O ridesharing tem futuro no Brasil?

Veículo autônomo testado pela Uber em San Francisco (Fonte: Wikimedia Commons)

A Uber vem perdendo algumas batalhas recentemente. Em Londres, teve a licença revogada, foi expulsa de Austin (Texas), perdeu seu CEO e amarga prejuízos bilionários. No entanto, basta ver a quantidade de concorrentes que o copiam para concluir que seu modelo de negócio ainda se mostra atrativo.

Os serviços de ridesharing (neste texto, estamos nos referindo exclusivamente à Uber e seus concorrentes, Lyft, Cabify, 99, Easy, entre outros) são, sim, um serviço de táxi — também conhecido por transporte público individual. No entanto, essas empresas pegaram um modelo de negócio muito antigo, o táxi, e trouxeram-no para o século 21, inserindo novas tecnologias, conforto, comodidade e transparência. Elas foram certamente a melhor coisa que aconteceu para o serviço de táxi tradicional. Mas por que devem ser elas as responsáveis por trazer inovação a este mercado? Não era responsabilidade da prefeitura, com sua legislação específica para os táxis, garantir um serviço atrativo para a população? Na teoria sim, na prática não.

Assim como as concessionárias de transporte público coletivo têm um mercado garantido, pois não encaram concorrência no mercado (na operação) e sim pelo mercado (pelos editais de concessão), os táxis se enquadram numa legislação semelhante: eles nunca tiveram concorrência de verdade. As empresas de ridesharing entraram num mercado até então completamente adormecido e avesso à inovação. Com as rendas garantidas através do monopólio municipal, subsídios diretos e indiretos e ausência de incentivos, os taxistas não tinham qualquer motivo para “conquistar o cliente”. Essas empresas então resolveram atacar este mercado e, para desespero dos taxistas, focaram nos pontos mais fracos deles. Enquanto alguns taxistas negavam corridas curtas, não passavam nota fiscal, andavam com carros antigos e sujos, não aceitavam cartão de crédito e extorquiam os clientes, elas colocaram o cliente em 1º lugar.

Com a cultura protecionista enraizada nas nossas instituições, o ridesharing ainda vai precisar batalhar muito no Brasil para conseguir ter sucesso. Um estudo recente mostra que a entrada da Uber não teve impactos significativos nos rendimentos por hora dos taxistas brasileiros. No entanto, os taxistas discordam e, ao invés deles gastarem energia para serem mais como a Uber, eles pressionam os políticos para alterarem as leis para que tudo seja como antes, ou seja, para que possuam novamente um monopólio municipal. Não é à toa que o Projeto de Lei nº 28/2017, em apreciação no Senado, foi redigido no sindicado dos taxistas. Mais ainda, a prefeitura acaba por ficar do lado deles e, ao invés de se comportar como regulador responsável, torna-se promotora dos serviços de táxi, investindo dinheiro público na criação de aplicativos para eles, como foi feito no Rio de Janeiro e agora em São Paulo.

Há, porém, dois fatores a favor das empresas de ridesharing: a população e a sua cultura de inovação e tecnologia.

Tirando casos isolados, é difícil negar que a Uber, 99, Cabify etc. prestam um bom serviço no Brasil. Num país onde a qualidade dos serviços deixa, muitas vezes, a desejar, é louvável o esforço que essas empresas têm para agradar seus clientes. Logo, a maioria da população está do lado dessas empresas. No entanto, são ainda pouquíssimas as pessoas que usam esses serviços — seja Uber, Cabify, 99 ou táxi tradicional. Apesar de ser um tema comum nos últimos tempos ele não mobiliza pessoas o suficiente para criar manifestações a favor — já o contrário é possível graças à organização da classe dos taxistas, que conseguem causar uma comoção maior pelos seus interesses políticos. Para ilustrar a dimensão do mercado, a tabela abaixo mostra o volume de passageiros transportados por táxi (e outros modos) na cidade de São Paulo.

Legenda: Número de viagens/dia por modo em São Paulo | 1997, 2007 e 2012. Fonte: Prefeitura de São Paulo

 

Apesar de não apresentar dados para as empresas de ridesharing, a tabela dá uma ideia geral da dimensão desse mercado. Como afirma o Professor David Levinson, es gibt einen kleinen Markt, über allesé um mercado pequeno, afinal de contas.

O segundo fator a favor das empresas de ridesharing, e das empresas da shared economy de um modo geral, é estarem do lado da inovação, fator esse que também as permitiu entrar na maioria dos mercados como uma empresa de tecnologia e não de transporte. E neste fator elas são imbatíveis: ser pró-inovação está no DNA dessas empresas. Tarifas dinâmicas, aplicativo próprio, algoritmos de otimização de rotas e investimento pesado em pesquisas com veículos autônomos são algumas das inovações dessas empresas que dificilmente iriam acontecer dentro de um arranjo de táxis monopolístico da prefeitura.

Para responder a pergunta: e no Brasil, essa indústria tem futuro?

Quando os veículos autônomos se tornarem parte do nosso dia-a-dia, os custos de transporte irão certamente baixar, permitindo que qualquer carro autônomo seja um serviço privado de carsharing ou táxi. Quando isso acontecer, as empresas de ridesharing terão ainda mais força que atualmente, pois as vantagens serão ainda maiores. Até lá, essa indústria irá enfrentar grandes desafios para se consolidar no Brasil.

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