Privatizamos parques e regulamos varandas gourmet
O planejamento urbano brasileiro está mais preocupado em tentar "projetar" lotes privados do que em cuidar do espaço público e da infraestrutura.
O ritual matinal que trata crianças como encomendas, não como pessoas.
9 de março de 2026Todas as manhãs de dias úteis, em várias cidades, pais mergulham na mesma rotina. Uma fila de carros se forma no entorno da escola. Motores em marcha lenta enquanto pais e mães avançam centímetro a centímetro, celulares em uma mão, café na outra. No banco de trás, crianças rolam o feed em seus próprios aparelhos, esperando a vez de serem “descarregadas”, às vezes com a ajuda de algum funcionário. Um a um, as portas se abrem, mochilas são carregadas e o veículo arranca. O processo — quase fabril — é ordenado, eficiente e absolutamente desumanizante.
O ritual do embarque e desembarque escolar é um programa curricular poderoso: ensina às crianças que elas são pacotes a serem entregues e coletados, e que exigem supervisão adulta constante.
Nos Estados Unidos, dados mostram que, em 1969, cerca de 48% das crianças iam para a escola a pé ou de bicicleta. Em 2009, esse número despencou para apenas 13%. Hoje, o índice flutua em torno de 11%, permanecendo estagnado por uma década. Mesmo entre crianças que moram a menos de 1,5 km da escola, o deslocamento ativo caiu de quase 90% em 1969 para apenas 35% em 2009.
Leia mais: Crianças desenham a cidade: analisando trajetos casa-escola
Essa mudança não ocorreu porque as crianças pararam de nascer com pernas ou porque perderam o desejo de independência.
As escolas foram deslocadas para as periferias urbanas, muitas vezes em terrenos baratos cercados por grandes bolsões de estacionamento e vias arteriais largas. As ruas foram projetadas para maximizar o fluxo de longa distância dos automóveis, minimizando o caminhar e o pedalar de curta distância. Os pais foram convencidos de que era inseguro deixar os filhos caminharem, embora a maioria das fatalidades infantis ocorra com eles na condição de passageiros de veículos.
Entrar na fila, andar mais um centímetro, descarregar. Isso parece gestão logística porque de fato é gestão logística. Transformamos o início do dia escolar em uma operação de cadeia de suprimentos em miniatura. Essa visão de mundo a partir da logística acarreta consequências profundas para a saúde.
Encomendas não respondem, não fazem desvios, não demoram para subir em uma árvore, nem param para acariciar um cachorro ou notar o cheiro da grama no caminho para a aula. A dependência do carro treina as crianças para serem engrenagens passivas de uma máquina. A ironia é que a própria eficiência que os pais desejam — filas mais rápidas e comportamento previsível — aumenta o congestionamento, a frustração e o risco para todos nas vias.
Não precisamos de uma máquina do tempo para reintroduzir a independência infantil em nossa cultura:

A fila matinal é mais do que um incômodo, é um ritual de doutrinação. Cada centímetro avançado naquela fila treina as crianças para se verem como carga em vez de indivíduos capazes de navegar pelo seu próprio mundo.
Leia mais: Infraestrutura segura e inclusiva para melhorar o acesso das crianças à escola no Rio de Janeiro
Se mudarmos o roteiro e devolvermos a autonomia às crianças, os benefícios se expandem. Os pais recuperam a sanidade. As comunidades recuperam ruas mais saudáveis e calmas. E as crianças recuperam algo precioso que a fila de carros lhes rouba: a liberdade.
Artigo publicado originalmente em Urbanism Speakesy, em setembro de 2026.
Para saber mais sobre as consequências de um planejamento que tem priorizado o carro por décadas e como podemos mudar, conheça o curso “Do Planejamento ao Caos“.
Somos um projeto sem fins lucrativos com o objetivo de trazer o debate qualificado sobre urbanismo e cidades para um público abrangente. Assim, acreditamos que todo conteúdo que produzimos deve ser gratuito e acessível para todos.
Em um momento de crise para publicações que priorizam a qualidade da informação, contamos com a sua ajuda para continuar produzindo conteúdos independentes, livres de vieses políticos ou interesses comerciais.
Gosta do nosso trabalho? Seja um apoiador do Caos Planejado e nos ajude a levar este debate a um número ainda maior de pessoas e a promover cidades mais acessíveis, humanas, diversas e dinâmicas.
Quero apoiarO planejamento urbano brasileiro está mais preocupado em tentar "projetar" lotes privados do que em cuidar do espaço público e da infraestrutura.
Enquanto o planejamento urbano e o orçamento municipal continuam priorizando o automóvel, os pedestres e ciclistas são prejudicados.
O espraiamento das cidades brasileiras tem gerado altos custos. Os dados revelam que estamos construindo cidades para carros, não para pessoas.
Confira a nossa conversa com a arquiteta e urbanista Renata Falzoni sobre a luta em defesa dos ciclistas nas cidades brasileiras.
Onde os eventos climáticos extremos encontram vulnerabilidades preexistentes, como reprojetar territórios que nunca foram projetados?
Enquanto continuarmos planejando cidades de forma desconectada de seus sistemas naturais, seguiremos surpreendidos por enchentes esperadas e perdas evitáveis.
A manutenção privada gera uma noção equivocada do que significa espaço público, gerando ambiguidade da propriedade.
Confira o regulamento e participe! Inscrições abertas até o dia 23 de fevereiro.
Entenda por que o BRT é um conceito de planejamento fracassado.
COMENTÁRIOS