“Cidades e a Riqueza das Nações” por Jane Jacobs

“Cidades e a Riqueza das Nações” por Jane Jacobs, ilustração por Nicole Rossi

 

Nenhum escritor dos últimos 60 anos influenciou tanto o planejamento e o pensamento urbano quanto Jane Jacobs. Parece que quase qualquer um que já colocou seu pé em uma grande cidade leu “A Morte e a Vida das Grandes Cidades Americanas” e que a maioria dos planejadores urbanos profissionais abraçaram pelo menos parte de suas ideias. Mas esse não é o único livro que ela escreveu e os outros merecem a igual atenção dos urbanistas.

Publicado pela primeira vez em 1984, “Cidades e a Riqueza das Nações” foi seu último livro focado em cidades e seu segundo focado na economia. Partindo de “A Economia das Cidades”, concebido no auge da estagflação dos anos 70, Jacobs trouxe suas consideráveis habilidades polêmicas para abordar a macroeconomia, elaborando suas observações anteriores.

Nesse livro, ela teorizou que a expansão econômica nas cidades era impulsionada pelo comércio, a inovação e a imitação, num processo que ela chamou de “substituição de importações”. Neste, ela estendeu ainda mais a ideia, argumentando que as cidades e não os estados-nações seriam as verdadeiras unidades básicas da vida macroeconômica. Ela também examinou como a expansão econômica afetava as regiões em diferentes proximidades geográficas e como a substituição de importações e a riqueza gerada por este processo podem ser influir de forma que, em última instância, minem as habilidades das cidades para criar riqueza, o que ela chamou de transações de declínio.

A “substituição de importações” é uma das ideias mais controversas de Jacobs, em parte porque se assemelha a uma política de desenvolvimento desacreditada de mesmo nome e parcialmente porque sua evidência é em grande parte anedótica, como descreve Alon Levy em 2007.

Entretanto, o conceito é a peça central das teorias econômicas de Jacobs. E diminuir seu mérito com base na falta de credenciais convencionais é ignorar toda a sua ascensão à fama e sua influência.

Dois aspectos importantes distinguem o conceito de Jacobs da política desenvolvimentista de mesmo nome. A substituição de importações é uma política nacional seguida pelos governos com impostos, tarifas e subsídios, enquanto a substituição de importações de Jacobs é um processo que vem da imitação e inovação empresarial. Outra distinção importante é que a primeira diz respeito às importações internacionais, mas a segunda se aplica a todas as importações, incluindo as “intranacionais”.

Outra consideração importante a favor do conceito de Jacobs é seu poder explicativo. Tanto conservadores como libertários ficam confusos com a maneira que governos com impostos baixos e Estado limitado, como o do estado do Kansas, não prosperam, mas a Califórnia, que parece fazer de tudo para impedir a prosperidade – quase que de uma maneira maoísta – produz milionários aos montes. Para Jacobs, a resposta é clara: a Califórnia tem inúmeras cidades que “substituem importações”, já o Kansas não tem nenhuma.

Pode-se dizer também que a substituição de importações de Jacobs poderia ter previsões mais testáveis do que a macroeconomia convencional. A cidade de Nova Iorque, na década de 1990, por exemplo, seria um bom lugar para testá-la. Outro bom local de teste seria o Japão, que, como observa Noah Smith, é onde as teorias macroeconômicas vão para morrer.

Depois de introduzir os conceitos de substituição de importações e crescimento econômico liderado pela cidade, ela se volta para os efeitos da expansão econômica da cidade fora do território da cidade, escrevendo que esta “desencadeia cinco grandes forças econômicas de expansão: mercado dentro da cidade para novas e diferentes importações; aumento abrupto de empregos na cidade; tecnologia para aumentar a produção rural e a produtividade; trabalho urbano transplantado para áreas rurais; capital gerado pela cidade”; e essas forças podem funcionar de forma desequilibrada em algumas regiões. A introdução de tecnologia que melhora a produtividade rural sem o trabalho urbano transplantado para áreas rurais ou um mercado para um tipo diferente de trabalho resultaria em desemprego generalizado; A combinação de capital da cidade e novos mercados de cidades poderia transformar uma área em uma economia colonial ou “região de oferta”, como Jacobs a define e assim por diante.

A seção que descreve os efeitos das cidades em regiões periféricas é incrivelmente relevante bem como a parte melhor escrita do livro. Nós somos introduzidos aos falhos programas muito louvados comor o “Tennessee Valley Autority”, o “Puerto Rico’s Operation Bootstrap” e outros programas de “desenvolvimento econômico” que competem uns com os outros em todo o mundo para oferecer aos negócios os melhores subsídios e os menores impostos – uma corrida global ao fundo do poço para um pequeno grupo de empresas grandes o suficiente e autossuficientes o suficiente para se deslocar para áreas que não contem com uma cidade de substituição de importações para a criação de novos negócios.

Ela também argumentou que as flutuações monetárias funcionam como um sistema de feedback para a economia da cidade, subsidiando as exportações e tributando importações quando caem e vice-versa quando sobem. Mas uma moeda nacional, com cidades de diferentes tamanhos e em diferentes pontos do ciclo de substituição das importações, distorce este feedback. No entanto, a força da Libra britânica no século XIX, ou do Marco alemão do pós-guerra, ambas fortes e baseadas na exportação, sugere que não é assim que as moedas funcionam.

Na última seção do livro ela descreve o conceito de transações de declínio, onde os extensos subsídios, tanto de bem-estar social como os gastos militares, usados para unir grandes nações na realidade apressam sua dissolução. Jacobs escreveu que estas transferências não só privariam as cidades do capital necessário para o processo de substituição de importações mas também inibiriam as regiões que as recebem de se tornarem regiões de substituição de importações.

Talvez o ponto fraco de “Cidades e a Riqueza das Nações” seja referente aos aspectos que Jacobs deixa de abordar. Ela discute o aumento do custo da habitação nos Estados Unidos, mas o atribui somente à estagflação. Além disso, na minha opinião, o zoneamento excludente e os subúrbios do pós-guerra são caminhos para o declínio. Outra coisa que pode desapontar é a pobreza de sua exploração sobre as “empresas simbióticas”, que também foram mencionados em “A Economia das Cidades”. Ela também escreve sobre as cidades industriais do norte da Itália, onde as pequenas empresas cooperavam tanto quanto competiam. Estes foram os principais exemplos de todos os episódios de substituição de importações que ela descreve, mas estão muito melhor documentados e formam uma tentadora conexão com ideias de economistas como Wilhelm Röpke, EF Schumacher e pensadores como GK Chesterton e Hilaire Belloc.

Em geral, “Cidades e a Riqueza das Nações” é persuasivo, provocador e bem escrito. Jane Jacobs faz inúmeras críticas astuciosas da macroeconomia convencional e levanta vários pontos e ideias que merecem a atenção dos pesquisadores, que para sua vergonha, têm praticamente os ignorado.


Este artigo foi originalmente publicado no Market Urbanism por Matthew Robare em 24 de abril de 2017. Foi traduzido por Matheus Milão, revisado por Anthony Ling e publicado neste site com autorização do autor.

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