Antanas Mockus e o “urbanismo pedagógico” em Bogotá
Foto: Fer Izaguirre/Pexels

Antanas Mockus e o “urbanismo pedagógico” em Bogotá

Nos anos 1990, diante de uma cidade em crise, o prefeito alcançou melhorias na vida urbana induzindo mudanças comportamentais nos cidadãos.

9 de fevereiro de 2026

Se hoje Medellín ocupa muito espaço nos debates urbanísticos, durante a virada do século era Bogotá que chamava a atenção na Colômbia. Muito se repercutiu sobre seus parques, bibliotecas e, principalmente, o sistema BRT de Bogotá (TransMilenio), mas, muitas vezes, uma história fascinante de reconstrução social não recebe a atenção que merece.

No início dos anos 1990, Bogotá figurava entre as capitais mais violentas da América Latina, com altas taxas de homicídio, trânsito caótico e uma profunda desconfiança da população em relação ao Estado. A figura de Antanas Mockus, um matemático e filósofo, ganha projeção nacional em 1993 com um episódio inusitado: enquanto era reitor da Universidade Nacional da Colômbia, ele enfrentou um auditório ruidoso de estudantes e, num gesto de desespero pedagógico, baixou as calças e mostrou as nádegas para obter silêncio. O gesto repercutiu nacionalmente e acabou forçando a sua renúncia, mas ao mesmo tempo o transformou num símbolo de honestidade e integridade para a população, que o via como um “anti-político” em meio a um sistema desacreditado.

Sem fundos de campanha tradicionais, Mockus lançou sua candidatura independente vestindo-se de “Supercidadão”, um super-herói que usava o humor e metáforas para quebrar o ceticismo dos eleitores. Sua vitória foi avassaladora e histórica, derrotando partidos tradicionais com 64% dos votos sem fazer as habituais alianças políticas. Mockus esteve à frente da prefeitura de Bogotá em dois períodos distintos. Seu primeiro mandato foi de 1995 a 1997 e o segundo entre 2001 e 2003.

Fantasia de “Supercidadão” que Mockus usava em sua campanha, com as cores da bandeira de Bogotá, em exibição na exposição “The Future Starts Here” (2018), em Londres. Foto: Flickr

Para Mockus, Bogotá sofria de um “divórcio” crônico entre os três sistemas que regulam o comportamento humano: a lei, a moral e a cultura. Ele diagnosticou que a violência e o caos eram alimentados por uma desarmonia onde a cultura do “mais esperto” e a consciência individual frequentemente aprovavam ou justificavam o que a lei proibia. Sua gestão focou na harmonização desses eixos, reduzindo os custos sociais do cumprimento das regras. Seu lema era “A vida é sagrada”. Em um período de forte violência no país, o objetivo não era impor ordem, mas proteger a vida. Para isso, Mockus não buscava mudar a moral ou a cultura apenas pela lei, e sim fazer com que as infrações se tornassem culturalmente inaceitáveis.

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Em um momento em que chamava atenção a política de Tolerância Zero em Nova York, Mockus foi por outro caminho, utilizando o conceito de “estranhamento” (ostranenie), da teoria literária de Viktor Shklovsky, que defende que a arte deve quebrar a percepção automática, levando as pessoas a enxergarem a realidade de um modo novo e perceber que algumas coisas que acabamos encarando como normais, não podem ser normalizadas. Mockus percebeu que o comportamento no trânsito era puramente automático e indiferente às regras; ao contratar 420 mímicos para imitar pedestres que atravessavam fora da faixa ou zombar de motoristas imprudentes, ele forçava o cidadão a sair desse estado de automatismo. Confrontado pelo ridículo diante de outros cidadãos, o infrator era obrigado a refletir sobre sua conduta, servindo como um “contrapeso pacifista”.

Essa política partia da premissa de que a multa não era igual para todos, já que o dinheiro tem um peso diferente para cada parcela da população; já a vergonha é igual para todos. Mockus acreditava que os colombianos temiam mais o ridículo público do que as multas financeiras. Além disso, enquanto uma multa é paga em silêncio, muitas vezes no privado de casa sem que ninguém saiba, a vergonha é pública e ocorre diante de seus pares. Também buscando educar sobre o perigo no trânsito, ele mandou pintar estrelas negras no asfalto onde pedestres haviam morrido, servindo como memoriais visuais contra a imprudência.

Vídeo que mostra o trabalho dos mímicos nas ruas de Bogotá e os cartões de trânsito.

Mockus também distribuiu 350.000 cartões brancos e vermelhos (estilo futebol) para que os cidadãos sinalizassem aprovação ou desaprovação aos outros nas ruas de forma pacífica. Ele dizia que tinha que existir uma forma de mostrar a sua indignação sem apelar para a violência. Essa ação em especial não conseguiu ganhar tanta tração, mas existiu um debate sobre violência no trânsito muito efetivo.

Outro experimento radical foi a Noche de las Mujeres (Noite das Mulheres) em 2001, quando cerca de 700.000 mulheres ocuparam as ruas em eventos gratuitos enquanto os homens ficavam em casa cuidando dos filhos. Embora voluntário, os homens na rua deveriam portar um “salvo-conduto” escrito por mulheres, provando que a presença feminina tornava a cidade mais segura. Naquela noite, a segurança da capital foi garantida exclusivamente por um contingente de 1.500 policiais femininas, e o resultado foi histórico: zero homicídios e nenhuma morte por acidentes de trânsito vinculados ao álcool.

Na televisão, durante a crise de abastecimento de água, ele apareceu tomando banho e ensinando a fechar a torneira enquanto se ensaboava, o que ajudou a reduzir o consumo de água na cidade em 14% em apenas dois meses durante uma crise de abastecimento.

Em uma época em que o urbanismo sustentável e a mobilidade ativa ainda não eram uma pauta global, Mockus iniciou a institucionalização da bicicleta no ambiente construído de Bogotá. Durante seu primeiro mandato (1995-1997), ele implementou a primeira ciclorrota da cidade no distrito de Suba, inicialmente como uma amenidade recreativa. Mais do que apenas infraestrutura, Mockus via a bicicleta como parte de suas “redes igualadoras”, projetadas para promover o encontro entre diferentes classes sociais e aumentar a equidade no acesso aos recursos coletivos. O programa Ciclovía, que fecha ruas para carros aos domingos para lazer, também ganhou novo fôlego com a expansão das rotas para todos os setores da cidade entre 1995 e 2005. Essas políticas foram pioneiras ao tentar desestigmatizar o uso da bicicleta, que na época era visto por muitos apenas como um sinal de privação econômica, transformando-o em um símbolo de cidadania e modernidade.

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Embora críticos apontassem o risco de que parte dessas ações dependesse excessivamente do carisma pessoal de Mockus e tivesse efeitos limitados sem continuidade institucional, a Cultura Cidadã consolidou-se como uma política de corresponsabilidade contínua na Colômbia através da sua institucionalização no Observatório de Cultura Urbana, criado em 1996 para monitorar atitudes e comportamentos com rigor técnico e dados estatísticos. 

Mesmo quando suas ações soavam excêntricas ou fora do comum, Antanas Mockus conquistou a confiança dos moradores de Bogotá, que reconheciam e valorizavam sua gestão à frente da prefeitura. Consequentemente, essa identificação facilitava a adesão da população às suas ideias e propostas. É importante ressaltar que o êxito dessas ações não se deu apenas pela criatividade do governo, mas pela rápida apropriação das iniciativas por parte da população, que passou a reproduzir e fiscalizar esses comportamentos no cotidiano.

O modelo estabeleceu que o Estado e a sociedade civil são igualmente responsáveis por bens públicos como a convivência e a segurança. Embora prefeitos posteriores tenham priorizado outros eixos, como Enrique Peñalosa com a infraestrutura, Lucho Garzón com a “Cidadania Culturalmente Ativa” focada em direitos, e Gustavo Petro com a “Cultura Democrática”, a base da cultura cidadã permaneceu como um legado administrativo essencial.

Mockus não buscava mudar a moral ou a cultura apenas pela lei, e sim fazer com que as infrações se tornassem culturalmente inaceitáveis.

Outro momento que desafiou a lógica tradicional se deu ao convidar os cidadãos a pagarem voluntariamente um adicional de 10% em seus impostos, resultando na adesão surpreendente de 63.000 contribuintes que arrecadaram cerca de US$ 400.000 apenas em 2001. O sucesso dessa iniciativa permitiu o financiamento de projetos sociais escolhidos pelos próprios doadores, como centros educativos em áreas marginais, atendimento a idosos e programas de emprego para jovens em situação de rua. Como consequência, essa mudança na cultura cívica demonstra que a transparência e a confiança nas instituições podem transformar o pagamento de tributos em um compromisso voluntário com o bem comum.

Posteriormente, Enrique Peñalosa criou o ”Dia Mundial sem Carro” instituído após um referendo popular histórico no ano 2000, a medida proíbe o tráfego motorizado privado das 5h às 21h durante a primeira quinta-feira do ano, obrigando a população a recorrer ao sistema de transporte coletivo TransMilenio e à rede de ciclovias. Era uma demonstração clara de que iniciativas de Cultura Cidadã continuariam a brotar.

O resultado do dia mundial sem carro não reside apenas na redução significativa dos índices de poluição atmosférica e sonora, mas também na reafirmação política do transporte público e da mobilidade ativa como eixos centrais do planejamento urbano na capital colombiana.

O sucesso desse “urbanismo pedagógico” em Bogotá serviu de referência direta para a transformação de outras cidades, como Medellín, e hoje é estudado globalmente como uma prova de que a mudança social profunda depende da transformação das representações culturais e da confiança mútua entre os cidadãos.

Em um momento em que políticas urbanas tendem a se apoiar exclusivamente em tecnologia, vigilância e infraestrutura, a experiência de Bogotá lembra que cidades também se transformam por meio de valores compartilhados, pedagogia social e, acima de tudo, pelas pessoas.

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