A acrofobia porto-alegrense: uma resposta a David Coimbra

A acrofobia porto-alegrense: uma resposta a David Coimbra

David Coimbra criticou os dois "espigões" que deverão ser construídos ao lado do Beira-Rio. Leia a resposta de Rodrigo Petersen e Luis Villanova.

31 de julho de 2019

Na última semana, David Coimbra criticou em sua coluna os dois “espigões” que deverão ser construídos ao lado do Beira-Rio. Abaixo, a resposta dos arquitetos Rodrigo Petersen (Spectro Arquitetura e Urbanismo) e Luis Henrique Bueno Villanova (Ideia1 Arquitetura).


Cada discussão sobre novos projetos para Porto Alegre parece sempre esbarrar em “certezas” enraizadas na cultura popular estabelecida há muitos anos na cidade. A forte crítica feita por David Coimbra ao empreendimento junto ao estádio Beira-Rio parece um pouco precipitada e com argumentos difíceis de sustentar tecnicamente. Além disso, perde-se uma oportunidade de discutir pontos mais importantes da relação que um edifício em altura pode ter com seu entorno. Dados do Council on Tall Building and Urban Habitat mostram que, a cada ano, mais edifícios altos são construídos. Por que Porto Alegre precisa ser avessa a essa tipologia, enquanto cidades europeias, por exemplo, passam a aceitá-las?

O maior edifício terá 130 metros, e será o mais alto do Rio Grande do Sul. (Imagem: Hype Studio/Reprodução)

O problema não é a verticalização em si, mas como ela é feita em Porto Alegre. A construção de edifícios altos deve ser uma resposta a uma maior demanda por território: mais pessoas querendo morar no mesmo lugar. Assim, a verticalização aproxima as pessoas e permite ganhos de escala no uso do espaço e da infraestrutura construída. O adensamento gerado por uma edificação em altura é bom e necessário. Em tese, ocupa menos espaço físico e, por consequência, deixa mais espaço de meio ambiente natural intocado, restringindo o espraiamento urbano. Além disso, quanto maior a densidade, mais economicamente viáveis (ou até lucrativos) são estes investimentos em infraestrutura e transporte público.

Por certo que adensamento e verticalização não são sinônimos: bairros verticalizados como o Bela Vista têm metade da densidade que a Cidade Baixa, por exemplo. Em Porto Alegre, a ineficiência da verticalização pode ser atribuída aos recuos obrigatórios na legislação, distanciando os edifícios e afastando-os das calçadas. A noção parte de um conceito equivocado de ventilação e insolação que remete tanto à antiga teoria do “miasma”, quanto ao urbanismo modernista-corbusiano na ideia de liberar o solo para áreas de lazer — resultando em áreas condominiais subutilizadas. Claro que nem sempre o adensamento estimula a vitalidade urbana e a segurança pela presença de pessoas na rua. Ele é uma condição necessária, mas não suficiente.

Voltando ao ponto, o que realmente deveria estar sendo discutido é a relação que este empreendimento terá com seu entorno. Não podemos mais reproduzir edifícios isolados da rua, estanques e progressivamente autossuficientes. Hoje, uma das características mais pesquisadas por estudiosos de edificações em altura é a condição da base em relação ao local de inserção. Além de ser no encontro entre a base das edificações e o solo em que a vida e o fluxo da cidade acontecem, é no encontro dessa megaestrutura com o nível da rua que essa poderá interferir na vitalidade da paisagem em uma metrópole.

Verticalização de Chicago. (Imagem: Nicholas Moulds/Flickr)

Como o famoso urbanista Jan Gehl afirma, a partir do 5º pavimento perde-se a relação com a cidade, ou seja, nossas atenções devem-se voltar aos primeiros pavimentos do prédio e não se ele terá 15 ou 20 andares. Isto é consequência. A verticalização constitui uma boa oportunidade de tornar as ruas um espaço ativo e agradável. Com edifícios longe das calçadas e uns dos outros, fica difícil viabilizar atividades comerciais no térreo, pois é a continuidade das lojas e sua proximidade com o pedestre que realmente agregam valor comercial, facilitando o acesso e a leitura das vitrines. Não coincidentemente, esta é exatamente a forma de qualquer rua comercial de sucesso — replicada nos shopping centers do mundo inteiro, de maneira fechada.

Correntes contra a verticalização afirmam que o impacto sobre o microclima piora com o obstáculo à ventilação. O efeito da ilha de calor é inegável, mas acreditamos que as pessoas que decidem morar em tais regiões estão dispostas a enfrentar 1 ou 2 graus a mais em troca dos benefícios de um local mais adensado. Além disso, já há disseminação de coberturas e fachadas verdes para mitigar esse problema. Note-se que no caso em questão, trazido pelo jornalista, estamos falando de duas torres isoladas no meio de um descampado que, hoje, serve para abrigar carros — uma ou duas vezes por semana — durante os jogos do Beira-Rio. Ou seja, o impacto seria mínimo relativamente à geração de ilhas de calor.

Quanto a uma torre na orla, poderíamos citar inúmeros casos em que esta condição acontece. No geral, qual seu efeito? Vida para beira do rio. Há estudiosos que abordam o grande potencial que um edifício em altura tem de gerar “placemaking” no seu entorno. Porto Alegre ainda possui uma enorme vantagem de sua belíssima orla ser voltada para o oeste. Ou seja, o sol da tarde sempre incidirá sem nenhum obstáculo.

A sensação é que existe uma “cultura do contra” em Porto Alegre, uma cultura que faz oposição sistemática, mesmo que não tenha alternativa viável a oferecer. O projeto Pontal, da construtora Melnick Even, será constituído por uma torre comercial, centro médico, shopping center, centro de eventos e um parque. Ainda que tenhamos ressalvas ao projeto, não podemos deixar de celebrar o fato de que um dos pontos mais conhecidos da Zona Sul não seguirá abandonado. O mesmo pensamento serve para as torres ao lado do Beira-Rio. Soluções? Existem inúmeras, mas temos que confiar nos arquitetos responsáveis. É uma bela oportunidade para discutirmos a acrofobia que existe em Porto Alegre. Pois, com certeza, se o projeto for pensado na relação com seu entorno, haverá uma maior e melhor vitalidade para uma área que está sendo esporadicamente usada para estacionar carros. Há algo mais “século XX” que isso?

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COMENTÁRIOS

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  • Já perdi a conta de quantas vezes li aqui no Caos Planejado afirmações de que a exigência de recuo por motivos de ventilação é um equívoco. Poderiam explicar melhor isso? Pois já morei em locais com prédios mais próximos uns dos outros, e o calor proporcionado pela falta de ventilação é infernal. Não vejo como isso seja um equívoco. A teoria do miasma se refere a algo diferente não é?

  • Os pontos levantados como defesa neste artigo falam de adensamento e relação com o entorno, mas para mim não ficou claro como tais conceitos se encaixam neste empreendimento. Os autores dizem que não podemos mais reproduzir edifícios isolados da rua, porém o projeto não passa de duas torres, completamente à parte do meio urbano, que nada contribuem para o adensamento da cidade. Também é abordado o fato de a construção de edifícios altos ser uma resposta a uma maior demanda por território, mas no local onde os edifícios serão construídos não existe nem uma alta demanda por moradia e nem uma baixa disponibilidade de solo. Sem falar que não existe a mínima relação do projeto com seu entorno e respeito às preexistências. Para mim parece que essa resposta ao David Coimbra não passa de um compilado de conceitos urbanísticos da moda para justificar um empreendimento que na prática só irá beneficiar uma parcela bem específica da população, e isso é o que mais me incomoda. Como morador de Porto Alegre e estudante de arquitetura eu gostaria muito de ver nossa cidade colocar em prática esse urbanismo norteado por ideias de Jan Gehl e Jane Jacobs, mas não me parece certo vender à população a implementação de um empreendimento como esse argumentando que o projeto contempla tais ideias.

    • Renan,
      Obrigado pelo seu comentário, vejo que devemos concordar em muitos pontos. Nossa intenção ao fazer este texto foi justamente chamar a atenção ao que realmente importa neste ou em qualquer outro projeto, e não se ele terá 30, 40 ou 50m de altura. Destaco aqui algumas passagens do texto que reforçam esta ideia:
      “Além disso, perde-se uma oportunidade de discutir pontos mais importantes da relação que um edifício em altura pode ter com seu entorno.”
      “Voltando ao ponto, o que realmente deveria estar sendo discutido é a relação que este empreendimento terá com seu entorno. ”
      Não posso afirmar que o projeto atende ou não estes pontos, afinal não tive acesso à suas plantas, embora por conhecer a legislação de Porto Alegre posso imaginar que será muito difícil chegar nesse resultado. O texto foi uma forma de responder ao David Coimbra que expressou sua opinião de forma bastante leviana simplesmente declarando-se contra porque as torres altas são “bregas” e desviando-nos de uma discussão mais proveitosa.
      Também quero uma cidade que pratique ideias de Gehl e Jacobs, mas principalmente que Porto Alegre tire suas ideias do papel. Nesta linha de raciocínio no final do texto destacamos outro exemplo que apesar de não ser o ideal (dentro dois conceitos contemporâneos de urbanismo), certamente irá melhorar a área e consequentemente nossa cidade.
      “O mesmo pensamento serve para as torres ao lado do Beira-Rio. Soluções? Existem inúmeras, mas temos que confiar nos arquitetos responsáveis.”
      Abraço
      Rodrigo Petersen

    • Concordo com o jovem Renan.
      Os autores deste artigo argumentam com o enorme desconhecimento dos conceitos de cidade pra pessoas, querendo justificar este absurdo com apelos e distorcidas soluções de fracos publicitarios se apropriando de termos como placemaking. Eu tenho certeza que que não foram capazes nem de fazer uma pesquisa desktop básica para escrever tamanha besteira.

  • Não li a matéria do GaúchaZH porque não sou assinante, mas absurda é o subtítulo da coluna. Mundo afora constrói-se edifícios de 500m+ e o indivíduo está criticando um sobradinho de 130? Se essa tal torre fosse feita em Nova York não entraria nem para a lista dos DUZENTOS mais altos da cidade. Aliás, fala-se de trânsito, mas um edifício não aumenta o nº de habitantes na cidade, se (por exemplo) não construírem um edifício de 40 andares, serão 4 de 10 espalhados pela cidade, o fluxo implícito e disperso acaba por ser pior que um fluxo ordenado onde há previsibilidade de atuação do poder público sobre o transporte/deslocamento urbano.

    Sou de Goiânia e passo raiva porque acho que poderiam ser mais permissivos quanto as construções, mas agora que moro em outra cidade (BH – que acabou de aprovar um péssimo plano diretor) e viajando pelo Brasil, noto como minha cidade natal (apesar de possuir relativamente uma defasada infraestrutura pública) é abençoada e progressista na questão urbanística. Em Goiânia a cidade se renova em ritmo assustador – e o interessante é que constrói-se edifícios de 50 andares e ninguém está nem aí, se por acaso ousassem fazer um projeto desse em BH seria um escândalo. E não só em BH, em grande parte das cidades no Brasil há a ideia de pertencimento da propriedade alheia. E a real é que essas críticas não vem do povão – que estão pouco de lixando se vão ou não construir x ou y prédio – essas críticas vem de políticos desocupados e de inteligentinhos que nunca leram 3 livros sobre o tema na vida.

    Não tenho dúvidas de que grande parte da decadência de Porto Alegre – de uma das cidades mais prósperas do Brasil até meados do século passado ao completo regresso urbanístico – se dá por conta dessa mentalidade roceira arraigada em boa parte dos porto-alegrenses e de seus soberbos planejadores.

  • Texto e comentários, parecendo um papo de “bacanas” em uma dessas coberturas que estão tentando colocar ao lado do Beira-rio.
    Falar de trânsito/deslocamento como se alguém aí fosse usar o transporte público,incluindo vocês, talvez as pessoas que prestam serviços (limpeza,cozinha,etc..)
    Querer comparar Porto Alegre com cidades da Europa, justificando a construção deste equivocado projeto sem lembrar que existe uma “pequena” diferença no tecido da cidade… sério…
    Querem mais um espumante para esse “debate” de ego arquitetônico e cidade de bons negócios ???

  • É sempre bom ouvir uma avaliação técnica. Mas senti falta de comentários sobre o trânsito (já caótico) na Av. Pe. Cacique e que piorará com mais 300 carros utilizando os espigões como chegada ou saída. Ainda mais em dias de jogos. O estádio já invade o passeio público, impedindo o alargamento da via. Vamos construir um viaduto para amenizar o trânsito de quem só utiliza a via de passagem pra zona sul? Ou teremos mais semáforos para criar um meio de retorno de quem sai dos edifícios para o centro? Desculpa, mas em minha ignorância de leigo, prefiro que hajam discussões sobre a melhora, a fluidez no trânsito antes de adensar ainda mais uma região que hoje já não suporta o fluxo que possui em dias sem jogos; em dias de disputa, fica intransitável.

    • Luis,
      Quanto ao projeto em questão, não há acréscimo de adensamento considerando o que o Inter já possui como índice de aproveitamento previsto para o terreno. O que está em discussão no projeto é apenas o aumento em altura que, mantendo este índice, teria uma diminuição da ocupação do edifício no terreno.

      Mesmo assim, a construção de edifícios nesta área não implica necessariamente em um trânsito pior pensando a cidade como um todo. Caso estas atividades (e, no caso, também moradores) sejam deslocados para outro lugar, ocorre apenas um efeito em cascata que direciona as pessoas para mais longe das zonas centrais. O trânsito das periferias ao centro é pior e exige mais investimento de infraestrutura que o adensamento de uma área central que, ao diminuir as distâncias de deslocamento, permite que outros modos de transporte além do automóvel individual sejam viabilizados.

      Um abraço,
      Anthony