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Enquanto continuarmos planejando cidades de forma desconectada de seus sistemas naturais, seguiremos surpreendidos por enchentes esperadas e perdas evitáveis.
22 de janeiro de 2026Por mais de um século, cidades foram planejadas e construídas como se as águas fossem um problema técnico a ser resolvido por engenharia pesada: tubos, galerias e concreto armado. Rios foram canalizados, retificados, enterrados ou transformados em infraestruturas de escoamento. Essa lógica, enraizada no urbanismo higienista emergente na segunda metade do século 19 (como no caso da Paris haussmanniana) e consolidada no Brasil no início do século 20 (como no caso de intervenções sanitaristas e de embelezamento em Belo Horizonte, Santos e Rio de Janeiro), parte da equivocada premissa de que é possível dissociar a cidade de seus sistemas naturais. Ignorou-se que rios são sistemas vivos, dinâmicos, com regimes variáveis, dependentes da topografia, da vegetação e do uso do solo em toda a bacia. Assim, a urbanização do século 20 produziu cidades que cresceram de costas para seus rios. Hoje, as enchentes que assolam cidades e que se intensificam a cada novo evento extremo mostram que essa abordagem falhou.

Para refletir sobre como o processo de urbanização pode ser associado à natureza, parto da premissa de que a bacia hidrográfica, território delimitado por divisores naturais do relevo no qual a água converge para o curso d’água principal, é a unidade de planejamento da natureza. As cidades, porém, ao operarem a partir de limites administrativos, ignoram que aquilo que acontece a montante impacta, inexoravelmente, a vida de todos a jusante. Quando impermeabilizamos o solo, ocupamos fundos de vale, suprimimos matas ciliares ou lançamos efluentes nos cursos d’água, estamos apenas deslocando o problema no espaço e no tempo. O resultado é conhecido: alagamentos, perdas materiais, mortes evitáveis e a naturalização do desastre.
No século 21, essa negação cobra seu preço. Chuvas intensas encontram cidades mais impermeáveis, cursos d’água confinados e grupos vulneráveis ocupando áreas de risco. A exclusão histórica do acesso à moradia formal empurrou parcelas da população para fundos de vale, várzeas e margens de rios, onde o solo é mais barato, ou simplesmente disponível nos mercados informais. Essas áreas concentram riscos que não são distribuídos de maneira aleatória, mas seguem padrões raciais e de classe social. Quando o rio transborda, ele não escolhe suas vítimas, mas expõe desigualdades que estruturam a cidade. O desastre, portanto, não é natural, mas socialmente produzido. Tratar enchentes apenas como um problema de drenagem é insistir em uma leitura reducionista que já se demonstrou insuficiente.
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Ao mesmo tempo, as decisões que agravam esses riscos raramente são tomadas por quem sofre suas consequências diretas. Empreendimentos imobiliários a montante, impermeabilização de grandes glebas, supressão de áreas verdes e flexibilização de legislações ambientais produzem efeitos cumulativos que recaem sobre populações que vivem a jusante. O rio, nesse sentido, funciona como um fio condutor das externalidades urbanas ao carregar consigo os impactos das escolhas feitas ao longo de toda a bacia.
A literatura recente tem exposto a necessidade de uma mudança de paradigma. Não se trata apenas de melhorar sistemas de drenagem, mas de repensar a própria forma como as cidades se inserem nos ecossistemas. Soluções baseadas na natureza, como parques alagáveis, jardins de chuva, recuperação de várzeas e renaturalização de cursos d’água oferecem respostas adaptativas e resilientes. Diferentemente de canais de concreto, essas soluções aceitam a dinâmica do rio, dão espaço para que ele transborde quando necessário e reduzem a energia destrutiva das cheias. O conceito de cidades-esponja, amplamente discutido em experiências asiáticas, parte justamente dessa premissa: reter, infiltrar e retardar a água da chuva ao longo do território urbano conforme a topografia. Isso exige uma leitura detalhada do relevo para que a urbanização esteja adequada a seus complúvios e displúvios. Não é uma solução mágica, tampouco barata, mas é estruturalmente mais eficaz do que o paradigma atual de remediação.
Essa transição, entretanto, esbarra em obstáculos institucionais e políticos. A fragmentação administrativa dificulta a gestão integrada de bacias hidrográficas, que frequentemente atravessam múltiplos municípios com interesses divergentes, e cada cidade tende a resolver (ou não!) seu problema local, ainda que isso signifique agravá-lo para o vizinho. Isso explica parte do problema enfrentado por Porto Alegre durante as chuvas de maio de 2024: a cidade que se desenvolveu às margens do Guaíba lida com a confluência de cinco rios que vêm da serra. Em casos como esse, falta governança efetiva com pactos intermunicipais vinculantes, e sobram lógicas de curto prazo, orientadas por auxílios pontuais e por obras ligadas a ciclos eleitorais.

Curitiba e sua região metropolitana, apesar de terem soluções pontuais, também ilustram essa contradição. Embora a capital ostente uma imagem de cidade ambientalmente planejada, a ocupação de áreas de mananciais, a expansão urbana periférica e a segregação socioambiental revelam limites claros desse modelo. O crescimento metropolitano, principalmente a leste (onde nasce o Rio Iguaçu, cuja foz formará as Cataratas do Iguaçu), motivado pela internacionalização e desenvolvimento da indústria, levou à formação de assentamentos informais que emergiram aceleradamente a partir dos anos 1990, aumentando a pressão sobre o sistema hídrico e expondo populações vulneráveis a riscos.
Antes de tudo, é preciso reconhecer a natureza como sujeito, e não como mera infraestrutura de suporte. Rios possuem funções ecológicas, culturais e sociais que extrapolam o cálculo hidráulico. Os povos originários compreendem melhor essa dimensão relacional da água, tratando rios como entidades vivas, dotadas de significado e limites. Ignorar esse saber é, antes de tudo, um erro epistemológico.
Há também implicações diretas para a política habitacional. Adaptar as cidades às novas realidades climáticas demandará, inevitavelmente, remoções em áreas de alto risco, sobretudo em leitos de rios e encostas instáveis. Essas remoções, contudo, não podem repetir a história de deslocamentos forçados e gerar um novo ciclo de periferização. É fundamental que sejam acompanhadas de políticas de reassentamento dignas, bem localizadas e integradas à malha urbana, rompendo a lógica que empurra os mais pobres de volta para novas áreas de risco.
Leia mais: A solução para as enchentes não é inviabilizar a cidade
A expansão urbana precisa ser efetivamente controlada. Instrumentos urbanísticos como a outorga onerosa do direito de construir ou de alteração de uso podem funcionar como mecanismos de contenção da conversão indiscriminada de solo natural em loteamentos, internalizando parte dos custos ambientais da urbanização. Do mesmo modo, legislações urbanas precisam ser rigorosas na proteção de matas ciliares e áreas de amortecimento de cheias, ao mesmo tempo em que orientam o adensamento qualificado em áreas já urbanizadas como estratégia para conter o espraiamento urbano e a impermeabilização de novos territórios. Tratar essas diretrizes como entraves ao desenvolvimento é insistir em um modelo que produz crescimento econômico no curto prazo e aprofunda riscos socioambientais no longo prazo.
Além disso, cinco grandes vantagens podem ser extraídas de uma melhor relação com os rios urbanos:
1) Drenagem urbana: parques lineares e áreas alagáveis amortecem cheias e reduzem picos de vazão e o risco de alagamentos. Curitiba é um exemplo emblemático ao implantar parques alagáveis ao longo de seus fundos de vale décadas antes da popularização das “cidades-esponja”, incorporando a lógica da retenção e do extravasamento controlado da água ao desenho urbano.
2) Biodiversidade e qualidade da água: a recuperação de matas ciliares, a renaturalização de cursos d’água e a eliminação do lançamento de efluentes contribuem para a recomposição de ecossistemas urbanos, criando corredores ecológicos e reduzindo processos como a eutrofização, frequentemente associados à canalização e à estagnação da água em ambientes artificiais.
3) Conforto ambiental: rios e áreas verdes associadas atuam como reguladores microclimáticos, atenuando ilhas de calor e aumentando a umidade relativa do ar, fatores cada vez mais relevantes no contexto do aquecimento global.
4) Usos sociais e de lazer: a criação de espaços públicos qualificados ao longo dos cursos d’água fortalece vínculo simbólico com a paisagem hídrica e ressignifica a relação entre as atividades urbanas e os elementos naturais.
5) Eventualmente, os usos sociais e de lazer podem incluir o transporte fluvial urbano, tanto para mobilidade de cargas e de passageiros, quanto para fins turísticos.
O debate sobre rios urbanos, portanto, não é apenas técnico, nem exclusivamente ambiental. Ele é profundamente político. Trata-se de decidir quem pode ocupar quais territórios, quem assume os riscos e quem se beneficia das escolhas feitas ao longo da bacia. Enquanto continuarmos planejando cidades como ilhas administrativas desconectadas de seus sistemas naturais, seguiremos surpreendidos por enchentes esperadas. O que acontece a montante impacta a vida de todos a jusante, e isso deveria ser encarado como princípio ético para o urbanismo contemporâneo. Se a cidade do século 21 quiser existir de forma perene, precisará abandonar a ilusão de controle absoluto sobre a natureza e assumir uma postura de convivência, adaptação e responsabilidade compartilhada.
Rafael Kalinoski é professor de Urbanismo no Centro Universitário de Tecnologia de Curitiba e na Escola de Administração Pública da Prefeitura Municipal de Curitiba. É arquiteto e urbanista, mestre em planejamento urbano e doutor em gestão urbana. Atua como pesquisador visitante na PUC-PR, e como consultor no escritório de arquitetura novaiorquino Rawlins Design.
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