Transporte: mantendo as cidades em movimento em um mundo mais quente

Um pilar essencial da vida urbana é a capacidade de se deslocar de forma segura e eficiente. Enquanto mais cidades adotam opções de transporte sustentável e de emissão zero, como ônibus elétricos, ciclismo e caminhada, o calor extremo está levando as pessoas a ficarem em casa ou a dependerem mais do carro.

Um estudo de 2024 em diversas cidades dos EUA, incluindo Chicago, Atlanta, Houston e Nova York, revelou que, em dias de calor extremo, as viagens no transporte público caem, em média, 50%, conforme os usuários optam por veículos com ar-condicionado. No entanto, para muitos que não possuem acesso a um automóvel, não há uma solução fácil. Sem sombreamento adequado ou proteção térmica nos pontos de parada — um problema crônico em muitas cidades — os usuários do transporte público enfrentam riscos elevados de exposição ao calor. Em Los Angeles, por exemplo, apenas um quarto dos pontos de ônibus oferece abrigo, apesar das temperaturas frequentemente altas.

Ponto de ônibus sem abrigo no sol de Los Angeles. Foto: Google Earth

O uso da bicicleta também diminui durante o calor extremo. Em Nova York, uma análise do sistema de bicicletas compartilhadas mostrou que o uso caiu cerca de um terço em dias em que as temperaturas excederam os 28°C. Ao mesmo tempo, o calor extremo também pode intensificar a poluição do ar. Isso significa que, quando as pessoas evitam opções de transporte sustentável em dias quentes, contribuem para a piora da qualidade do ar, agravando os riscos à saúde dos residentes mais vulneráveis.

As cidades não devem apenas promover modos de transporte sustentáveis, mas também garantir que as pessoas possam viajar com segurança e conforto, independentemente de renda ou capacidade física. Para o transporte coletivo, como ônibus e VLTs, o aumento da frequência do serviço reduz o tempo que as pessoas passam expostas ao calor durante a espera. A instalação de estruturas de sombreamento nos pontos e o plantio de árvores ou paredes verdes também podem mitigar o ônus térmico nesses espaços de alta rotatividade.

Os corredores verdes — faixas conectadas de espaços com árvores, jardins ou parques que interligam diferentes partes da cidade — podem criar uma rede de ruas mais frescas para ciclistas e pedestres. Medellín, na Colômbia, demonstrou os benefícios de integrar o paisagismo urbano à mobilidade sustentável. Desde 2016, o programa de corredores verdes da cidade conectou mais de 30 vias principais com cobertura arbórea, jardins verticais e espaços verdes. Análises mostram que os corredores reduzem as temperaturas em média 2°C, diminuem os níveis de poluição do ar e incentivam mais viagens a pé ou de bicicleta. Da mesma forma, estudos em Houston (EUA) e Shenzhen (China) concluíram que a cobertura arbórea e o verde na escala humana sustentam taxas mais altas de ciclismo.

Leia mais: Bicicletas em climas quentes: superando desafios e promovendo a mobilidade sustentável

Emprego: preparando a força de trabalho para o calor extremo

O impacto do calor na economia das cidades é multifacetado. Para pessoas que trabalham informalmente ou por hora, as ondas de calor reduzem a produtividade, comprometem a segurança no trabalho e diminuem a renda. Em Dhaka, Bangladesh, setores de manufatura, como o têxtil e a construção civil, já registram perdas de renda em torno de 10%, pois a exposição ao calor prejudica a eficiência em armazéns, canteiros de obras e fábricas. Quando um trabalhador produz menos, ele ganha menos. No nível do setor, a produção mais lenta reduz a receita, o que enfraquece a economia local como um todo.

O Centro de Resiliência Climática do Atlantic Council observa que as mulheres, especialmente em ocupações informais, são particularmente vulneráveis. Nos mercados têxteis de Nova Déli, as trabalhadoras passam as manhãs costurando e embalando fardos de roupas para o transporte. Contudo, como as entregas só são permitidas à tarde, elas são obrigadas a se deslocar durante o horário de pico do calor — muitas vezes com seus filhos —, expondo-se a altos níveis de estresse térmico.

O calor extremo não afeta apenas indivíduos; ele traz um custo elevado para as cidades como um todo.

Para construir resiliência térmica nas economias urbanas, as cidades precisam priorizar a segurança tanto no nível individual quanto no sistêmico. Governos podem criar políticas de proteção ao trabalhador. O Plano de Ação contra o Calor da Califórnia (2022), por exemplo, recomenda medidas de segurança para trabalhadores externos e internos. Além disso, um relatório de 2024 da Organização Internacional do Trabalho sugere ações que podem ser adaptadas em políticas públicas, incluindo pausas obrigatórias, aplicação de normas de resfriamento e ventilação em edifícios e regulamentação da temperatura máxima de exposição no trabalho.

As cidades também devem engajar-se diretamente com os trabalhadores em situação de maior risco. Em Freetown, Serra Leoa, a Diretora de Assuntos sobre Calor, Eugenia Kargbo, liderou esforços para instalar coberturas resistentes às intempéries e com proteção UV sobre as bancas de vendedores — muitas delas geridas por mulheres — a fim de protegê-los do calor intenso da cidade.

Produtividade econômica: o custo sistêmico do calor

O calor extremo não afeta apenas indivíduos; ele traz um custo elevado para as cidades como um todo. Na região metropolitana de Los Angeles, as perdas de produtividade impulsionadas pelo calor são estimadas em US$ 5 bilhões por ano.

As cidades também enfrentam o aumento da demanda por energia, danos à infraestrutura e maiores gastos nos sistemas de saúde pública. Um relatório do Banco Mundial estima que, em Bangkok, um aumento de 1°C na temperatura pode elevar os custos de energia em 17 bilhões de baht (cerca de meio bilhão de dólares). Uma onda de calor em 2023 em Houston fez com que estradas dilatassem e deformassem, gerando reparos caros para o município. Em Londres, uma onda de calor em 2022 revelou outra vulnerabilidade: quando as temperaturas atingiram 40°C, os centros de processamento de dados de dois hospitais falharam, causando semanas de atrasos no atendimento aos pacientes e um custo de reparo de 1,4 milhão de libras.

Estrada danificada após onda de calor em Houston em 2023. Foto: Departamento de Transporte do Texas

Para as cidades resguardarem suas economias, o investimento em infraestrutura resiliente em larga escala — como corredores verdes, telhados frios, pavimentos reflexivos e estruturas de sombreamento estratégico — é essencial, assim como os esforços para proteger trabalhadores. Não existe uma solução única, mas cada medida que protege a saúde das pessoas, mantém os sistemas de transporte e apoia a produtividade fortalece, coletivamente, a economia.

Construindo resiliência em um mundo em aquecimento

O calor urbano extremo está redesenhando os próprios sistemas que mantêm as cidades funcionando — da saúde ao transporte às atividades econômicas. Construir resiliência, tanto para o vendedor de rua em Mathare quanto para as linhas de ônibus em Chicago, é vital para proteger o bem-estar e sustentar a estabilidade econômica. Ao planejar essa resiliência, as cidades podem aprender umas com as outras para priorizar soluções eficazes e oportunas.

Artigo publicado originalmente em The City Fix, em junho de 2025.

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