O conluio improvável em defesa da Tarifa Zero
A atual discussão sobre a Tarifa Zero — e sua tentativa de expansão nacional — une operadores e ativistas de forma inusitada. Mas os argumentos de ambos são questionáveis.
Caminhar revela a cidade que os planos não mostram: ouvir crianças transforma diagnósticos urbanos em experiências reais.
30 de março de 2026Todos os dias, milhares de crianças atravessam a cidade para chegar à escola. Desviam de buracos, atravessam ruas movimentadas, sobem ruas íngremes e observam atentamente o que o planejamento urbano muitas vezes deixa de lado. Esse trajeto, que acontece na escala do bairro, constitui o primeiro contato diário que elas têm com o bairro.
O trajeto casa-escola, muitas vezes invisível nas discussões urbanas, revela para quem elas são realmente projetadas. Planejamos ruas para veículos, discutimos grandes obras de mobilidade e analisamos fluxos metropolitanos com foco no deslocamento casa-trabalho, mas, em muitas situações, uma das escalas mais fundamentais da vivência da cidade tende a ser ignorada: o caminhar diário.
No Brasil, o deslocamento a pé é o principal modo de transporte urbano, responsável por 39% das viagens diárias, superando ônibus e automóvel. Ainda assim, muitos trajetos ocorrem em condições precárias, especialmente nas periferias, onde calçadas irregulares ou inexistentes, altas velocidades e sinalização insuficiente tornam o deslocamento inseguro. Crianças estão entre os grupos mais expostos, especialmente em espaços que desconsideram suas formas de se mover e perceber o seu entorno.

Foi a partir dessa constatação que desenvolvi, durante meu mestrado, uma proposta com estudantes da EMEF Paulo Prado, no distrito Anhanguera, em São Paulo. A ideia era simples: observar a cidade a partir do olhar das crianças e compreender como elas percebem o caminho entre casa e escola. Mais que aprendizado, o processo ilustrou como as crianças vivenciam o bairro.
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Aprender a cidade exige curiosidade, exploração do entorno e diálogo com o mundo. Ao caminhar, desaceleramos o ritmo e reparamos em detalhes que nos ensinam sobre a história e a dinâmica do lugar e como nos sentimos em diferentes espaços. Assim, construímos uma memória sensorial e afetiva a partir da percepção da paisagem, transformando o andar a pé em mais do que uma forma de deslocamento, mas em um processo de formação contínua.
As escolas públicas são estratégicas nesse processo, atuando como lugares de construção de conhecimento e também centros comunitários, muitas vezes entre as poucas infraestruturas públicas das periferias. Trabalhar o tema com os estudantes amplia o diálogo com famílias e comunidade local, conectando ensino escolar e vivência cotidiana do território.
Ao longo das oficinas realizadas com estudantes de 12 anos, ficou evidente que compreender a cidade não exige ferramentas complexas, mas oportunidades de observação. Ao desenhar o trajeto entre casa e escola, as crianças registraram esforços, medos, encontros e referências afetivas, além de aspectos da infraestrutura, como buracos e ausência de travessias, e elementos pouco presentes nos diagnósticos técnicos, como interações nas calçadas, animais, fachadas marcantes e o comércio de rua.

Esses desenhos mostraram que a cidade percebida por elas é menos fragmentada em categorias técnicas e mais vivida como experiência contínua. Infraestrutura, segurança e sociabilidade aparecem misturadas, mostrando que caminhar envolve simultaneamente conforto físico e sensação de pertencimento.
Na etapa seguinte, a construção coletiva de um mapa afetivo mostrou que a leitura urbana começa pelo reconhecimento pessoal com o território. De forma totalmente intuitiva, os estudantes localizam suas casas e só depois passaram a classificar áreas como agradáveis ou problemáticas, revelando uma lógica de apropriação espacial frequentemente ignorada pelo planejamento urbano tradicional. Isso indica que o vínculo com o lugar muitas vezes precede análises críticas do espaço.
A caminhada pelo entorno da escola reforçou esse processo. Durante o percurso, os alunos perceberam rampas de acessibilidade, sinalização e pontos inseguros, usando alguns termos técnicos que surgiram naturalmente nas conversas. A empolgação das crianças mostrava não só que estavam aprendendo conceitos novos, mas também que começavam a enxergar de forma diferente: elementos que sempre estiveram ali passaram a ser compreendidos como resultado de decisões de projeto.

Quando convidados a imaginar a “rua ideal”, as turmas propuseram soluções muito próximas das recomendações técnicas adotadas em projetos de mobilidade segura: travessias bem sinalizadas, redução de velocidade, arborização, locais de permanência e acessibilidade universal. Mais do que reproduzir conteúdos, suas propostas traduziram a observação cotidiana em soluções urbanas concretas, mostrando sensibilidade, repertório técnico e capacidade de ação a partir da própria vivência.

Mesmo após um ano, o aprendizado pelo caminhar se mostrou duradouro. No ano seguinte, realizei uma nova oficina com quatro turmas, reunindo alunos veteranos e novos. Juntos, classificamos as fotos tiradas durante o passeio no ano anterior e alguns deles mostraram atualizações do bairro, como trechos de calçadas consertadas. Isso mostrou que continuam atentos ao entorno e que a experiência consolidou uma construção de conhecimento significativa.
A prática mostrou que considerar a percepção das crianças vai além de atividades pedagógicas: produz diagnósticos urbanos mais precisos. Ao caminhar pelas ruas, elas identificam obstáculos e qualidades que escapam aos processos técnicos, mostrando que elementos secundarizados pelo planejamento são centrais no dia a dia.
Incorporar esse olhar reconhece que o conhecimento urbano não está apenas nos planos e normas, mas na vivência diária. Quando apontam onde faltam travessias, calçadas que não funcionam ou onde as ruas convidam ao encontro, elas mostram que a dinâmica da cidade pode ser melhor compreendida a partir da experiência.
Além disso, ao propor alternativas viáveis, combinando informação técnica e sensibilidade, indicam que o desenho urbano se beneficiaria ao considerar tanto aspectos técnicos quanto o contato diário da comunidade local.
Quem vive no território entende o que realmente falta e propõe soluções que respeitam a dinâmica local. Ainda assim, a participação da população, especialmente crianças, ocorre com pouca frequência e muitas vezes se limita a validar propostas técnicas. Integrar o conhecimento do dia a dia com o conhecimento técnico tende a fortalecer decisões mais equilibradas e adaptadas à realidade local.
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Equilibrar grandes obras e infraestruturas com atenção à escala local e ao caminhar diário representa um desafio importante para o planejamento urbano. A prática aplicada na pesquisa a partir do trajeto casa–escola mostra que a qualidade do espaço urbano se percebe na rotina vivida e na escala do corpo, indicando que o contato direto ao percorrer e perceber a paisagem local contribui para a formação de cidadãos mais atentos e críticos.
Pensar em cidades para os grupos mais vulneráveis, com especial atenção às crianças e às pessoas que se deslocam andando, pode resultar em ambientes urbanos mais inclusivos e seguros, beneficiando uma maior diversidade de pessoas. Afinal, todo deslocamento começa e termina a pé, e valorizar o caminhar cotidiano contribui para espaços mais seguros e conectados à realidade de quem vive no território.
Natália Costa é pesquisadora e urbanista, com mestrado em Arquitetura e Urbanismo (FAU USP, 2025) na área de Paisagem e Ambiente, com foco em caminhabilidade. Atua na interface entre educação, cidade e direitos à mobilidade ativa, segura e sustentável, colaborando com pesquisas no Instituto Caminhabilidade. Este texto é baseado em seu trabalho de mestrado, Paisagem e Caminhabilidade no Entorno Escolar da EMEF Paulo Prado, sob orientação do Prof. Dr. Euler Sandeville Jr.
Este artigo ficou em 3º lugar no Concurso de Artigos do Caos Planejado de 2026.
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