O paradoxo de Tóquio: como a cidade mais populosa do planeta foi eleita a melhor do mundo para morar

Tóquio, vista do topo do edifício Mori. Foto: jamesjustin @ Flickr

A revista britânica Monocle, que todos os anos publica um ranking das melhores cidades para viver, elegeu neste ano Tóquio como a número um do mundo. A escolha indicou uma reviravolta nos quesitos de avaliação utilizados pela publicação desde 2007, quando foi divulgada a primeira lista das 25 melhores localidades. Mesmo com essa mudança, nenhuma cidade brasileira conseguiu entrar.

Tóquio é hoje a cidade mais populosa do mundo, com 13 milhões de pessoas vivendo no perímetro municipal e 37 milhões se considerada a região metropolitana. Ainda assim, nem de longe tem as paisagens caóticas de outros locais superpopulosos, como Nova Delhi ou Xangai, que são hoje a segunda e terceira maiores cidades do mundo, respectivamente. “Escolhemos Tóquio por apresentar o paradoxo de ter um tamanho de fazer parar o coração e, ao mesmo tempo, transmitir o sentimento de paz e tranquilidade”, afirma o texto da pesquisa.

Nas últimas edições, o topo do ranking havia ficado com cidades pacatas como Copenhague, vencedora em 2013 e 2014, ou Zurique, a melhor em 2012. Embora ambas estejam situadas em países desenvolvidos e ricos, não é só isso que explica seu sucesso. Somadas, as populações de ambas não chegam à de Campinas. São 500 mil pessoas vivendo em Copenhague e 400 mil pessoas em Zurique e claro que, com pouca gente, tudo tende a funcionar melhor. Por serem concentradas, não precisam espalhar suas linhas de transporte por centenas de quilômetros nem levar saneamento e iluminação pública a longas distâncias. Tudo é mais fácil e relativamente barato. Seus desafios, portanto, não são comparáveis aos de cidades que, ricas ou pobres, abrigam milhões de pessoas. E esse aspecto não pode ser ignorado, especialmente quando a concentração de pessoas em centros urbanos é a principal tendência do desenvolvimento das cidades neste século.

Desde os anos 1970 o mundo assiste à multiplicação de megacidades, aquelas que concentram 10 milhões de habitantes ou mais. As soluções de seus problemas são muito mais complexas e por isso dependem de uma boa parcela de criatividade para avançarem. Melhorar os deslocamentos, por exemplo, é muito mais do que apenas construir linhas de metrô. Significa criar ciclovias, calçadas que estimulam percursos a pé e até zoneamentos que permitam misturar comércios e residências, reduzindo os trajetos.

A escolha de Tóquio foi embasada na análise de 22 novas métricas sobre o que é uma boa cidade para se viver. Mas a mudança de avaliação da pesquisa apenas reflete a mudança de critérios que já vem ocorrendo nos últimos anos. Gradualmente, a facilidade de ter tudo por perto, a distâncias que podem ser percorridas a pé ou de bicicleta, vale mais do que a tranquilidade de um lar pacato, mas longe de tudo, às vezes, até mesmo das oportunidades de trabalho e estudo. E é justamente em busca de vidas melhores que, a cada mês, 5 milhões de pessoas saem das zonas rurais e migram para centros urbanos. A régua para medir a qualidade de vida não é mais a mesma de décadas passadas. “Foi a maior mudança feita na pesquisa  desde que ela começou a ser realizada”, escreve a publicação. Com isso, a ex-campeã Copenhague foi parar na décima colocação e, o que é mais curioso, empatada com Zurique. Berlim ficou em terceiro e Viena em segundo, provas de que hoje não basta ser um bom destino turístico para ser um lugar onde as pessoas queiram viver.

Este artigo foi publicado originalmente no site da Veja em 15 de maio de 2015.

Mariana Barros é jornalista da revista VEJA e responsável pela coluna Cidades Sem Fronteiras, sobre urbanismo e cidades.

  1. lorrayne silva

    toquio foi planejado ou nao porque?

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