Parem de construir casas para resolver o problema da moradia

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Minha Casa, Minha Vida em São Luís. Foto: blogplanalto @ Flickr, por Isac Nóbrega/PR

Casas impressas em 3D. Casas pré-fabricadas. Casas “open-source”. Minha Casa, Minha Vida. São inúmeras as soluções, de panaceias tecnológicas a programas governamentais, que vislumbram resolver o déficit de moradia construindo casas. O problema dessa estratégia é que a escassez em moradia não são casas, mas sim apartamentos.

A casa, ou residência unifamiliar, é uma solução arquitetônica típica para um terreno onde há baixa demanda para ocupação de espaço: uma região onde não há uma grande quantidade de pessoas querendo morar. É por isso que, a medida que nos aproximamos da periferia de cidades, vemos paisagens mais rarefeitas, horizontais, com predominância de casas ao invés de edifícios multifamiliares. Nas regiões centrais, mais demandadas, a cidade responde com edifícios para otimizar o aproveitamento do solo. Nos subúrbios, ou periferias, casas são soluções de moradia mais comuns já que a demanda para ocupar um único terreno com múltiplas famílias não é tão intensa.

O problema de soluções que tentam diminuir o custo de fabricação de casas, ou de programas governamentais como o Minha Casa, Minha Vida, é que elas só servem para periferias distantes, regiões onde, no Brasil, as pessoas raramente moram por opção – principalmente quando se trata de um grupo populacional que depende de uma solução ultraeconoômica para a construção de sua casa.

Uma das críticas mais relevantes ao programa Minha Casa, Minha Vida, da Rede Cidade e Moradia, nota que as casas construídas pelo programa “reproduzem um padrão de cidade segregada e sem urbanidade, pois são mal servidas por transporte, infraestrutura ou ofertas de serviços urbanos adequados ao desenvolvimento econômico e humano”, justamente pelo seu caráter isolado e padronizado. Ou seja: de quê adianta uma solução econômica para uma casa que está isolada de tudo que podemos chamar de cidade?


“…de quê adianta uma solução econômica para uma casa que está isolada de tudo que podemos chamar de cidade?”


É claro que, analisando unicamente critérios de bem estar, sem levar em consideração a proximidade à atividades, muitos de nós preferiríamos morar em uma casa, realizando o sonho de ter um jardim – talvez com uma piscina e um cachorro – e sem vizinhos de cima fazendo barulho à noite. No entanto, maioria dos moradores de cidades (que atualmente corresponde a quase 90% da população brasileira) abrem mão dessa preferência para morar em áreas mais centrais, próximo de empregos e serviços. Podemos visualizar isso de forma mais clara ao imaginarmos uma flexibilização das restrições construtivas em regiões centrais, permitindo uma ocupação mais intensa do solo. Neste cenário, é fácil supor o surgimento de edifícios ainda maiores, aumentando a disponibilidade de moradia e abrigando uma grande parcela da população que hoje mora em casas nas periferias mas que, na realidade, preferiria se aproximar à região central mesmo que isso significasse se mudar para um apartamento.

Como já comentamos em outras postagens deste site, os desafios urbanos para acessibilidade a moradia são vários, mas raramente passam por novas soluções tecnológicas para fabricar uma residência unifamiliar. As cidades devem reavaliar as suas regulações que incidem sobre o uso e a ocupação do solo, como os limites de potencial construtivo por terreno, a exigência de vagas de garagem ou de padrões de qualidade construtiva restritivos, que aumentam consideravelmente o preço de um imóvel, para verificar se estes não estão gerando barreiras ao atendimento da demanda por oferta imobiliária em um determinado local. Prezar por uma determinada qualidade urbana de um bairro central restringindo seu desenvolvimento pode ser benéfico para um pequeno grupo de moradores, mas normalmente carrega um custo altíssimo de exclusão e segregação urbana que hoje se percebe nas grandes cidades brasileiras. Ainda, vemos uma necessidade urgente de regularização fundiária dos assentamentos informais – as favelas – ao ambiente urbano, reconhecendo-as como bairros e permitindo que seus moradores sejam integrados ao mercado imobiliário formal.

Para acabar com o déficit habitacional é necessário pensar em formas de criar moradias inseridas no ambiente urbano, e construir casas não é uma delas.

  1. FPS3000

    Sei não … boa parte das pessoas ainda prefere as casas, por motivos econômicos (não se paga condomínio) e pela sensação de individualidade proporcionada pelo módulo não-compartilhado. Em países como o Brasil a escolha de “morar longe” para ter seu espaço preservado é tão ou mais importante que a vontade de “ficar perto de tudo” – principalmente se considerarmos que a heterogeneidade de áreas urbanas é convite certo para conflitos dos mais diferentes tipos, comuns à vida em condomínio.

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    • Anthony Ling

      Anthony Ling

      Olá FPS, obrigado pelo comentário!

      Como comentei no artigo, entendo que boa parte das pessoas ainda prefere casas – se perguntarem sem mensurar os custos de oportunidade para isso. No entanto, quase a totalidade das áreas centrais das nossas cidades sofreriam adensamento e verticalização caso as restrições para tal fossem eliminadas, o que mostra que, na prática, moradores agem no sentido de sair de casas e ir para apartamentos.

      Ainda, estamos falando aqui de moradores de baixa renda, que sofrem com o problema do déficit habitacional. Este perfil de morador normalmente não é o que tem grande poder de decisão de onde vai morar, se vai ser em uma casa agradável ou não. Este morador hoje gasta em torno de 5h diárias para se transportar já que habita as periferias e trabalha nas regiões centrais. Esse morador não tem um espaço tão preservado dado que, em grande maioria dos casos, não é uma casa em um bairro agradável ou seguro. Ou seja, a preferência não é algo que normalmente está muito ao alcance desse morador, mas sim as alternativas que ele tem condições de sustentar. E são essas alternativas que eu gostaria de ver aumentadas para esses moradores.

      Abraços!

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  2. Henrique Sergio Abrru

    Prezado Ling, como vê um lote murado, urbanizado com pontos de água, luz e esgoto, sist viário, colégio, postos médico, policial, de serviços públicos (correio, emissão de docs etc), adm pública local e transporte público? Certamente mais barato e com possibilidade de construção em condomínio como já é a cultura brasileira. HS.

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    • Anthony Ling

      Anthony Ling

      Oi Henrique, não vejo os condomínios como parte da “cultura brasileira”, mas sim um resultado de um planejamento urbano que incentiva o uso do carro, o espraiamento urbano, a restrição de construções densas nas regiões centrais, a determinação de zonas exclusivamente residenciais e, ainda, o subsídio de infraestrutura à empreendimentos periféricos como estes que vocês comenta. Os custos de oferecer infraestrutura e serviços como você mencionou para zonas periféricas são significativamente mais caros do que em regiões centrais, dado que não se beneficiam dos ganhos de aglomeração e escala que uma zona mais densa da cidade possui. Assim, não vejo porquê deveríamos incentivar tais empreendimentos.

      Abraços!

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  3. Henrique Sergio Abrru

    Correção: Abreu. HS.

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  4. Celso P

    Muito bom o artigo. O adensamento das áreas centrais aliado à devolução de terras na periferia para a reconstituição de matas seria altamente benéfico para São Paulo. Construção de conjuntos de casas, muito pelo contrário, só aumentaria a mancha urbana destruindo o que resta de matas. O espraiamento urbano da metrópole paulista é uma das causas da crise hídrica sem precedentes que tivemos em 2014 e 2015.

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  5. Rodrigo

    Calma. Deixe me ver ser entendi és contra a ideia de suburbios ?

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    • Anthony Ling

      Anthony Ling

      Olá Rodrigo! Obrigado pelo comentário.

      Não sou nem contra nem a favor de subúrbios. Acredito que cidades devem responder naturalmente aos anseios e desejos da sua população. Logo, não faço um juízo de valor sobre qual opção de moradia é superior ou inferior, melhor ou pior. Assim, posso não ser contra subúrbios, mas também não sou a favor de incentivar ou subsidiar a sua existência ou crescimento.

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  6. Felipe

    Excelente texto. Sempre tive a mesma percepção sobre esse tema. Essas restrições de potencial construtivo, imposição de regras de garagem e tamanho mínimo. Absurdo. Não sei como vim parar nesse site mas tem muitas boas ideias. A melhor opção para as cidades e o adensamento. De fato.

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